30 Maio 2019
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Aluno da E.M. Benjamin Constant (1ª CRE) durante visita a uma exposição no Museu de Arte do Rio (Foto: Arquivo pessoal do professor José Leandro Cardoso)

Quando o assunto é turismo, o que vem à cabeça de muitas pessoas é “viagem”. No entanto, o tema vai muito além e possibilita as mais diversas abordagens pedagógicas na escola.

“Reflexões relativas ao patrimônio, aos bens culturais, à memória coletiva e histórica, ao lazer e ao trabalho têm enorme potencial para o ensino básico. Pensar turismo é também pensar a alteridade, a relação com o outro, passar pela discussão sobre diversidade. E, claro, não dá para falar em turismo sem falar em sustentabilidade”, destaca Ana Carolina Mendonça Oliveira, turismóloga, professora do curso técnico em Guia de Turismo do Senac/RJ e doutoranda em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal Fluminense.

Segundo ela, os conteúdos podem ser abordados de maneira transversal, por meio de projetos – o que já é realidade em algumas escolas. Uma prática comum é a aula passeio. “Muitas vezes essa aula é tratada como ‘folga’, um ‘extra’; é pouco valorizada. Não se discute, por exemplo, o próprio percurso. Mas pensar sobre o trajeto, sobre as características da cidade e pelo quê ela é marcada é tão importante quanto o destino final do passeio. A escola deve estar engajada no processo de pré-viagem, viagem e pós-viagem, fazer e propor uma pesquisa prévia, discutir questões relacionadas à hospitalidade. Para crianças que não estão acostumadas com o deslocamento na cidade, deslocar-se é um processo de cidadania, de conhecer e pensar a cidade. Provoca reflexões sobre lazer, trabalho e outros desdobramentos, com ganhos incríveis não só para a escola, mas para a sociedade”, sugere Ana Carolina.

Para além da aula-passeio, a possibilidade de revisitar lugares, afetos e histórias constitui um grande potencial pedagógico do turismo, de acordo com a especialista. “Não se trata apenas de visitar lugares reconhecidamente turísticos. É importante pensar nisso: os lugares não são naturalmente turísticos, trata-se de uma construção. Então, o ideal é pensar a partir do cotidiano das crianças, dos professores, da região, propondo exercícios afetivos das histórias dos alunos, da escola, do bairro.”

Turismo e Educação: experiências de escolas da Rede

Bruno Falcão é coordenador pedagógico da E.M. Escultor Leão Velloso, na Pavuna (6ª CRE). Em 2005, quando atuava como professor de Geografia na unidade, ao sentir dificuldade em trabalhar o conteúdo curricular com os estudantes, decidiu propor um projeto que aproximasse os jovens da comunidade onde a maioria vivia: o Complexo da Pedreira. 

Trabalho dos estudantes resultou em um centro de memória na E.M. Escultor Leão Velloso, na Pavuna (Foto: Página do Facebook do Centro de Memória da Leão Velloso)

“Percebi um desânimo dos alunos com conteúdos distantes da realidade deles. Então, comecei a trabalhar conceitos de lugar, território e espaço geográfico a partir do local onde eles viviam e da memória de moradores mais antigos. A maioria dos alunos não conhecia a história da região onde morava. Começamos a pesquisar sobre a ocupação inicial e as transformações do espaço. Com as entrevistas, descobrimos histórias maravilhosas”, conta o professor, que trabalhou com alunos do 7º ao 9º ano. 

Os depoimentos dos moradores foram filmados pelos alunos com aparelhos celulares e transformaram-se em curta-metragens, exibidos no I Fest Leão, evento realizado na Leão Velloso.

O projeto, que se tornou tema do trabalho de pós-graduação de Bruno Falcão, sobre memória social no ensino da Geografia, ainda hoje se faz presente na escola. Em 2018, foi inaugurado em um corredor da unidade o Centro de Memória da Leão Velloso, que reúne fotografias e informações sobre a escola e a comunidade, pesquisadas pelos alunos.

“Explorar a ideia de lugar e território tem a ver com a construção, a valorização e o resgate da memória, o que é superimportante. Principalmente, a proposta de transformar o trabalho em um centro de memória, democratizando o acesso, ao estender a discussão para além do espaço da turma, dialogando com outros alunos e profissionais da escola, além de famílias que frequentam o espaço”, comenta Ana Carolina Oliveira.

Também no ano passado, o professor José Leandro Cardoso, hoje alocado na 1ª CRE, desenvolveu na E.M. Benjamin Constant, no Santo Cristo (1ª CRE), um projeto sobre a memória da escola e do samba na região portuária. A proposta foi realizada com um grupo de 20 a 25 alunos, do 7º ao 9º ano, que participavam do grêmio e eram monitores do cineclube da unidade, em uma iniciativa que buscava valorizar o protagonismo juvenil. 

Alunos da E.M. Benjamin Constant, no Santo Cristo, exibem mural sobre a história da escola e do samba na região portuária (Foto: Arquivo pessoal do professor José Leandro Cardoso)

O projeto acabou atingindo os demais estudantes da Benjamin Constant por meio de murais e das atividades da Semana do Adolescente, organizada pelo mesmo grupo, e que tratava de temas como trabalho, sexualidade, além da história da escola e do samba. 

“Percebemos que alguns alunos trabalhavam em barracões, muitas famílias viviam do samba há muito tempo, mas nem todos conheciam a história do samba, principalmente na região. Então, houve um apanhado de memória, relatos de vivências deles e pesquisas sobre a região, sobre a Pedra do Sal e o Cais do Valongo, por exemplo”, conta o professor.

Os estudantes visitaram a exposição O Rio do samba: resistência e reinvenção (à época, no Museu de Arte do Rio – MAR), assistiram ao curta-metragem Tia Ciata e ouviram o depoimento de um ex-aluno da escola que hoje é presidente da Associação Recreativista Escola de Samba Vizinha Faladeira, localizada no bairro. Muitas dessas atividades foram realizadas em parceria com a Rede Educação com Adolescentes (Reca), da qual José Leandro fazia parte.

“Percebemos que os alunos com maior envolvimento no projeto abraçaram mais a escola, queriam, inclusive, passar mais tempo lá. Cresceu um sentimento de pertencimento à unidade, à comunidade, à região. Viram a escola como um patrimônio do bairro e, apesar de a maioria frequentar mais bailes do que escolas de samba, passaram a valorizar mais esse traço cultural de região”, observa José Leandro, que orientou os jovens na produção do curta Benjamin e sua história, que será exibido este ano no Festival Anima Mundi.

Na E.M. Cyro Monteiro, no Parque Anchieta (6ª CRE), o diretor Fabio dos Santos Bernardo valoriza e busca sempre proporcionar passeios aos alunos, em parceria com museus, centros culturais e outras instituições. 

Alunos da E.M. Cyro Monteiro, no Parque Anchieta, durante visita ao bondinho do Pão de Açúcar (Foto: Arquivo pessoal do professor Fabio dos Santos)

“É uma aula diferenciada. Não tive isso na escola pública na época em que estudei e achei que fez falta. Ter a chance de oferecer isso aos meus alunos é demais! Estou sempre atento a todas as oportunidades que aparecem, coloco alarmes no celular para lembrar de datas e horários para inscrever a escola em passeios oferecidos por diversas instituições e tento conseguir ônibus para transportar as crianças, quando não é oferecido. Os alunos gostam muito desses eventos, aprendem bastante. Quando foram ao bondinho do Pão de Açúcar, um guia turístico os acompanhou, falou sobre a geografia e a história da cidade, as transformações do local. O ganho é muito grande!”, entusiasma-se o diretor, que já tem passeio agendado para o Museu da Light e aguarda uma resposta do Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos, em Rio Claro (RJ). “Tento priorizar turmas de alunos que estejam se formando”, diz. 

Paula Fernandes, professora de Educação Física da unidade, acompanhou uma turma do Projeto Carioca (antigo Acelera), de alunos com defasagem idade/escolaridade, a um passeio ao Museu Histórico Nacional, no Centro, por meio de uma parceria entre a SME-Rio e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente. Eles acompanharam a exposição Rios do Rio – as águas doces cariocas, ontem e hoje, que traz à tona a relação dos cariocas com os 267 rios que cortam a cidade, por meio da arte contemporânea e de obras históricas.

“Durante o caminho, tudo era novidade. Pela janela do ônibus, os estudantes viam monumentos, paisagens, e se surpreendiam. No museu, tiveram uma aula de Educação Ambiental, conheceram a geografia do local onde vivem, mergulharam na História e também na Arte. Um quadro da exposição simulava o movimento das águas, com o nome dos rios da cidade. Quando os estudantes encontraram o Rio Pavuna, que passa por onde muitos deles moram, ficaram maravilhados!”, relata a professora, que se encantou com o entusiasmo e a interação dos estudantes.

“Esse movimento além dos muros da escola é importante para eles vivenciarem outra realidade, conhecerem as belezas da cidade e saberem que há muita coisa boa por aí. Mexe com a autoestima também. Fazemos reflexões com os alunos e posso dizer que tem início uma mudança de comportamento; eles sentem-se importantes e mais confiantes de si, do que podem conhecer e fazer, e começam a sonhar mais, pensando que se chegaram até ali, podem ir além.”

Veja mais: Rolé na Penha: alunos elaboram roteiros turísticos a partir de mapas afetivos do trajeto entre suas casas e a escola 

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