As relações das tribos urbanas com a cidade

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tribos5“Ah, essa pessoa é da minha tribo!” Quem nunca ouviu ou usou essa expressão? O fenômeno das tribos urbanas ganhou o vocabulário e as ruas das grandes cidades. Embora muita gente tenha noção do que se trata, ainda falta conhecer as origens e as características desses grupos. Compreendê-los melhor pode significar um maior aprofundamento em aspectos importantes da sociedade contemporânea. Com esse objetivo, ouvimos os especialistas João Maia e Felipe Berocan, que tratam da relação das tribos com a cidade e vice-versa.

João Maia – Diretor da Faculdade de Comunicação Social (FCS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). É o líder do grupo de pesquisa CAC – Comunicação, Arte e Cidade – CNPq/Uerj. Doutor em Sociologia e pós-doutor em Estudos Culturais.

Portal MultiRio – Como você avalia a relação das tribos urbanas com a cidade?

João Maia  – Sempre de uma maneira muito otimista. Na verdade, essa ideia, essa noção de tribos urbanas nasceu nos anos 1980 com um sociólogo francês chamado Michel Maffesoli. Ele era frequentador assíduo do Rio de Janeiro. Inclusive, no livro O tempo das tribos, ele cita como exemplo a praia de Ipanema, que é dividida em “tribos”. Você vai ao Posto 9, essa faixa de areia é frequentada por um determinado tipo de gente, que se veste com um determinado tipo de biquíni ou de sunga ou tem práticas sociais específicas. Enfim, vemos algumas separações.

Portal MultiRio – Há a contribuição de outros autores?

João Maia – Outro sociólogo, chamado Anthony Giddens, vai falar no conceito de estilo de vida, que também podemos associar a tribos urbanas.

Portal MultiRio – Afinidades ajudam a demarcar fronteiras?

João Maia – É muito através da sensibilidade e do gosto que você percebe a diferença entre as tribos.

Portal MultiRio – As expressões artísticas, a questão estética e até as ações do cotidiano são importantes para entender as tribos? Abordar o comportamento desses grupos não traz o risco de se fazer uma análise do superficial?

tribos_urbanas_03João Maia – A estética pode revelar muita coisa dos grupos, do sujeito. Existe uma profundeza enorme na superfície, como ele mesmo falaria (Maffesoli), e através da superfície você pode compreender a coesão social ou mesmo a dispersão social: as pessoas se agregando ou se dispersando através desse gosto, ou pela roupa, ou pela música, ou até pela maneira de sambar.

Portal MultiRio – Você pode dar um exemplo?

João Maia – Trabalho há muitos anos na comunidade da Mangueira, numa sublocalidade chamada Candelária. Lá, as meninas dizem que o povo da Candelária, especificamente as sambistas ou as passistas da Candelária sambam, dançam completamente diferente de qualquer outra moça de qualquer outro bairro dentro da própria Mangueira. Então você vê ali um estilo diferente se revelando.

Portal MultiRio – Alguns códigos de tribos não são verbais. Por favor, dê um exemplo.

João Maia – Numa rua em que eu morava, em Copacabana, os porteiros abriam as portas das garagens em homenagem à mulher bonita que passava.

Portal MultiRio – No Rio, tribos distintas confraternizam em locais inusitados... 

João Maia – Você vê em ônibus do subúrbio geralmente. É muito legal. Natal, aniversários são comemorados dentro de ônibus. Aquele povo que pega no mesmo horário o transporte – e viram amigos, até tendo diferenças explícitas. A diferença também pode causar um certo tipo de coesão social, de união.

Portal MultiRio – Qual é a relação entre diferenciação, classes sociais e tribos? 

João Maia – A diferenciação vem a partir de grupos, no plural, na heterogeneidade, e não mais em classes sociais como era há algumas décadas, na modernidade. (...) Hoje você vê uma miscelânea muito grande de gostos, e eu posso aproveitar isso tudo. Posso ser, durante o dia, um executivo e, à noite, cair num sambão rasgado.

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Portal MultiRio – A pessoa que tem afinidade com certa tribo não tende a se fixar ali?

João Maia – Ora posso estar num grupo, ora posso estar em outro. Posso estar em vários grupos ao mesmo tempo. Não temos uma rigidez de comportamento, como tínhamos antigamente.

Portal MultiRio – Muitos pais se preocupam quando os filhos ostentam símbolos de tribos urbanas – no corte de cabelo, nas roupas, no jeito de falar. O que dizer a eles?

João Maia – De um modo geral, falando sociologicamente do grupo e não de um indivíduo especificamente (nesse caso teríamos que analisar em particular). Os grupos, hoje, da maneira que se formam, se deformam também. Há uma rapidez muito grande. É por isso que não vivemos mais numa sociedade tão rígida. Há um autor chamado Zygmunt Bauman que diz que vivemos numa sociedade líquida – a contemporaneidade. Alguns autores chamam de pós-modernidade. Essa é a beleza da nossa época: viver essa possibilidade de trânsito, de mobilidade, de flexibilidade.

Portal MultiRio – Você concorda com quem aponta o jovem como o protagonista das tribos?

João Maia – Vou citar Massimo Canevacci, um autor italiano que diz que a juventude, nos nossos dias, é uma noção estendida. É muito difícil determinar faixa etária. (...) No dia a dia, o que vemos é uma juventude estendida. Não temos mais o que é ‘jovem’. Tenho 50 anos e juro que sou jovem. 

Portal MultiRio – Como você avalia a popularização das tribos urbanas pela mídia?

João Maia – Esse termo – tribos urbanas – realmente levou as pessoas a compreender melhor que existem vários grupos diferentes na cidade. Isso é muito legal. Se esse termo veio e se encaixou no senso comum, se foi para o jornal, foi para falar: “olha, há um indivíduo ali que é bem diferente de você, que vive num outro mundo, com outro grupo”.

Portal MultiRio – Para alguns estudiosos, o uso indiscriminado do termo poderia gerar mal-entendidos. Como você vê essa questão?

João Maia – Acho brilhante um autor contemporâneo, sociólogo, estar ligado à nossa cultura cotidiana, porque poucos autores conseguem tirar do vocabulário acadêmico uma ideia que grude no senso comum. Todo o mundo fala “tribos” até hoje, décadas depois. (...) Tenho um caso engraçado. Eu dava aula numa faculdade particular antes de ser pesquisador, numa época em que o termo não era tão difundido, e uma aluna se levantou: “o senhor acha que vivemos como índios, pendurados em árvores?”. O termo, lógico, já foi mal interpretado.

Portal MultiRio – Pode citar mudanças desde que Maffesoli retratou o fenômeno?

João Maia – Quando ele falou isso, nos anos 1980, talvez houvesse uma separação muito maior entre as tribos e, aí, mais preconceitos, fronteiras muito mais rígidas entre os grupos.

Portal MultiRio – E quanto à ideia inicial de que essas redes de amizade se reuniriam mais para viver o aqui e agora do que para traçar projetos voltados para o futuro?

João Maia – Não é só ser uma coisa ou outra. As pessoas não se encontram só para estar à toa ou só se encontram para negociar altas problemáticas políticas e econômicas. As coisas se embaralham.

Portal MultiRio – A busca pela tribo tem a ver com a necessidade de afeto?

João Maia – O Maffesoli usa um neologismo para falar dessa situação contemporânea da afetividade. Ele vai usar uma noção, uma ideia de "afetual". Não é mais o afetivo contra a razão ou a emoção contra a razão, mas é uma mistura possível. É o homem contemporâneo, que não nega mais o lado afetivo nas relações.

 

 

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BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

CANEVACCI, Massimo. Culturas extremas. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo: Unesp,1991.

MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1998.

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