19 Dezembro 2019
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Noite de São João, 1946 (Foto: Jaime Acioli)

A riqueza da brasilidade é um tema central na obra da pintora moderna Djanira Motta e Silva, na qual se destacam os festejos populares, o trabalho e os trabalhadores, a religiosidade afro-brasileira e católica, os retratos e os autorretratos, os indígenas Canela do Maranhão, entre diversos povos e paisagens brasileiros. O lúdico também é retratado na produção da artista, no mundo do circo, dos parques de diversão, dos jogos de futebol, do dominó e das brigas de galo.

Seus trabalhos eram engajados com a realidade à sua volta, com a sua história de vida e com suas muitas viagens pelo Brasil. “A poética do cotidiano e a valorização de simples atos, do trabalho à devoção e do lazer à paisagem, alçam o homem simples, sem fisionomia, sem identidade, mas sobretudo universal, às características de herói mítico. O homem é aquele que entre a fé e o trabalho, entre as intempéries e seu descanso, torna-se herói. A união entre o cotidiano e a experiência religiosa e mítica e a sinergia entre o fazer artístico e o poético fizeram dela uma contadora de história, que apresenta a imagem do Brasil e sua nacionalidade sem ser ufanista”, apresenta Daniela Matera Lins, mestre em Museologia e Patrimônio e autora do artigo Djanira: cronista de ritos, pintora de costumes, que integra o livro Memória feminina: mulheres na história, história de mulheres, resultado de uma parceria entre o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e a Fundação Joaquim Nabuco.

O sonho do menino pobre, 1948 (Foto: Jaime Acioli)

A obra de Djanira foi, por vezes, considerada arte primitiva, naïf ou ingênua, no que a artista respondia: “eu é que sou ingênua, não minha pintura”. Hoje essas classificações são entendidas como preconceituosas, por refletirem “uma perspectiva elitista e eurocêntrica segundo a qual todos os trabalhos que não seguem os estilos e gostos eruditos tidos como ‘oficiais’ eram considerados menores”, como explica o texto de apresentação da exposição Djanira: a memória do seu povo, no site do Museu de Arte de São Paulo (Masp).

Djanira também atuou como ilustradora e cenógrafa e trabalhou com xilogravura, gravura em metal e desenhos para tapeçaria e azulejaria.

Como trabalhar com as obras da Djanira na escola

Os temas explorados nas pinturas de Djanira abrem um leque de possibilidades de abordagem por parte dos professores na escola. Projetos como o desenvolvido pela professora Érica Campos, sobre a pintora Tarsila do Amaral, podem inspirar diferentes propostas.

“O universo de Djanira é lúdico e, como ela trabalha com temas recorrentes da arte popular, seu repertório é riquíssimo para a Educação Infantil. É possível explorar questões pictóricas e de forma, por exemplo. Já no Ensino Fundamental, podem ser trabalhadas questões voltadas para a cultura popular”, sugere Daniela.

No Rio de Janeiro, obras da artista podem ser vistas no Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Centro, no Museu de Arte Moderna (MAM-Rio), no Parque do Flamengo, e também no Instituto Casa Roberto Marinho, no Cosme Velho.

Candomblé (Estudo de mural), 1967 (Foto: Jamie Acioli)

“No MNBA estão expostas as obras O Circo – uma das minhas favoritas – e Caboclinhos, por exemplo. Acho importantíssima a presença de estudantes nas instituições culturais e museológicas, primeiramente por se tratar do cuidado que o país tem com um patrimônio que é de todos nós. Precisamos trabalhar mais com os estudantes a importância do patrimônio cultural para a formação identitária de um país. Ademais, os museus são universos riquíssimos que se associam a todos os temas e disciplinas abordados na escola. O museu não é apenas um passeio extracurricular, mas pode ser utilizado como material de apoio para expandir e aprofundar o repertório escolar”, ressalta Daniela Matera Lins.

Breve biografia de Djanira

Djanira nasceu em 1914, na cidade de Avaré, interior de São Paulo. Seu pai era descendente de indígenas e sua mãe era filha de imigrantes austríacos. Viveu em Porto União (Santa Catarina) e em São Paulo, tendo trabalhado em lavouras de café e como vendedora ambulante. Em 1939, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde abriu uma pensão no bairro de Santa Teresa, atraída pelo ar puro da região, já que acabara de se recuperar de uma tuberculose. Lá, hospedou artistas e intelectuais de todo o mundo, que acabaram contribuindo para sua formação estética e intelectual.

Futebol Fla-Flu, 1975 – Acervo MNBA (Crédito: Flickr/ Palácio do Planalto)

Segundo Daniela Matera Lins, a mítica que envolve o surgimento da Djanira pintora pode ser representada pela obra Costureira, de 1951. “Além do trabalho na pensão, Djanira realizava pequenos reparos e ajustes como costureira para melhorar sua condição financeira. Teria sido uma de suas clientes que, ao se deparar com um ateliê de costura com desenhos e croquis afixados pelas paredes, teria chamado atenção de Djanira para o seu talento artístico”, conta.
Autodidata, Djanira chegou a frequentar poucas aulas do curso noturno do Liceu de Artes e Ofícios, no Rio. Surgiu no cenário da arte brasileira nos anos 1940, expondo pela primeira vez no Salão Nacional de Belas Artes (1942). No exterior, expôs suas obras em Londres, na Argentina, no Uruguai, no Chile e nos Estados Unidos, onde viveu entre 1944 e 1947.

De volta ao Brasil, viajou por diversas regiões para retratar a diversidade do país. Nos anos 1950, morou na Bahia, onde registrou cenas do comércio popular e se aproximou da cultura afro-brasileira. Participou de diversas exposições e realizou projetos como o mural Candomblé (1957), para a casa do escritor Jorge Amado; as ilustrações do livro Campo Geral (1964), de Guimarães Rosa; e o painel de azulejos Santa Bárbara, para a capela de mesmo nome, então localizada acima do túnel inaugurado em 1964 no bairro de Laranjeiras, no Rio. Por conta da umidade, esta obra foi retirada do local e, hoje, está no Museu Nacional de Belas Artes.

Após sua morte, em 1979, no Rio de Janeiro, seus quadros foram expostos em diversas exposições nacionais e internacionais.

O Circo, 1944 – Acervo MNBA (Crédito: Site do MNBA)

 

Fontes:

Site do Museu de Arte de São Paulo.
Site Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras.
Livro Memória feminina: mulheres na história, história de mulheres, organizado por Maria Elisabete Arruda de Assis e Taís Valente dos Santos. Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2016.
Djanira da Motta e Silva (1914-1979) – Modernista de cenas e costumes brasileiros, de Graziela Naclério Forte.

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