26 Janeiro 2021
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Aluno da EM Coelho Neto em oficina de Slam desenvolvida por profissionais do Niap. Arquivo pessoal

Um grande número de profissionais do Núcleo Interdisciplinar de Apoio às Unidades Escolares (Niap) da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (SME) está convencido de que o desenvolvimento da oralidade deveria receber mais atenção das escolas de Ensino Básico e até mesmo Superior.

“A oralidade é um meio privilegiado de interação e comunicação. Ocupa posição de centralidade nas relações humanas e na constituição da subjetividade. É fundamental aos processos de ensino e aprendizagem”, diz a doutora em Psicologia Analítica Jôse Sales, professora da Universidade Estácio de Sá e psicóloga do Niap.

Ela adverte que, embora seu ensino esteja previsto nas legislações brasileiras sobre currículo, como LDB e BNCC, e seja muito valorizada e trabalhada na Educação Infantil, a oralidade vai, gradativamente, sendo deixada de lado por parte expressiva das escolas, a partir do primeiro ano do Ensino Fundamental. Isso tem consequências.

“Quando a oralidade está comprometida, temos dificuldades no processo de aprendizagem”, diz Kátia Rios, doutora em Educação, especialista em Linguística Aplicada e gerente do Niap. Ela lembra que, além de estar no centro da construção da subjetividade, a oralidade também é um pilar linguístico: “Vários estudos mostram como a língua de sinais, meio pelo qual os surdos exercem sua oralidade, é primordial para aprenderem Línguas (Português, Inglês, Chinês etc...) e demais habilidades”.

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Kátia Rios. Arquivo pessoal

Essa relação umbilical entre oralidade e aprendizagem não é exclusiva dos surdos, apenas mostra como ela existe até mesmo entre aqueles que têm a audição e a fala comprometidas. "O desenvolvimento da competência oral é fundamental para o sucesso escolar de todos. Os profissionais de ensino precisam estar atentos a essa questão”, diz Kátia Rios.

A gerente do Niap ainda lembra que a oralidade acompanha todo o processo de humanização e socialização do sujeito. Segundo ela, possibilita as trocas coletivas e as práticas culturais, além de ser fundamental à existência individual:

“É ela que nos permite pensar em infinito e nos dá a capacidade de simbolizar, propiciando a criação de sistemas de comunicação, de linguagens e de formas de expressão do pensamento e da emoção. A oralidade tem muitas funções: imaginação, pensamento, memória, ação...”.

Hierarquias

Como dar mais atenção aos aspectos relacionados ao desenvolvimento da oralidade? A psicóloga do Niap dá exemplos de como sua importância é subdimensionada e o que pode ser feito para que isso não aconteça:

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Jôse Sales. Arquivo pessoal

"É comum que se peça aos alunos a apresentação oral de um trabalho, mas raramente eles são ensinados a estruturar uma apresentação. É preciso mostrar como podem fazer isso”. A psicóloga considera que a escola deve observar, inclusive, os alunos considerados desenvoltos e bem articulados nas apresentações escolares, pois podem não ter facilidade de se colocarem em outros contextos.

Jôse Sales ainda lembra que é muito comum que as habilidades orais sejam tratadas como inatas: "O aluno A fala muito bem, o aluno B não. Várias vezes, isso é compreendido como um dom natural que A tem. A indagação sobre o que a escola pode fazer para ensinar B a falar melhor, raramente surge. Mas é fundamental que isso aconteça”.

Já em relação à escrita, a percepção costuma ser diferente: “Quando um professor nota que um aluno tem dificuldade na escrita, costuma passar trabalhos extras para ele. Se são muitos com o mesmo problema, a escola até cria turmas de reforço no contraturno. Ou seja, há uma cultura que dá mais importância ao letramento do que à oralidade. É importante que se entenda que todos os aspectos da língua são relevantes - escutar, falar, ler e escrever. Criar uma hierarquia entre esses processos é prejudicial”.

Tanto Kátia Rios como Jôse Sales acreditam que essa hierarquização é fruto do processo de colonização europeia, que supervalorizou sua produção escrita e destituiu de valor as atividades orais.

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Priscila Furtado, parceira de trabalho de Jôse Sales, em oficina que desenvolve, a partir da história de um livro, a noção de cuidado junto a alunos do Carioquinha. Arquivo pessoal

“Em decorrência desse processo histórico, as crianças oriundas de famílias com tradição letrada tendem a se sair melhor nas avaliações aplicadas pela escola (em sua maioria escrita) e, portanto, são consideradas mais “inteligentes” e mais “aptas” do que as crianças oriundas de famílias com tradição oral. O que se reproduz dentro das escolas não difere daquilo que se encontra do lado de fora”, avalia a psicóloga do Niap.

Para ela, a oralidade precisa ser aprimorada na sociedade brasileira como um todo. Seu desenvolvimento é importante para a construção da educação cidadã, pois envolve a escuta e o diálogo, a capacidade de expressar o que se pensa e o que se deseja. Sem isso – diz Jôse Sales – não é possível se agrupar em torno de um objetivo comum.

Na prática

Está enganado quem pensa que é pura teoria a defesa da importância da oralidade feita pelos profissionais do Niap. Vários trabalhos em que utilizam recursos da cultura oral têm surtido resultados animadores nas escolas onde trabalham, a exemplo da Poesia Falada e do Slam.

“Sou psicóloga e psicanalista. A oralidade é algo crucial na minha prática profissional. Acho que já entrei na Educação com a percepção de sua centralidade nas relações humanas e, portanto, nos processos de ensino e aprendizagem. Mas, o exercício da escuta junto aos adolescentes fez com que eu conferisse ainda mais valor à oralidade. É incrível como eles se engajam em atividades – como rádio escolar e roda de conversa — em que o ouvir e o falar são o carro chefe”, conta Jôse Sales.

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Meias Aventuras, um dos vários produtos da MultiRio que contribuem com o desenvolvimento da oralidade. Imagem: Nagan, MultiRio

Atividades que envolvem a oralidade

Além das atividades já mencionadas, Jôse Sales cita outras que podem ser desenvolvidadas na escola:

"Contação de histórias; leituras de texto e poesia; debate de assuntos polêmicos e atuais; discussões de temas escolhidos pela turma; jogral; apresentação teatral; canto; entrevistas entre alunos ou com pessoas de fora da escola; simulações de entrevista de emprego; oficinas de produção textual; feiras e exposições direcionadas ao público externo ou a outras turmas da escola; gravação de vídeos e podcasts. O importante é que o professor esteja à vontade em executá-las, que os alunos tenham algum nível de prazer e que a atividade faça sentido para eles”.

Apesar da oralidade não receber a devida importância por parte de vários segmentos sociais, mudanças significativas estão ocorrendo: “No momento atual, vivemos um paradoxo. De um lado as instituições educacionais tradicionais e o mercado formal de trabalho seguem super valorizando a escrita. De outro, profissões novas e almejadas pelas crianças e adolescentes (youtubers, por exemplo) deixam evidente a força e a importância da oralidade”, conclui a psicóloga do Niap.

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