10 Julho 2020
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Frasco de penicilina produzido pelo laboratório Abbott na década de 1940. Foto Tomaz Silva/Ag. Brasil, cc

Graças às inúmeras descobertas e pesquisas científicas, a expectativa de vida dos brasileiros aumentou cerca de 31 anos nas oito últimas décadas, segundo dados do IBGE. Sem os antibióticos, por exemplo, utilizados em vários tratamentos médicos a partir de 1940, a maior parte das cirurgias seria inviável, a covid-19, as gripes e as infecções seriam mais mortais e algumas terapias contra o câncer sequer existiriam, porque seriam letais. Sem a contribuição da ciência também não teríamos vacinas, energia elétrica, eletrodomésticos, água encanada em metrópoles inteiras, internet, telefonia... A maior parte dos deslocamentos teria que ser feita sobre o lombo dos animais e, talvez, as Américas ainda fossem habitadas apenas pelos indígenas, porque os ibéricos não teriam investido nas viagens de circum-navegação, nem dado início à empreitada colonial, se os físicos daquela época já não tivessem fortes indícios de que a Terra era redonda.

Foi na época do Renascimento, dos chamados “grandes descobrimentos”, que as ciências começaram a despontar como método capaz de mudar paradigmas e promover grandes avanços no campo do conhecimento. Em contraposição à visão da Igreja Católica, observações do céu, por meio de telescópio, mostraram que a Terra não era plana, como se imaginava, nem coberta por sete camadas de cristal (onde se distribuíam as estrelas), atentamente vigiadas pelos olhos de Deus. Após anos de observação do céu, Giordano Bruno (1548 - 1600) e Galileu Galilei (1564 – 1642) chegaram à conclusão que as cúpulas de cristal não existiam e que a Terra, além de redonda, não era o centro do universo, mas tão só mais um corpo celeste entre uma infinidade de planetas e estrelas.

A exemplo de Bruno e Galilei, estudos que construíam novas teorias por meio de investigação, acabaram culminando em um movimento filosófico chamado de Iluminismo, que se contrapunha às explicações dadas por meio de crenças, fossem elas religiosas ou do senso comum. Esse movimento se consolidou no século XVIII e com ele nasceu a chamada ciência moderna, baseada na racionalidade do conhecimento. Isso significa que uma verdade só pode ser considerada científica, quando construída a partir de modelos teóricos e baseada em métodos racionas de investigação e comprovação. Essa nova maneira de encarar a construção do conhecimento resultou em grandes avanços no campo das ciências. Ainda no século XVIII, Isaac Newton, por exemplo, descobriu a lei universal da gravidade, organizou um novo modelo para explicar o universo, detalhou a posição e a órbita de muitos corpos siderais e desenvolveu uma teoria sobre a refração da luz. Antoine Lavoisier, autor da frase “nada se cria, tudo se transforma”, conseguiu provar que a quantidade de matéria não se alterava, quando ela mudava de estado por conta de reações químicas.

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Newton descobriu que os planetas orbitam em torno do sol em função da gravitação. Nasa, dp

No século seguinte, as descobertas científicas e tecnológicas se aceleraram e mudaram radicalmente as feições da sociedade ocidental. Grandes reformas urbanas se fizeram necessárias para comportar as transformações que ocorriam nas cidades. Foi aprimorado o conhecimento sobre a energia a vapor e a engenharia mecânica deu um salto qualitativo, propiciando o melhor funcionamento das máquinas, a criação de linhas férreas e de navios movidos a vapor, o que viabilizou uma nova fase da Revolução Industrial. Descobriu-se a energia elétrica, o telégrafo, a fotografia, o cinematógrafo, o telefone; avançou-se no conhecimento sobre microbiologia e da genética; foram criados os primeiros automóveis... No século XX, as ciências continuaram a transformar o mundo com a descoberta de novos combustíveis, medicamentos, tratamentos médicos, computadores e meios de comunicação como o avião, o rádio, a televisão e a internet; os genomas começaram a ser sequenciados; satélites foram colocados em órbita; o homem chegou à Lua; sondas espaciais passaram a desbravar o universo.

Contexto social

Quando o Movimento Iluminista e a ciência moderna despontaram, no século XVIII, vários países europeus mantinham colônias ao redor do mundo, onde o trabalho era compulsório e exercido, principalmente, pela mão de obra escrava dos negros, que sequer tinham acesso à alfabetização. Embora a história da ciência moderna se inicie sob a supremacia dos brancos europeus, isso não significa que alguns negros não tenham conseguido furar o bloqueio, nem que a herança da escravidão tenha impedido o protagonismo dos afrodescentes em inúmeros campos do conhecimento. Até porque a África já havia dado grande contribuição à construção do conhecimento, em especial em relação à Matemática, Astronomia e Engenharia dos egípcios e ao domínio da Metalurgia e Geometria por vários reinos daquele continente.

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Selo comemorativo dos Estados Unidos, em homenagem a Benjamin Banneker. Dp

Benjamin Banneker (1731–1806) é um exemplo disso. Nascido no estado de Maryland, nos Estados Unidos, aprendeu astronomia e matemática avançada em livros emprestados por seu vizinho, o topógrafo George Ellicott, e, por meio de cálculos, começou a prever eclipses solares e lunares, corrigindo erros cometidos por especialistas da época. Também produziu uma tabela com as posições dos objetos celestes em cada momento do ano e outra com o movimento das marés em lugares ao redor da Baía de Chesapeake, que banha vários estados da costa leste norte-americana.

Entre os negros, no Brasil desta mesma época, destaca-se Valentim da Fonseca e Silva (1744 – 1813), o Mestre Valentim, filho de uma escrava alforriada e de um português que tinha licença para explorar pedras preciosas em Minas Gerais. Seu pai o levou para estudar Artes, Arquitetura e Urbanismo em Lisboa e, na volta ao Brasil, em 1770, se estabeleceu no Rio de Janeiro, onde se notabilizou como escultor e urbanista. É dele o projeto e a construção de inúmeros chafarizes da cidade e do primeiro parque público de recreação do Brasil, o Passeio.

Brasil, século XIX

Ao contrário dos Estados Unidos, que já tinha cinco universidades em meados do século XVIII, os brasileiros da época só conseguiam fazer curso superior quando a família tinha meios para custear os estudos no exterior. Só com a chegada da família real, em 1808, e a transformação da colônia em sede do reino português, é que o Brasil começou a ser contemplado com suas primeiras instituições científicas. A primeira a ser criada, ainda em 1808, foi o Colégio Médico da Bahia e, poucos meses depois, a Escola Médica e a Academia Naval do Rio de Janeiro.

Outras instituições foram criadas pela Corte lusitana, todas também no Rio: a Academia Militar (1810), a Academia Médico Cirúrgica (1813), o Jardim Botânico (1818) e o Museu Nacional (1818). Com proclamação da independência e a necessidade de organizar uma estrutura jurídica no novo país, D. Pedro I criou as primeiras faculdades de Direito do Brasil. Durante o primeiro Império e o período de Regência, ainda foram criados o Observatório Astronômico (1827), a Sociedade de Medicina (1829) e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838).

Tanto no primeiro como no segundo Império, a pesquisa científica no Brasil era extremamente dependente da contribuição europeia, ou mesmo norte-americana. A maioria da população brasileira continuava sem acesso à Educação. Foi um dinamarquês, Peter W. Lund, que avançou nos estudos paleontológicos, em nosso país, catalogando dezenas de espécies extintas de animais. O norte-americano Frederick Hart chefiou a Comissão Geológica do Império, que resultou no primeiro texto geral sobre a geologia brasileira.

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André Rebouças, um dos maiores engenheiros do século XIX. Wikipedia, dp

No Brasil, aliás, só havia faculdade de Direito e de Medicina para a população civil, durante quase todo o século XIX. A engenharia só era estudada na Academia Militar. A separação da engenharia civil da militar só ocorreu com a fundação da Escola Politécnica, em 1874, no Rio de Janeiro. Em São Paulo, a Politécnica só surgiu em 1893, já na República, de forma que o quadro de engenheiros civis, durante o Império, era constituído por filhos de famílias abastadas que iam estudar, principalmente, na Europa.

Entre os grandes engenheiros do II Império, destacam-se os irmãos Rebouças, André (1838-1898) e Antônio (1839-1874). Os dois baianos foram os primeiros afrodescendentes a cursar uma universidade brasileira. Ambos se formaram na Academia Militar do Rio de Janeiro, onde foram titulados como bacharel em Ciências Físicas e Matemáticas e Engenharia Militar. Depois, foram para a Europa e se especializaram na construção de portos e ferrovias. Entre as inúmeras obras que foram responsáveis, do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul, destaca-se a construção da Estrada de Ferro Graciosa de Antonina, ligando Curitiba ao Porto de Paranaguá. O construtor inicial, Giusepe Ferrucini, havia desistido da obra, em função das enormes dificuldades do trajeto, que deveria cruzar morros, encostas e grotões profundos.

Os Rebouças assumiram o desafio, construindo pontes e viadutos das mais diversas extensões e perfurando 14 túneis nas montanhas, um deles com cerca de 500 metros. Pela relevância do trabalho, receberam diversas homenagens no decorrer da história: o Túnel Rebouças, no Rio de Janeiro; a Avenida Rebouças, em São Paulo; a Rua Engenheiro Antônio Rebouças, em Porto Alegre; a cidade de Rebouças, no Paraná. Apesar da estrutura escravagista da sociedade brasileira, outros negros letrados marcaram a história do conhecimento, no século XIX. No campo da Língua e da Literatura, por exemplo, destacam-se Machado de Assis, o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), fundada em 1897, e José do Patrocínio, eleito como um dos membros da mesma Academia, em sua fundação.  Vale ressaltar que uma das missões da ABL era a busca pela consolidação da língua portuguesa falada no Brasil, o que inclui, entre outras coisas, o incentivo à pesquisa de suas normas e a catalogação do vocabulário utilizado pelas populações dos diversos Brasis.

Séculos XX e XXI

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Capa do booklet publicado pela American Chemical Society em homenagem ao centenário de nascimento de Percy Julian, 1999

Com a Proclamação da República, em 1889, os estados brasileiros começaram a construir suas próprias instituições científicas. As de maior prestígio eram as que atuavam na área de saúde pública, como o Instituto de Manguinhos (atual Fiocruz), no Rio de Janeiro. Comandado por Oswaldo Cruz, pesquisava as principais doenças encontradas no país, à luz das teorias médicas europeias mais atuais e introduzindo uma nova maneira de fazer ciência no Brasil: no laboratório. O General Rondon, no início do século XX, também comandou a Comissão de Linhas Telegráficas e Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas, ampliando as comunicações internas e iniciando a pesquisa etnográfica, junto às populações indígenas.

A despeito da descentralização científica e do início de um processo de industrialização e modernização das cidades, a população negra, recém alforriada com a Abolição da Escravatura, foi empurrada para os morros e periferias urbanas e continuava a exercer os trabalhos mais subalternos da sociedade. Tanto no Brasil como nos Estados Unidos, a ausência de um projeto nítido de inserção dos negros perpetuou a continuidade de exclusão dos afrodescendentes. Não por acaso, a questão das cotas raciais surgiu nos dois países como medida de reparação histórica e de redução das desigualdades.

Apesar disso, os negros deram contribuições decisivas para o conhecimento científico. O americano Arthur Bertram Cuthbert Walker II (1936–2001), por exemplo, desenvolveu telescópios ultravioletas para fotografar a coroa solar. Percy Julian (1899 – 1975) foi um dos maiores químicos da história, pesquisando novos medicamentos e fazendo-os chegar a custos mais baixos à população. Foi o primeiro negro a ocupar uma cadeira na Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, por suas descobertas que contribuíram para a fabricação de medicamentos esteroides e corticoides e também para o desenvolvimento dos anticoncepcionais. Katherine Johnson (1918 – 2020) fez os cálculos matemáticos responsáveis por levar o primeiro astronauta americano à órbita da Terra e participou do desenvolvimento do ônibus espacial.

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O laureado geógrafo Milton Santos. Flickr, cc

No Brasil, Milton Santos (1926 – 2001) é tido como o maior geógrafo que o país já produziu. Destacou-se por seus trabalhos em diversas áreas, em especial nos estudos sobre a urbanização do Terceiro Mundo e o processo e os efeitos da globalização. Em 1994, ganhou o prêmio internacional Vautrin Lud, tido como o o mais importante na área de Geografia. Lélia Gonzalez (1935 – 1994), formada em Filosofia e em História e doutora em Antropologia, é uma das pioneiras na pesquisa sobre as relações de gênero e etnia no Brasil, tal como Maria Beatriz Nascimento (1942 – 1995), que dedicou sua vida para que a temática étnico-racial ganhasse visibilidade no país. Na área das Letras, a premiada escritora e professora da pós-graduação da Universidade Federal de Minas Gerais Conceição Evaristo (1946 - ) é um dos maiores expoentes da literatura lusófona contemporânea e uma das referências da pesquisa literária brasileira. Muitos outros expoentes negros, nos mais diversos campos do conhecimento, poderiam ser citados. O número de afrodescendentes nas universidades vem crescendo, desde a instituição da política de cotas, muito embora a estrutura social e racial da sociedade ainda dificulte o acesso deles às instituições científicas.

Bibliografia

História da ciência, da técnica e do trabalho no Brasil - Henrique S. Carneiro, Nuevo Mundo

As ciências na História Brasileira– Maria Amélia Mascarenhas Dantes, Portal Scielo

Mudança científica: modelos filosóficos e pesquisa histórica - Dossiê Filosofia na Ciência - Portal Scielo

Conceição Evaristo– Portal Literafro, UFMG

Percy L. Julian and the Synthesis of Physostigmine - American Chemical Society

Negros na ciência e na tecnologia – Portal Geledés

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