Da série
Bairros Cariocas
12 Junho 2015
0
0
0
s2sdefault
 

Complexo Panoramica

Lugar cada vez mais visitado por turistas, desde a inauguração do teleférico, o Complexo do Alemão é um dos bairros mais jovens do Rio. Localizado na Zona Norte, na Serra da Misericórdia, subúrbio da Leopoldina, foi criado, em 1993, pela lei nº 2055, que alterou os limites de Olaria, Ramos, Bonsucesso, Inhaúma e Higienópolis. Com uma população de cerca de 70 mil habitantes, é um dos grandes celeiros da dança do passinho e do funk carioca.

O bairro, hoje, é formado pelas comunidades de Nova Brasília, Reservatório de Ramos, Parque Alvorada, Morro das Palmeiras, Casinhas, Fazendinha, Canita, Pedra do Sapo, Mineiros, Morro do Adeus, Morro da Baiana, Matinha, Grota (também chamada de Joaquim Queiroz) e Morro do Alemão. Esta última localidade emprestou seu nome ao Complexo, muito embora o personagem que inspirou a alcunha fosse, na verdade, polonês.

Trata-se de Leonard Kacsmarkiewicz, que, na década de 1910, comprou duas glebas da Fazenda Camarinha, na encosta do morro, e posteriormente as loteou sem qualquer infraestrutura. Suas terras ficavam na parte leste do Complexo (voltadas para os bairros de Olaria e Ramos), por onde começaram as favelas mais antigas.

No início do século XX, a área leste da Serra também era composta por outras duas fazendas, que, aos poucos, foram fracionadas. Boa parte acabou sem projeto de ocupação pelos proprietários, muitas vezes, por causa dos demorados inventários e das longas listas de herdeiros.

No caso da Fazenda Camarinha, da qual o polonês adquiriu duas glebas, 25 hectares foram vendidos para o Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários (IAPC). O restante foi comprado por indústrias e outras pessoas jurídicas e físicas, ou dividido em pequenos lotes para aluguel de terrenos.

A ocupação

Segundo pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), o povoamento urbano da Serra da Misericórdia foi iniciado a partir de várias formas de ocupação: de loteamentos informais ao aluguel de terrenos (também chamado de “aluguel de chão”); da ocupação consentida à invasão coletiva.

Na década de 1920, a Serra já era ocupada por uma população rarefeita formada por pequenos produtores rurais e por um núcleo de casebres. Em ambos os casos, seus moradores pagavam o aluguel do chão, prática que, conforme o Ipea, deu origem a várias favelas do Rio. “No início do século XX, havia arrendamento de terras para uso rural, mas, com o tempo, passaram a ser alugados pequenos lotes, sem contrato registrado no ofício de notas”, diz a pesquisa, que ainda afirma que tal prática era bastante comum entre as décadas de 1920 e 1960.

Os hectares comprados pelo IAPC também foram objeto de ocupações informais. Seus primeiros moradores eram pessoas que tomavam conta das terras do Instituto e que tiveram permissão para construir suas casas nas áreas mais altas. Esses moradores acabaram consentindo que outras famílias se instalassem no local, desde que as moradias fossem erguidas na parte alta do morro, em meio ao capim alto, para que não fossem vistos. “Meu pai não cedia para qualquer um, não, mas se fosse gente boa ele deixava fazer”, disse Dona Eurídice – filha de um dos zeladores das terras do IAPC – aos pesquisadores do Ipea.

COMPLEXO ANTIGACom o passar do tempo e com a ausência de uma política habitacional que respondesse às necessidades de moradia da população, o próprio IAPC passou a permitir, por meio de cartas informais, que seus funcionários e comerciários construíssem casas nas terras da antiga Fazenda Camarinha. Mas o grande adensamento populacional do Complexo aconteceu nas décadas de 1960 e 1970, quando várias indústrias – como a Nova América, a Marialva Têxtil, a Cica, o Café Capital, a Castrol e muitas outras – se estabeleceram nos arredores.

Nesse período, passaram a ocorrer as invasões organizadas e coletivas. Em relato aos pesquisadores do Ipea, o carpinteiro Orestes Ribeiro da Silva, morador da comunidade de Nova Brasília, conta como ela acontecia: “Isso aqui, na época da invasão, parecia até uma guerra! De noite ninguém dormia porque só se escutava martelo batendo. O pessoal construía o barraco de noite, pois quando a polícia chegava no outro dia ficava mais difícil de derrubar porque tinha família dentro. (...) A gente se ajudava, porque dinheiro não tinha...”.

Com as invasões, surgiram também as primeiras associações de moradores do Complexo. Elas tanto passaram a organizar as ocupações – a fim de deixar áreas livres para os arruamentos, por exemplo –, como a gerenciar questões relacionadas à infraestrutura. Algumas também começaram a promover a venda de “cavas de terra”, ou seja, de terrenos cavados nas encostas.

Apareceu ainda a figura do “faveleiro”, nome dado àquele que se apossava de um lote de terra com o objetivo único de revendê-lo, posteriormente.

Funk e passinho

Desde 1970, o funk, ritmo derivado do R&B, do jazz e da soul music, foi abraçado pelas comunidades negras do Rio. Em meados da década de 1980, o ritmo já havia adquirido características próprias da cidade. Foi a partir de então que seus bailes viraram um grande sucesso entre os cariocas. No caso do Complexo do Alemão, esse processo coincidiu, segundo dados da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal, com a ocupação do bairro pelo tráfico de drogas e de armas, ocorrido no início dos anos 1990.

Com a tomada do Complexo do Alemão pelas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), a partir de 2010, os bailes funks e outras manifestações culturais, como os pagodes, que ocorriam nas comunidades, foram proibidos em função da forte atuação do tráfico durante esses eventos. O problema, contudo, começou a ser contornado com a criação da Associação de Profissionais e Amigos do Funk (Apafunk), que passou a negociar a realização dos bailes, diretamente com a Região Administrativa e com o Comando Geral das UPPs. Apesar da resistência de parte das comunidades e de alguns policiais, os bailes voltaram a acontecer de forma tranquila e sob a vigilância da PM.

alemao jacobMesmo com o período de interrupção dos bailes, o Complexo do Alemão nunca deixou de ser celeiro de MCs e DJs. Lá, as batalhas de passinho também estão cada vez mais populares. Para quem ainda não sabe, o passinho é uma dança derivada do funk. A performance é feita a partir da mesma batida desse ritmo. A diferença é que os dançarinos adicionam passos derivados de outras modalidades de música – como o frevo, o samba, o hip-hop, etc.. – e, até mesmo, da capoeira. As batalhas são, na verdade, um desafio entre os dançarinos. Quem apresenta a maior variedade de passos? Quem tem mais habilidade e estilo? E claro que, como em todo espetáculo performático, o figurino é fundamental. Na comunidade de Nova Brasília, já foi até criado um grupo: o Art Dance, que vem se apresentando em escolas e casas de show.

Turismo e cultura

Pouco depois da chegada da primeira UPP, foi inaugurado, em julho de 2011, o teleférico e suas seis estações: Bonsucesso, Adeus, Baiana, Alemão, Itararé e Palmeiras. Nesta última, funciona, inclusive, um centro cultural, com auditório, biblioteca e outros equipamentos, além de uma Clínica da Família que atende os moradores da região. O novo meio de transporte carrega uma média de 12 mil pessoas por dia, sendo que, nos fins de semana, segundo dados da SuperVia, 60% dos passageiros são turistas.

Em 2011, no fim do ano, também foi inaugurada a Praça do Conhecimento (na comunidade de Nova Brasília), que oferece cursos regulares nas áreas de tecnologia da informação, fotografia, vídeo e web design, entre outros. A praça ainda conta com um núcleo de arte e cultura, que promove e acolhe diversos eventos, como exposições e oficinas de arte, sessões de cinema e, claro, shows de funk.

Fontes:
A Gramática da Moradia no Complexo do Alemão: História, Documentos e Narrativas. Patrícia Brandão Couto e Rute Imanishi Rodrigues. Ipea.
Histórias dos Bairros do Rio. In Portal Geo, Armazém de Dados. Instituto Pereira Passos.
Complexo do Alemão: o Art Dance e a Volta do Baile Funk. In Portal Vozes da Comunidade.
Guerras, Traições e Mortes Marcam História do Complexo do Alemão. In Portal Terra.

Mídias Relacionadas
Bairros Cariocas
Mais da Série
Relacionados
Mais Recentes