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Os tuítes azuis do patrimônio
SÉRIE
Patrimônio Material do Rio
09 Julho 2015 | Por Sandra Machado
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circuitos homeNos anos 1980, ali pelo Cosme Velho, começaram a surgir as primeiras placas avulsas de sinalização de prédios importantes para a história da cidade. Em geral, eram retangulares, feitas de bronze e custavam caro, cada uma com um formato, tendo em comum apenas o fato de darem um ar solene ao local. Embora nem todo mundo se lembre daquelas, as atuais placas que formam os dez Circuitos do Patrimônio Cultural Carioca – e foram inspiradas nas blue plaques inglesas – já fazem parte do acervo afetivo dos que vivem ou vêm conhecer o Rio de Janeiro. Quem nos conta essa sutil transformação pela qual vem passando a cidade, numa entrevista exclusiva ao Portal MultiRio, é o arquiteto e urbanista Washington Fajardo, presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH) e do Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural.

Portal MultiRio – Como se deu a mudança?

Washington Fajardo – Naquela época, se dava muito valor à placa material, mas pouco ao conteúdo, à história que ela conta. Contratamos um escritório de design, a Agência Guanabara, que ficou responsável por desenvolver não apenas um padrão, mas um manual da identidade visual da placa.

PM – E os 140 caracteres de texto são intencionais?

WF – Sim, foram uma espécie de brincadeira. Na placa se vê, fisicamente, os “tuítes” do patrimônio (risos). Pode ter um pouco mais, um pouco menos do que 140 caracteres, mas geralmente gira em torno disso.

PM – Como se firmou o reconhecimento do modelo?

WF – Foi possível produzir em maior quantidade porque a placa de aço esmaltado é bem simples e não sai tão cara. No entanto, fazemos um controle rigoroso do design porque ela funciona como uma marca. Dessa forma, se conseguiu olhar para outras áreas da cidade, além do Centro e da Zona Sul, embora no início ainda não se pensasse especificamente em circuitos. Pelo fato de as placas serem absolutamente iguais, as pessoas reconhecem o sistema com facilidade.

estudantinaPM – Quantas placas existem nos Circuitos do Patrimônio Cultural Carioca?

WF – As placas não necessariamente integram circuitos: elas permitem diferentes narrativas sobre os lugares da cidade, fazendo conexões entre os territórios. Hoje, temos 220 placas instaladas, que funcionam como uma espécie de selo de patrimônio, e pretendemos chegar a 450.

PM – Existe algum material de apoio ao projeto?

WF – Primeiro publicamos folheteria e mapas, que chegaram a ser distribuídos nas escolas da Rede Municipal. Agora, estamos buscando patrocínio para um aplicativo de celular que facilite localizar pontos correlatos.

PM – Um circuito que já existe pode crescer com novos endereços?

WF – Pode, sim. O Cinema Odeon, que acaba de virar centro cultural, vai receber uma placa. A Casa Cavé, que reabriu recentemente, também. As pessoas nos pedem placas, mas o critério de seleção é que o lugar tenha uma história – um personagem, um evento ou o próprio prédio – que sirva de referência para o universo simbólico do carioca.

PM – As placas podem sinalizar, inclusive, alguma coisa que existiu e não está mais no local, não é mesmo?

WF – Isso acontece, por exemplo, no Circuito dos Cinemas, no caso do Metro Tijuca e do Cine Madrid, por exemplo. Com a colocação da placa, registramos a memória, para que a população veja o tipo de relação que se perdeu junto com os grandes cinemas de rua, de maneira mais contundente. Queremos, também, provocar a curiosidade de quem passa pelas placas.

Origem dos Circuitos do Patrimônio Cultural Carioca

A colocação de placas recebeu um grande impulso na década de 1990, quando o antigo Departamento Geral de Patrimônio Cultural (DGPC) providenciou sua instalação nas Áreas de Proteção do Ambiente Cultural – as Apacs. Em 2010, funcionários da Gerência de Projetos e Obras e da Gerência de Cadastro, Pesquisa e Proteção começaram a selecionar referências para os quatro primeiros temas dos dez atuais circuitos: Samba, Bossa Nova, Praça Tiradentes e Águas (reúne reservatórios e unidades de tratamento). Na sequência, surgiram os demais: da Liberdade, dos Botequins, dos Cinemas, dos Trens, do Choro e Art Déco.

Basta enumerar alguns pontos identificados desse patrimônio para perceber que sua relevância vai bem além do perímetro urbano e tem um peso para a sociedade brasileira como um todo. Como a casa de Dona Zica, onde viveu a companheira do mestre Cartola, no Morro da Mangueira, que integra o Circuito do Samba. Ou a sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), no Centro – em memória de Lyda Monteiro da Silva, secretária morta ao abrir uma carta-bomba destinada à instituição, em 1980 –, que faz parte do Circuito da Liberdade.

villarinoE vêm mais placas a caminho. No início de 2015, um levantamento selecionou 13 estabelecimentos, localizados no Centro e em Copacabana, que se encaixam na categoria de “atividade econômica tradicional e notável”: há chapelarias, confeitarias e lojas de cofres, entre outros tipos de comércio. Dentro de alguns meses, esse levantamento deve dar origem a um novo circuito, entre vários cogitados pela equipe do IRPH.

Placas funcionam como marcos históricos

No Rio de Janeiro, além dos Circuitos do Patrimônio Cultural Carioca, existem outros projetos que também trabalham com as placas azuis. O Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, parte da revitalização da região portuária, e o Circuito RioFilme – Memória do Cinema Carioca são dois exemplos. Além do pioneiro sistema londrino, criado em 1867, há placas azuis também em diferentes capitais europeias – como Dublin, Paris, Roma e Oslo –, além de diversas cidades nos Estados Unidos, no Canadá e na Austrália.

Fontes:
OAKIM, Juliana e MARIATH, L. Circuitos do Patrimônio Cultural Carioca. Rio Patrimônio Cultural, Rio de Janeiro, p. 90-91, jul. 2012.
Jornal O Globo

 
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