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18 Dezembro 2017
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E.M. Bernardo de Vasconcellos: o antes (Foto: Arquivo da escola)

Um imóvel de muro alto e cinza, no bairro da Penha. Por dentro, grades e paredes pichadas; portas de ferro – também na cor cinza – com o trinco do lado de fora e com uma pequena janela, gradeada. Na área externa, um pátio desnivelado de um lado e um espaço usado como estacionamento do outro. Assim era a E.M. Bernardo de Vasconcellos, que já foi considerada uma das piores escolas da 4ª CRE, até 2016. 

“Uma escola pública nesses moldes e inserida em uma comunidade era algo muito simbólico, um espaço de opressão. Muitos alunos saíam gritando ‘liberdade!’. Parecia uma prisão! E isso se refletia no comportamento dos alunos: agressivos e com postura de enfrentamento. Até nós, professores, nos sentíamos aprisionados”, relembra Daniela Azini Henrique, que assumiu em março de 2017 a Direção da escola, onde lecionava História. 

Foto: Arquivo da escola

As mudanças começaram a ser implementadas neste ano, com a nova gestão. Em meio a um momento de indefinição vivido pela unidade, Daniela e Marcelo Martins, professor de Matemática, foram indicados e assumiram a Direção, dispostos a colocar em prática o projeto de escola que docentes e alunos almejavam. 

Foi também em 2017 que Wander Pinto, professor de História, entrou na unidade, mesmo depois de ouvir na Coordenadoria e até da antiga Direção que a Bernardo de Vasconcellos era uma das piores da 4ª CRE, e que ele não aguentaria ficar lá por muito tempo.

Wander batizou de Ser e Pertencer o projeto que, hoje, agrupa uma série de ações que vêm transformando a realidade da escola. A proposta da Direção e da equipe de funcionários vai além de tornar o espaço acolhedor: é fortalecer a identidade e o sentimento de pertencimento dos alunos à escola.

Quadra de esportes: o pontapé inicial

Sem muito espaço para atividades de lazer, aos poucos os alunos se apropriaram do espaço que funcionava como estacionamento de carros dos professores, improvisando as linhas de uma quadra com o uso de folhas, por exemplo. Hoje, o lugar é usado nas aulas de Educação Física e também funciona como um auditório a céu aberto, quando necessário. 

"Quadra" da escola, antes da reforma (Foto: Arquivo da escola)

Mas a maior transformação se deu do outro lado do pátio: uma área de terreno desnivelado, com duas traves – o ponto de partida de uma nova Bernardo de Vasconcellos.

Disposta a oferecer um local mais seguro e adequado para a prática de esportes, a equipe da escola empenhou-se em promover a reforma do que viria a ser uma quadra. Para arrecadar fundos, Wander Pinto propôs que a banda da escola fosse às ruas da região tocar e pedir a colaboração da comunidade. A ideia foi aceita com entusiasmo e, em três dias, foram arrecadados quase R$ 3 mil.

Com o dinheiro, foi comprado o material. A mão de obra veio de familiares dos alunos e moradores da região, que, em um grande mutirão, concluíram a quadra da escola em três sábados de trabalho.

“O movimento da quadra desencadeou tudo. E começamos por isso porque foi um pedido dos alunos. Eles se tornaram os protagonistas da escola. Então, fizemos uma reunião com os responsáveis e a comunidade”, explica Daniela Azini. 

Quadra após a reforma (Foto: Alberto Jacob Filho)

 

Galeria de arte Bernardo de Vasconcellos

Por meio de uma parceria com o artista Angelo Campos, morador da região e com obras expostas no Brasil e no exterior, a escola ganhou cor e personalidade, tornando-se uma espécie de galeria de arte.

Angelo já havia feito trabalhos no espaço onde funciona um curso pré-técnico e pré-vestibular comunitário – coordenado pelo diretor-adjunto da Bernardo de Vasconcellos, Marcelo Martins – que teve início na unidade, mas hoje ocupa duas salas da associação de moradores.

Com o apoio do artista, muros e corredores deram vida à história do mundo, da escola e de seus alunos, por meio de painéis que destacam a herança africana, figuras como Albert Einstein e Nelson Mandela, mensagens motivacionais e contra o preconceito e até mesmo uma Árvore da Memória, com a imagem das três professoras que há mais tempo estão na unidade (confira na Galeria de Imagens).

Angelo Campos conta que, enquanto trabalhava no muro externo, no qual quis retratar um “menino comum”, pessoas da comunidade o abordaram ao perceber que a figura segurava um objeto. “Pediram para eu não desenhar uma arma na mão do menino, e o esboço era, na verdade, o de um lápis. As pessoas da região mesmo faziam associações negativas à escola. Mas ganhamos reconhecimento com a arte”, diz o artista, que também reproduziu um trecho de Rubem Alves no muro: “Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em voo”. 

Foto: Alberto Jacob Filho

 

Os alunos também participaram das pinturas. Um deles foi João Victor Paiva, 15 anos, que trabalhou diretamente com Angelo como “punição” por pichações feitas na escola.

“Eu não gostava de ir à escola. Pichava a carteira, o teto, as paredes, queria me expressar. Mas trabalhar com o Angelo foi o melhor castigo que tive em toda a minha vida. Cobri as pichações e ele me ensinou a grafitar. Pessoas da comunidade começaram a oferecer o muro de suas casas para grafitarmos! E o crédito é todo do Angelo. Hoje, eu gosto e tenho vontade de vir!”, comenta o adolescente.

Valorização da linguagem e da cultura da favela

As mudanças não ficaram apenas no espaço físico. A escola passou a ouvir mais os estudantes e a ressignificar e contextualizar conceitos, linguagens e projetos. A campanha Aqui É um Lugar de Paz, por exemplo, tornou-se Aqui É o Lugar da raPAZiada.

Em sala, o professor Wander Pinto organizou com os alunos o Pega a visão: o dicionário da rapaziada, que reúne gírias e expressões comuns no universo dos adolescentes da região. “A gente tem que aprender como falar em outro lugar. Então, quem vem à favela tem que aprender a nossa linguagem também”, destaca uma aluna, em frase exposta na “capa” do documento.

Confira alguns termos:

Dando uma de pão – Ter uma atitude estranha
Mec mec – “Suave”, bem
Panguando – Distraído
Pega a visão – Fique alerta
Projeto Rapunzel – Usar implante
Terror nenhum – Sem medo

“Eles se sentem super-representados! E eu costumo usar essas expressões durante as aulas”, diz o professor de História, que também criou paródias de funks para ensinar os conteúdos. 

Wander Pinto, Daniela Azini e Marcelo Martins (Foto: Alberto Jacob Filho)

Ao trabalhar a história e a geografia do bairro da Penha com as turmas, Wander teve uma aula sobre a região. “Eles diziam que não moravam na Penha, e sim na Chatuba, na Fé, na Grota, no Caracol. Então, pedi que cada um desenhasse um mapa afetivo do trajeto de suas casas até a escola. Colocamos os mapas ao redor de um oficial do lugar, elaborado pelo Instituto Pereira Passos.” 

A partir desse trabalho, veio o Rolé na Penha, proposta de valorização do turismo local protagonizada pelos alunos, que apresentam e contam a história de pontos turísticos do bairro a estudantes de outras regiões. O projeto conta com o apoio do grupo Guiadas Urbanas, cujo presidente foi aluno da Bernardo de Vasconcellos, e também do designer gráfico Davi Barros, responsável pela identidade visual. Até então, foi feito apenas um “rolé” experimental. Os primeiros passeios devem acontecer, oficialmente, no próximo ano.

Além dessas propostas, são promovidas na escola rodas de conversa e palestras sobre temas como depressão, homofobia e intolerância religiosa. Segundo Daniela Azini, o projeto Ser e Pertencer é um alicerce para todo o trabalho.

“Cada escola tem uma identidade própria. Os alunos deram outro significado a este espaço, cuidam e são tão responsáveis por isso quanto eu. Eles colocam qualidade aqui, nos desafiam a cada dia a sermos melhores. A escola não pode ser quadrada. Hoje, a Bernardo de Vasconcellos é ‘mec mec’, ‘terror nenhum’”, orgulha-se a diretora.

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