27 Novembro 2015
0
0
0
s2sdefault
 

Revolta da Chibata BAEntre 22 e 27 de novembro de 1910, marinheiros, cabos e sargentos rebelaram-se na cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, contra a situação desumana a que eram submetidos na Marinha do Brasil.

“A revolta nasceu dos próprios marinheiros para combater os maus-tratos e a má alimentação e acabar definitivamente com a chibata na Marinha. E o caso era este. Nós, que vínhamos da Europa, em contato com outras marinhas, não podíamos ainda admitir que na Marinha brasileira o homem tirasse a camisa para ser chibateado por outro homem”, relatou João Cândido, líder do movimento, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, em 1968.

A expressão “Revolta da Chibata” só foi usada a partir de 1958, quase meio século depois, quando o jornalista Edmar Morel lançou um livro com esse título – e que acabou batizando o movimento.

A publicação esteve na lista das obras mais vendidas na época, ao lado de outra obra: o romance Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado.

O Rio de Janeiro e o contexto da época

As primeiras décadas do período republicano no Brasil foram marcadas por diversas revoltas e conflitos de caráter popular, que tiveram origem no descontentamento com a forma de governo vigente, como, por exemplo, a Guerra de Canudos (no interior do estado da Bahia), em 1896; a Revolta da Vacina (no Rio de Janeiro), em 1904; e a própria Revolta dos Marinheiros, de 1910.

Naquela época, o Rio de Janeiro ainda continuava a exercer, na prática, o papel de cidade imperial da nação. E tinha fortes traços coloniais e africanos, sobretudo nos bairros portuários da Saúde e Gamboa – frequentados pela maioria dos marinheiros –, que, somados à área da Praça Onze, formavam o que já foi chamado de Pequena África carioca.

Cortiços, sobrados e construções encravadas na rocha compunham a região, considerada o berço do samba, e que também abrigou os primeiros grupos de choro, assim como maxixe e lundu.

Ao mesmo tempo, o Rio de Janeiro se modernizava, com a abertura da Avenida Central (hoje, Rio Branco), a demolição do Morro do Castelo e a inauguração de prédios monumentais e europeizados, como o da Biblioteca Nacional e do Theatro Municipal.

Aristocracia e preconceito racial

Ao longo do século XIX, a disciplina na Marinha foi baseada em regras do período colonial, entre as quais se decretava que os marinheiros seriam “corrigidos por meio de pancadas de espada e chibatada”.

Raros eram os jovens que desejavam ser marinheiros naquela época. O baixo salário, as violências sexuais e as formas de disciplina usadas afastavam os voluntários para o serviço militar. Os homens eram recrutados à força, nas ruas ou prisões. Menores pobres, órfãos e desvalidos costumavam ser enviados por pais, juízes e tutores ao alistamento, encorajados pelo governo, que oferecia o pagamento de prêmios aos responsáveis dos meninos.

Punições severas

Em 16 de novembro de 1889, logo depois da Proclamação da República, os castigos foram suprimidos, mas a situação ainda era semelhante à do período colonial. Tanto que, em abril de 1890, poucos meses depois, um decreto reintroduziu legalmente as punições, renovando e justificando a permanência dos referidos castigos na república brasileira.

Quando a Marinha se reorganizou, durante o processo de independência do país, sob a liderança do almirante inglês Thomas Cochrane – contratado por D. Pedro I e José Bonifácio –, os castigos corporais não só foram mantidos, como foram até reforçados pela tradição aristocrática inglesa.

Elogios e punições dependiam, muitas vezes, da ligação pessoal que cada marujo tinha com oficiais ou comandantes a bordo. Também vigorava o preconceito racial. Negros não podiam, por exemplo, ser oficiais. Parte dos oficiais, inclusive, desejava “embranquecer” a Armada como um todo.

O descontentamento no grupo de marujos ia além dos castigos empregados como forma de correção: os baixos pagamentos, a má alimentação, o tempo de serviço obrigatório – aumentado de 12 para 20 anos (segundo as autoridades, por dificuldades de encontrar interessados em servir na Marinha) – e a impossibilidade de ascender hierarquicamente também foram fatores que colaboraram na busca por mudanças.

Além disso, exemplos ao redor do mundo influenciaram os marinheiros a colocarem em prática a Revolta, como o conhecimento da organização das marinhas de outros países e as notícias do Encouraçado Potemkin, navio de guerra russo que se tornou emblemático devido à revolta da sua tripulação, em junho de 1905, contra as más condições em que operavam.

O estopim da revolta

A ideia da rebelião amadureceu entre os marujos por volta de 1908. Da conspiração à organização, foram feitas tentativas de negociação com as autoridades, até que em maio de 1910, João Cândido, considerado líder entre os marinheiros, foi recebido pelo então presidente da República, Nilo Peçanha, e pelo ministro da Marinha, almirante Alexandrino de Alencar. No entanto, não houve nenhuma medida concreta das autoridades para atender as demandas.

A embarcacao MGApoiado por Nilo Peçanha, o marechal Hermes da Fonseca havia vencido Rui Barbosa na disputa eleitoral de 1910. Os marinheiros, no entanto, eram simpatizantes de Rui Barbosa, que, quando senador, levou ao conhecimento de seus colegas de governo a situação de maus-tratos e os castigos corporais sofridos por eles.

Assim, a revolta foi marcada, inicialmente, para 15 de novembro, dia da posse do presidente eleito. Organizados em comitês, os marujos discutiam as suas reivindicações, e acabaram por alterar a data para o dia 24 do mesmo mês.

Um novo acontecimento, no entanto, mudou, novamente, os planos: o caso do marujo Marcelino Rodrigues Menezes, ocorrido no dia 21. Depois de ferir um de seus colegas durante uma briga, ele foi punido com 250 chibatadas, na presença dos outros marinheiros, dentro do encouraçado Minas Gerais, desencadeando a revolta, que teve início no dia seguinte ao episódio.

João Cândido, então, redigiu uma carta reivindicando o fim dos castigos físicos, melhorias na alimentação e anistia para todos os que participaram da revolta. Caso não fossem cumpridas as reivindicações, os marinheiros ameaçavam bombardear a cidade do Rio de Janeiro.

Então, na noite do dia 22, a tripulação das embarcações Bahia, Minas Gerais, São Paulo e Deodoro se rebelaram aos gritos de “Viva a liberdade!” e “Abaixo a chibata!”. A cidade estava na mira dos canhões da Marinha e prestes a presenciar o que o escritor Oswald de Andrade chamou de “a primeira revolução política que o Brasil teve nesse século – a do marinheiro João Cândido”.

Falsa anistia e segunda revolta

chibata jbDiante da grave situação, o presidente Hermes da Fonseca – empossado havia uma semana – e o Congresso Nacional aceitaram todas as condições. Porém, após os marinheiros terem entregado as armas e embarcações, o presidente driblou a anistia e assinou um decreto que permitia a expulsão de todos os marujos cujas presenças fossem julgadas inconvenientes por seus superiores da Armada.

Isso resultou em 1216 expulsões (número equivalente a quase metade dos participantes da revolta), centenas de prisões (acompanhadas de maus-tratos) e um número não contabilizado de mortes.

Apesar da sede de vingança dos oficiais da Marinha, eles não foram os únicos responsáveis por tais agressões. O governo referendou todos os atos e, inclusive, promoveu os mais notórios carrascos.

A imprensa, até mesmo o jornal Correio da Manhã – o único dos grandes órgãos que simpatizara com o movimento –, incitava à represália contra os marujos. Parte significativa da população também condenava abertamente o governo por ter concedido anistia.

Diante desse quadro, no começo de dezembro, os marinheiros fizeram outra revolta na Ilha das Cobras, desta vez envolvendo as tropas do Batalhão Naval e do navio Rio Grande do Sul. As embarcações com os marujos da primeira revolta não tiveram qualquer participação.

Esse segundo levante foi fortemente reprimido pelo governo, com a prisão de vários marinheiros em celas subterrâneas da Fortaleza da Ilha das Cobras, com condições de vida desumanas – razão pela qual alguns prisioneiros faleceram. Outros revoltosos foram enviados para a Amazônia, onde prestariam trabalhos forçados na produção de borracha.

João Cândido, o Almirante Negro

João Cândido (Imagem: Domínio público)

Há muito tempo nas águas
Da Guanabara
O dragão no mar reapareceu
Na figura de um bravo
Feiticeiro
A quem a história
Não esqueceu
Conhecido como
Navegante Negro
Tinha a dignidade de um
Mestre-sala [...]

(Mestre sala dos mares, composição de João Bosco e Aldir Blanc)

Durante a primeira revolta, reconhecido como líder entre os marinheiros, João Cândido fora chamado de almirante e herói pelo escritor Gilberto Amado, em artigo publicado no jornal O País.

 

Depois, em 1912, na Gazeta de Notícias, já era tratado pelo escritor João do Rio como Almirante Negro – apelido pelo qual ficou conhecido.

Apesar de não ter participado na segunda rebelião, João Cândido foi preso, sob a acusação de tê-la liderado. Depois de detido e interrogado, ele foi conduzido à Ilha das Cobras e jogado com mais 17 marujos em uma solitária, onde foram tratados de maneira cruel e desumana.

Traumatizado com as brutalidades sofridas e presenciadas no local, João tinha visões dos companheiros que não sobreviveram às condições impostas em cárcere e, depois de examinado por uma junta médica, foi considerado louco e enviado para o Hospital Nacional dos Alienados, no bairro da Urca – onde hoje funciona um campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

João Cândido vendendo peixe na Praça XV, centro do Rio de Janeiro, 1938 (Imagem: Arquivo Edmar Morel/ Biblioteca Nacional)

Lá, ficou pouco mais de um mês (entre abril e junho de 1911) e, depois de os médicos constatarem sua sanidade, foi mandado novamente para a Ilha das Cobras. 

Apenas em setembro de 1912 conseguiu ser ouvido pelo Conselho de Investigação. Assim como os outros acusados, João foi absolvido com a ajuda de advogados chamados pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, agremiação fundada por escravos alforriados e que abrigava e protegia cativos na época da escravidão.

Ao sair da cadeia, João soube que havia sido excluído dos quadros da Marinha de Guerra do Brasil.

Conseguiu trabalho em barcos particulares, como timoneiro e carregador, entre outros. Em todos esses empregos, foi demitido por pressão de oficiais da Marinha sobre os patrões. Até que comprou uma modesta embarcação para pescar no centro do Rio, e vender peixes no mercado do cais Pharoux (Praça XV).

Com a saúde debilitada, João Cândido faleceu em 1969, no Rio. Edmar Morel, o autor de A Revolta da Chibata, pronunciou apenas uma frase à beira do túmulo: “Adeus, João Cândido, você dignificou a espécie humana”.

Em 2008, quase um século depois da revolta, foi sancionada uma lei concedendo anistia post mortem a ele e a outros marujos participantes da revolta. 

Série relembra revoltas populares no Brasil

Por meio de imagens e gravações históricas, a série televisiva O Mochileiro do Futuro, produzida pela MultiRio, aborda importantes revoltas populares que ocorreram no Brasil.

Os programas mostram as aventuras de um jovem que encontra um par de óculos capazes de transportá-lo ao passado. Nessa viagem virtual, presencia importantes eventos da História.

Os  episódios falam sobre a Revolta da Chibata, a Guerra de Canudos, entre outras, e podem ser vistos no PORTAL MULTIRIO e no canal da Empresa no Youtube.

 

Fontes:

João Cândido – A Luta pelos direitos humanos. Fundação Banco do Brasil.

NASCIMENTO, A.P. do. Contra a chibata, canhões. Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, set. 2007.

SILVA, M. A. da. “Nossa Classe” – Revolta da Chibata na imprensa operária, Revista Brasileira de História, São Paulo, 2, (3): 33 – 44, mar. 1982.

http://www.arquivoestado.sp.gov.br/exposicao_chibata/

Mídias Relacionadas
Relacionados
Mais Recentes