03 Fevereiro 2016
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O carnaval começou há milhares de anos, mas só atingiu a harmonia perfeita há menos de um século, no Rio de Janeiro, quando encontrou suas protagonistas ideais: as escolas de samba. Ao surgirem, as primeiras escolas aproveitavam os festejos de Momo para desfilar pelas ruas da cidade de maneira espontânea e amadora. A evolução desses desfiles resultou na maior festa popular do planeta, um espetáculo midiático e luxuoso.

Hoje, essas agremiações são consideradas Patrimônio Cultural Carioca e a passagem delas pelo Sambódromo é vista por milhões de pessoas em todo o mundo. Antes delas, no entanto, os carnavais já eram muito bem celebrados pelos cariocas. Vale a pena fazer tal qual as baterias das escolas e executar um recuo (no tempo) para saber como os desfiles se tornaram o que são.

Destaques de uma outra avenida

Na comissão de frente da história dos desfiles carnavalescos destacam-se os corsos, as grandes sociedades e os ranchos, que no início do século XX alegravam os foliões e ocupavam o principal palco de então: a Avenida Central, atual Rio Branco. Havia também blocos e cordões que se apresentavam em ruas secundárias e de maneira menos organizada. Muitas das escolas mais famosas começaram dessa maneira.

Os corsos e as grandes sociedades, de origem europeia e surgidos em meados do século XIX, representavam a folia da alta sociedade, com suas fantasias luxuosas. O desfile de automóveis dos corsos saía aos domingos, enquanto as grandes sociedades e seus carros alegóricos passavam às terças-feiras.

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Desfile de corsos no carnaval de 1920 (Foto: Augusto Malta/ Acervo Museu da Imagem e do Som)

A fundação do primeiro rancho do Rio, o Reis de Ouro, foi em 1894, quando o militar Hilário Jovino Ferreira adaptou de sua Bahia natal as procissões realizadas durante o Dia de Reis. Essa manifestação logo caiu no gosto popular e se multiplicou, atraindo famílias e representando o lado popular da festa. Os cortejos, caracterizados pelas fantasias e músicas feitas especialmente para a ocasião, aconteciam nas segundas-feiras.

A trilha sonora que embalava esses desfiles era bem diferente do samba-enredo, gênero que nem existia na época. As pessoas cantavam os principais sucessos do ano anterior, muitas vezes em versões adaptadas para a polca ou o maxixe. Os ranchos eram animados pelas marchas-rancho, canções de andamento lento cujas grandes referências são Ó Abre-Alas, de Chiquinha Gonzaga, e As Pastorinhas, de Noel Rosa e Braguinha.

Antes das escolas, o samba

O samba começou a se associar ao carnaval em 1917, quando Pelo Telefone se tornou o grande sucesso da folia daquele ano. Reconhecido como “o primeiro samba”, a música de Donga e Mauro de Almeida, na verdade, não foi a primeira composição identificada como tal, mas certamente foi a primeira a cair nas graças do público.

A partir daí, o ritmo passou a se popularizar, ainda pelas camadas mais pobres da população, mas com força suficiente para se espalhar por vários pontos do Rio. Um desses pontos foi o bairro do Estácio, onde, em meados da década de 1920, uma turma liderada por Ismael Silva, Bide e Nilton Bastos criou uma nova cadência para o samba, mais apropriada para dançar e acompanhar os desfiles de rua. Esse “samba de sambar” foi logo compartilhado com grupos de outros cantos da cidade, como o bairro de Oswaldo Cruz e os morros da Mangueira e do Salgueiro.

Essa mesma turma do Estácio fundou, em 1928, a Deixa Falar, considerada a primeira escola de samba da história, embora haja registros de alguns blocos que, nos anos anteriores, já se autodenominassem como tal. A versão mais aceita para a origem do termo “escola de samba” se deve à proximidade entre a sede da Deixa Falar e a Escola Normal, nas cercanias do Largo do Estácio. Enquanto a tradicional instituição formava mestres, a nova se encarregaria de formar professores de samba.

Concurso de sambas

Em 20 de janeiro de 1929, a Deixa Falar participou do primeiro concurso de sambas, ao lado do Conjunto Carnavalesco de Oswaldo Cruz e do bloco Estação Primeira, que mais tarde dariam origem à Portela e à Mangueira, respectivamente. Idealizado pelo mangueirense Zé Espinguela, o certame foi precursor da competição que surgiria entre as escolas e teve como vencedor o pessoal de Oswaldo Cruz.

Nesse tempo, os blocos/escolas desfilavam durante o carnaval pelas ruas próximas a suas sedes e na região da Praça Onze. Alguns elementos de sua estrutura foram copiados dos ranchos, como as figuras do mestre-sala, da porta-bandeira e do mestre de harmonia. Um trecho do livro Paulo da Portela: Traço de União entre Duas Culturas, de Lygia Santos e Marília Barboza da Silva, descreve uma apresentação da Portela na década de 1920 e ajuda a visualizar os primórdios de um desfile:

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A Praça Onze em sua configuração original: palco dos primeiros desfiles.(Foto: Augusto Malta/ Coleção Gilberto Ferrez/ Instituto Moreira Salles)

“O primeiro elemento a se apresentar era o pede-passagem, onde vinha gravado o símbolo e o nome da escola. Logo atrás, a comissão de frente, naquela época também chamada de linha de frente. Em seguida, a porta-bandeira e o mestre-sala. Atrás deles, o primeiro puxador de samba e o primeiro versador, seguidos pelo caramanchão, que trazia a alta direção da escola, e pelo segundo par de porta-bandeira e mestre-sala. Depois, o segundo versador e o segundo puxador. No final, a bateria precedida pelo respectivo diretor. A bateria não era fantasiada obrigatoriamente. Em torno do caramanchão, limitadas pelas filas de baianas (duas linhas laterais), evoluíam as fantasias.”

Os primeiros desfiles

Em 1932, para movimentar o período de recesso dos times de futebol da cidade, o jornal Mundo Sportivo, dirigido por Mário Filho, decidiu organizar o primeiro desfile competitivo das escolas de samba. A divulgação do evento pela imprensa ajudou a atrair um grande número de curiosos, que assistiu a 19 escolas passarem pela Praça Onze no dia 7 de fevereiro, domingo de carnaval. Os jurados elegeram a Mangueira como campeã.

Curiosamente, a Deixa Falar não fez parte desse e de nenhum outro desfile de escolas de samba. Em 1932, a agremiação decidiu sair com os ranchos, de maior prestígio, e encerrou as atividades logo depois, devido a desavenças interna.

O Mundo Sportivo também não durou até o carnaval seguinte, mas o sucesso de público fez com que o jornal O Globo assumisse a organização do evento em 1933. Dessa vez, 35 escolas se apresentaram, entre 20h30 e 4h15, perante o povo e os jurados, que novamente declararam a Mangueira campeã.

Em 1934, o desfile ocorreu fora do carnaval, pela única vez. Em 20 de janeiro, as principais escolas saíram no Campo de Santana em evento organizado pelo jornal O Paiz em homenagem ao então prefeito Pedro Ernesto que, no ano seguinte, retribuiu a gentileza e tornou oficial o desfile das escolas de samba: inseriu-o no calendário turístico da cidade e passou a destinar recursos para sua realização.

Nesses primeiros anos, como as agremiações possuíam poucas centenas de integrantes, a passagem de cada uma delas pela Praça Onze durava apenas cerca de dez minutos, bem diferente do gigantismo atual, no qual elas têm até quatro mil componentes e devem desfilar entre 65 e 82 minutos. O formato da apresentação também pouco lembra o espetáculo atual. As escolas podiam cantar até três sambas inéditos, que geralmente tinham apenas uma primeira parte seguida por versos improvisados. Além disso, não havia qualquer relação entre música, enredo, fantasias e alegorias.

Isso começou a mudar em 1939, quando a Portela se apresentou ao som de Teste ao Samba, considerado por muitos o primeiro samba-enredo. Embora alguns digam que esse pioneirismo tenha sido da Unidos da Tijuca, em 1933, ou da Mangueira, em 1934, o fato é que a Portela inovava ao buscar uma unidade entre enredo, música, fantasias e alegorias. Merecidamente, foi a campeã do ano.

Crescimento e consolidação

Os desfiles se tornavam cada vez mais populares, com dezenas de milhares de espectadores que se espremiam nas calçadas para vê-los. Eles continuaram a ser realizados mesmo durante a Segunda Guerra Mundial. Com a demolição da Praça Onze para a construção da Avenida Presidente Vargas, foram transferidos para a Avenida Rio Branco em 1943 e 1944 e para o Estádio de São Januário em 1945.

Após a inauguração da Presidente Vargas, as escolas se apresentaram ali entre 1946 e 1956, mas voltaram à Rio Branco em 1957 devido ao grande público que, a essa altura, já chegava a centenas de milhares de espectadores, fazendo dos desfiles o principal evento do carnaval carioca.

Em 1959, o Salgueiro inovou ao contratar o casal de artistas plásticos Dirceu e Marie Louise Nery para organizar seu desfile. Com fantasias e alegorias mais bem acabadas, a escola foi aplaudida pelo público, mas ficou com o vice-campeonato. No ano seguinte, persistiu na inovação ao dar espaço para que Fernando Pamplona iniciasse uma revolução estética e temática nos desfiles. O professor da Escola Nacional de Belas Artes começou a transformá-los no espetáculo luxuoso que são atualmente e, ao mesmo tempo, aproximou-os mais do povo ao criar enredos sobre elementos da cultura afro-brasileira, rompendo com temas que apenas celebravam figuras da história oficial.

Com essas mudanças, ao longo da década de 1960, foliões da classe média começaram a desfilar pelas agremiações. Em 1961, pela primeira vez foram vendidos ingressos para os espectadores, que assistiam às escolas em arquibancadas desmontáveis.

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Construído especificamente para os desfiles, o Sambódromo foi inaugurado em 1984. (Foto: RIOTUR)

Em 1978, as apresentações foram transferidas para seu local definitivo, a Avenida Marquês de Sapucaí, ainda sem o Sambódromo, inaugurado em 1984. Além da abertura da Passarela do Samba, outra novidade desse ano foi a divisão dos desfiles em dois dias.

Desde então, os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro levaram ao delírio milhões de espectadores e telespectadores de todo o mundo. Aos cariocas, em particular, resta o orgulho de ver, a cada ano, o maior show da Terra ser realizado em sua cidade.

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