ACESSIBILIDADE
Acessibilidade: Aumentar Fonte
Acessibilidade: Tamanho Padrão de Fonte
Acessibilidade: Diminuir Fonte
Youtube
Facebook
Instagram
Twitter

O rico patrimônio cultural do centro do Rio
SÉRIE
Patrimônio Material do Rio
13 Janeiro 2015 | Por Sandra Machado
Compartilhar pelo Facebook Compartilhar pelo Twitter Compartilhar pelo Whatsapp


arcosAssim como as línguas vivas, submetidas a transformações constantes pelo uso dos falantes, também as cidades são organismos de informação em permanente mudança. No Rio de Janeiro, nenhuma outra região concentra conjuntos arquitetônicos mais representativos do que o centro histórico, onde as marcas indeléveis das três estruturas políticas pelas quais passou o país – colonial, imperial e republicana – estão ao alcance de uma boa caminhada. Embora a ocupação do Rio remonte ao século XVI, foi apenas em 1984, a partir da implantação do Corredor Cultural, que se estruturou uma política municipal completa de proteção aos ambientes antigos. Até então, o tombamento se dava apenas para monumentos isolados, mas nunca sobre áreas compostas por diversos prédios, seu entorno e, sobretudo, que levasse em conta a afetividade ligada à memória local.

Por falta de uma cultura de preservação, durante muito tempo – e em especial nas décadas de 1960 e 1970 – demolições apagaram os últimos vestígios de épocas passadas, enquanto abriam espaço para novos templos do desenvolvimentismo, caracterizados pelos arranha-céus do mercado financeiro e pelas amplas avenidas destinadas aos veículos automotivos. Neste início do século XXI, no entanto, a compreensão do significado de metrópole tem sido revista e o carioca se depara com a perspectiva de uma nova repaginação, condizente com paradigmas mais humanizados. Quando a pessoa se torna o centro do processo, o transporte procura ser mais racional, a estética constitui um valor a ser preservado e desperta um olhar voltado não apenas na direção para onde vamos, mas também na de onde viemos.

Muy Leal Cidade de São Sebastião

Um dos mais antigos registros sobre o Rio de Janeiro, atribuído a Tomé de Sousa, recomendava o investimento específico, por parte de Portugal, na localidade que o primeiro governador-geral do Brasil conheceu, maravilhado: “Parece-me que vossa alteza deve mandar fazer ali uma povoação honrada e boa”, escreveu a d. João III. Esse talvez tenha sido o prenúncio do que ainda estava por vir, a despeito dos muitos altos e baixos pelos quais a cidade viria a passar.

Em 1567, quando os invasores franceses foram expulsos, a primitiva vila instalada entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar se transferiu para o alto do Morro do Castelo, de acordo com o padrão português em suas colônias mundo afora: protegida por paliçadas de madeira, com uma praça central onde se localizava a igreja e a escola dos jesuítas, mais os prédios da Casa de Câmara e da Cadeia e os Armazéns da Fazenda Real. O crescimento se deu descendo a Ladeira da Misericórdia, de onde se originou a Rua Direita, conhecida na atualidade como Primeiro de Março.

A partir da extensão para o trecho que equivale à atual Praça Quinze é que as ruas começaram a ter um traçado regular. Por essa época, o Rio tinha recebido até mesmo uma alcunha do reino português: Muy Leal Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Segundo o livro Encantos do Rio, publicado por Augusto Ivan de Freitas Pinheiro e Eliane Canedo de Freitas Pinheiro, três ordens religiosas – a dos beneditinos, a dos carmelitas e a dos franciscanos – se seguiram à dos pioneiros jesuítas, atraídas pelo crescimento da vila, que movimentava o porto graças à exploração do pau-brasil, aos engenhos de cana-de-açúcar e à caça às baleias. Marcos remanescentes do período são as igrejas, conventos e conjuntos religiosos preservados, em contraponto às residências do período colonial, das quais não sobrou nenhum resquício: o Mosteiro de São Bento, na Praça Mauá; o Convento do Carmo, na Praça Quinze; e o de Santo Antônio, no Largo da Carioca.

Posição de destaque no cenário nacional

Somente quando os riscos de novas invasões cederam, no fim do século XVI, é que o povoamento começou a se espalhar em direção à planície, onde se apresentava outro tipo de inimigo: uma grande extensão de terra alagadiça, constituída de pântanos, manguezais e lagoas, que impunha toda sorte de limites, diante dos parcos recursos de então. Com a descoberta das jazidas de ouro em Minas Gerais, no crepúsculo seiscentista, e com o escoamento do produto da mineração pelo porto carioca, em 1763 a capital da colônia foi transferida de Salvador para o Rio de Janeiro.

Como consequência da elevação de status e da riqueza em circulação, a austeridade das construções deu lugar a uma arquitetura de maior ostentação. São exemplos dessa fase, em que finas camadas de ouro recobriam os entalhes de madeira nos altares, a Igreja de São Francisco, no Largo de São Francisco, e o Outeiro da Glória, único exemplar inteiramente barroco preservado na cidade. Ao apagar das luzes do século XVIII, o Rio de Janeiro já havia se consolidado como metrópole.

A dificuldade do terreno pantanoso só viria a ser sanada com a vinda da família real, em 1808. Data desse período o primeiro sistema de drenagem, projetado para facilitar a instalação de mais de 15 mil pessoas que chegavam acompanhando d. João VI. A súbita elevação da taxa demográfica fez com que a malha urbana precisasse se expandir em direção ao norte (Catumbi e São Cristóvão) e ao sul (Laranjeiras e Botafogo). Outra consequência direta dizia respeito aos costumes: pouco a pouco, a vida cultural passou a admitir passeios pelas ruas, inclusive de mulheres devidamente acompanhadas pelos homens da família, o que intensificou a importância da convivência em sociedade.

Período de decadência

Assim que d. Pedro I proclamou a independência do Brasil, em 1822, surgiram novas necessidades. Foi o período das construções no estilo neoclássico, trazido pela Missão Francesa, que perdurou por todo o século XIX, não apenas nas obras monumentais, mas, também, no casario. Pé direito elevado e escadas externas, em mármore ou granito, eram típicos das moradias e também dos palacetes dos barões do café. O patrimônio inclui os palácios do Itamaraty e do Catete, os prédios do Automóvel Clube e da Santa Casa de Misericórdia e a Igreja da Candelária, todos construídos durante o Segundo Reinado. Por essa época, a burguesia comercial abandonou a parte antiga da cidade em direção aos novos bairros residenciais, ao sul (Copacabana, Ipanema e Leblon) e ao norte (Tijuca, Vila Isabel e Méier). A libertação da mão de obra escrava, somada aos imigrantes que chegavam sonhando enriquecer, transformou as ruas do Centro em hospedagem de segunda classe. Proliferavam, então, os cortiços e as casas de cômodos decadentes. Havia problemas de circulação e de insalubridade.

No fim do século XIX, a tendência das construções no Rio se voltou para a Europa. Uma mescla de estilos resultou no ecletismo, predominante no período da Primeira República. Preciosidades dessa fase são o Real Gabinete Português de Leitura e o castelinho da Ilha Fiscal, construídos no estilo neogótico. Por essa época, os navios estrangeiros não aportavam no cais, temerosos das epidemias, concentradas especialmente na área central torreaoda cidade, que lentamente se tornou uma região de submoradia.

Configuração moderna

Com o advento da proclamação da República, em 1889, e as reformas do prefeito Pereira Passos, entre 1903 e 1906, a renovação urbana modificou profundamente a paisagem carioca, numa tentativa de fazê-la ostentar ares mais cosmopolitas. O médico sanitarista Oswaldo Cruz coordenou campanhas de combate à febre amarela e à varíola, que, apesar de seu excelente resultado, desencadearam a Revolta da Vacina, com uma série de confrontos que durou dias nas ruas da capital.

Melhorar as condições de higiene passava, também, pela arquitetura: vielas e becos deram lugar a avenidas largas, e edifícios comerciais foram erguidos para atender ao centro financeiro. Datam desse período a Avenida Central, atual Rio Branco, a Avenida Beira Mar e a Avenida Rui Barbosa. Com inspiração nos bulevares parisienses, algumas ruas foram alargadas: Avenida Passos, Rua Uruguaiana e Rua da Carioca, entre outras. Foi aberta, também, a Avenida Rodrigues Alves, a partir da inauguração do novo porto ao longo de um cais de quase quatro quilômetros de extensão.

Na Belle Époque brasileira, o ponto alto do dia era frequentar os cafés chiques na Rua do Ouvidor. Em nome da modernização, grande parte da arquitetura colonial foi destruída para dar lugar a prédios, no modelo eclético, do imponente conjunto arquitetônico da Cinelândia (Praça Marechal Floriano), em que se destacam o Museu Nacional de Belas Artes, o Theatro Municipal e a Biblioteca Nacional. A partir da década de 1910, o ecletismo conviveu com dois novos estilos: art nouveau, que marca a Confeitaria Colombo e o Restaurante Albamar; e o clássico, do qual o Palácio Tiradentes é um exemplo. Na década de 1920, houve o desmonte do Morro do Castelo e, com ele, desapareceram os últimos vestígios do núcleo original da cidade.

Patrimônio recente

A realização da Exposição Internacional do Centenário da Independência, em 1922, inaugurou a era industrial. O antigo prédio do Museu da Imagem e do Som, na Praça Quinze, é remanescente daquele grande evento. Já o primeiro arranha-céu da cidade, com 20 andares, foi o Edifício A Noite (1929), que permanece firme na Praça Mauá. A partir de 1925, o art déco entrou em destaque. Um bom exemplo do estilo é a Casa Cavé, na Rua Uruguaiana.

Durante o Estado Novo, foram abertas vias da magnitude da Avenida Presidente Vargas, de mais de quatro quilômetros de extensão e 80 metros de largura. A sua construção implicou a demolição de cerca de 500 imóveis, incluindo cinco igrejas, além da destruição completa da Praça Onze.

Em meados do século XX, foram arrasados o Morro de Santo Antônio e grande parte da Lapa, para permitir a abertura da Avenida Chile. Na Praça Quinze, o Mercado Central deu lugar à Avenida Perimetral. É da mesma época a construção do Palácio Gustavo Capanema, projeto da arquitetura modernista desenvolvido por Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e Affonso Eduardo Reidy. Na sequência, o Aterro do Flamengo se firmava como a maior obra de engenharia em áreas alagadas do município. O parque tornou-se a mais significativa contribuição ao lazer do carioca, entre as diversas ações por ocasião do 400º aniversário da cidade. Às vésperas de completar 450 anos, o Rio de Janeiro atravessa outras tantas reconfigurações, a serem, um dia, igualmente lembradas pelas gerações futuras.

Referência bibliográfica:
PINHEIRO, Eliane Canedo de Freitas; PINHEIRO, Augusto Ivan de Freitas. Encantos do Rio. Rio de Janeiro: Salamandra, 1995.

 
Compartilhar pelo Facebook Compartilhar pelo Twitter Compartilhar pelo Whatsapp
MAIS DA SÉRIE
texto
Conheça a história dos personagens que viraram patrimônio da cidade

Conheça a história dos personagens que viraram patrimônio da cidade

29/03/2016

Na cidade do Rio, 1.265 monumentos homenageiam cantores, políticos, escritores e poetas. 

Patrimônio Material do Rio

texto
Os tuítes azuis do patrimônio

Os tuítes azuis do patrimônio

09/07/2015

Em entrevista ao Portal, Washington Fajardo, presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), fala sobre as novas sinalizações que formam os dez Circuitos do Patrimônio Cultural Carioca.

Patrimônio Material do Rio

texto
Patrimônio que você nem imagina

Patrimônio que você nem imagina

08/06/2015

Não só os prédios fazem parte dos bens tombados na cidade. Elementos inusitados, como o calçamento e a pintura mural do Profeta Gentileza, se incluem na preservação cultural.

Patrimônio Material do Rio

texto
Alerta vermelho para reservatórios tombados

Alerta vermelho para reservatórios tombados

12/05/2015

Dezenas de reservatórios são tombados. Marcos da engenharia desenvolvida no Rio, alguns deles se encontram subaproveitados, embora mereçam ser reinseridos no acervo afetivo da cidade.

Patrimônio Material do Rio

texto
Árvores integram patrimônio do Rio

Árvores integram patrimônio do Rio

13/04/2015

Elas estão por toda parte, muitas há gerações, e podem ser escolhidas para tombamento tanto por seu valor botânico quanto pela relevância como marco paisagístico de uma época.

Patrimônio Material do Rio

texto
Corredor Cultural preserva memória do Rio

Corredor Cultural preserva memória do Rio

06/01/2015

Nos anos 1980, o Corredor Cultural inaugurava as políticas públicas voltadas à preservação do ambiente construído. Além de proteger o centro histórico, também originou o modelo da Apac – Área de Proteção do Ambiente Cultural. 

Patrimônio Material do Rio

texto
Uma visita ao Real Gabinete Português de Leitura

Uma visita ao Real Gabinete Português de Leitura

04/11/2014

A instituição digitalizou parte de seu acervo e oferece uma programação especial para professores e alunos.

Patrimônio Material do Rio