11 Dezembro 2017
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Mural feito por um coletivo de meninas grafiteiras no espaço onde funcionará a brinquedoteca da escola. A verba para a compra das tintas foi arrecadada entre os professores (Foto: Alberto Jacob Filho)

Apesar de as leis nº 10.639 e 11.645 tornarem obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana, e também dos povos indígenas brasileiros, isso ainda não é uma realidade em muitas escolas. No entanto, desde 2011, um trabalho desenvolvido na E.M. Clementino Fraga, em Bangu (8ª CRE), surge como exemplo bem-sucedido de que abordar esses temas durante todo o ano letivo é não apenas possível, mas necessário.

Seguindo um modelo comum em universidades, o professor Gustavo Pinto, formado em História, criou na escola o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros Ayó (em yorubá, “felicidade”, “alegria”) – Neab Ayó, focado na educação das relações étnico-raciais.

“Trabalhamos na formação de professores e promovemos discussões e oficinas durante todo o ano com os alunos. Abolimos o que costumo chamar de ‘currículo turista’, pautado nos dias 13 de maio e, principalmente, 20 de novembro. E todo esse trabalho é celebrado na Semana Afropedagógica”, explica, referindo-se ao evento que acontece no final do ano letivo, com apresentações culturais e atividades diversas.

Hoje, Gustavo coordena o Neab Ayó ao lado da professora regente Monique de Almeida dos Santos, do 5º ano, e conta com o apoio da Direção e de outros professores da unidade.

“O maior desejo do Núcleo é que a lei seja efetivada nas escolas da Rede, que os alunos tenham espaço para falar dessas questões e sintam-se seguros”, declara Gustavo, que desde 2015 é professor de Sala de Leitura e, atualmente, também está substituindo docentes do 4º e 5º anos.

Neab Ayó: um início conturbado 

Painel na sala cedida ao Neab Ayó (Foto: Alberto Jacob Filho)

O projeto começou em 2011, quando Gustavo entrou na E.M. Clementino Fraga. Ele relembra que, durante uma aula sobre o período da escravidão, expôs a seus alunos o que é silenciado em muitos livros didáticos. “Quando contei alguns episódios do passado, eles ficaram em choque. E também começaram a se reconhecer. À medida que o conteúdo avançava, eu era cada vez mais questionado por alunos do 4º e 5º anos, que passaram a pedir por aulas de História todos os dias. Precisávamos de um espaço maior de discussão”, recorda.

Na época, o espaço foi solicitado à Direção, mas negado. “Disseram não ser necessário, já que não havia racismo na escola”, relata Gustavo, que, por anos, foi tido como “o professor que estuda preto”.

Diante da recusa, o bate-papo com os alunos passou a ocorrer durante os intervalos, na quadra da escola. “O Núcleo, desde sua fundação, surgiu como um movimento de resistência.”

Em 2015, com a mudança na Direção da unidade, a iniciativa foi reconhecida oficialmente e as atividades do Neab passaram a relacionar-se ao projeto político-pedagógico da escola. Em 2017, por exemplo, no bimestre em que se abordou o tema machismo, o Núcleo enfatizou a questão da violência contra a mulher negra; quando o assunto em pauta foi bullying, o Neab destacou conceitos e analisou expressões racistas; com o tema intolerância religiosa, foram apresentadas religiões de matriz africana.

“O trabalho do Núcleo não pode ser dissociado do planejamento da escola. Caminhamos em paralelo”, comenta Gustavo.

Ações do Neab Ayó na E.M. Clementino Fraga

Hoje, o Neab Ayó é formado por alunos pesquisadores, em sua maioria do 4º e 5º anos, que se reúnem em uma sala própria, cedida pela Direção. “Nesses encontros, eles trazem os temas, nós debatemos e propomos práticas pedagógicas para toda a escola”, explica, ressaltando que qualquer aluno pode participar das reuniões, quando tiver interesse.

Entre os assuntos que fomentam discussões e pesquisas do grupo estão mitologia afro, apelidos e brincadeiras racistas, genocídio de jovens negros e episódios destacados pela mídia envolvendo pessoas públicas.

Confira algumas iniciativas do Neab Ayó na E.M. Clementino Fraga:

— Roda de leitura afro na Educação Infantil

Um trabalho de contação de histórias é feito com alunos da Educação Infantil. Além disso, os professores exploram livros como Bruna e a galinha d´angola, de Gercilga de Almeida, cuja leitura levou à confecção de uma boneca da personagem – por iniciativa de uma docente –, adorada por todos e exposta na Sala de Leitura da unidade.

“A Educação Infantil é um campo muito fértil para se trabalhar relações étnico-raciais. Valores como a oralidade, a musicalidade e a corporalidade estão presentes cotidianamente nessa fase, em que começa a ser trabalhada a questão da identidade. Por isso, é importante que os professores apresentem personagens negros e que a criança se sinta encorajada, por exemplo, a pintar de preto o seu autorretrato”, diz Gustavo.

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Foto: Alberto Jacob Filho

— Formação de professores

O Núcleo discute e propõe aos docentes práticas que valorizem a cultura afro-brasileira. “O Neab apresenta propostas de atividades durante os Centros de Estudo e os Conselhos de Classe, mas a formação também acontece no recreio, no almoço, nos corredores da escola, onde surgem as questões. Não há um manual ou uma lista pronta com sugestões de materiais. Nós pesquisamos o tempo todo e trabalhamos com demanda”, explica Gustavo Pinto.

O interesse e a demanda por parte dos alunos fizeram com que alguns docentes passassem, inclusive, a buscar cursos de especialização. “Para atender melhor aos questionamentos dos estudantes, fiz o curso de Cultura e Mitologia Yorubá do Colégio Pedro II”, conta a professora Monique dos Santos.

O Neab Ayó também já prestou assessoria a outras escolas interessadas, como a E.M. Presidente Café Filho (Bangu) e a E.M. General Tasso Fragoso (Padre Miguel), ambas da 8ª CRE.

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Monique de Almeida dos Santos e Gustavo Pinto, coordenadores do Neab Ayó, exibem a boneca Bruna e o berimbau usado para a contação de histórias (Foto: Alberto Jacob Filho) 

— Oficinas de turbantes, pinturas africanas, máscaras e bonecas negras

Depois de serem apresentados conceitos, expressões e rituais, os alunos são convidados a criar máscaras, fazer pinturas africanas e confeccionar turbantes e bonecas negras.

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Foto: Alberto Jacob Filho

— Visita de convidados

Para debater assuntos de interesse do grupo, são promovidos encontros. Deles já participaram a assistente social Cecilia Luiz, abordando a saúde da mulher negra, e Carlos Maia, diretor do documentário O que você tem na cabeça?, sobre o modo como nos relacionamos com nosso cabelo.

— Aulas de percussão

Durante um ano, os estudantes tiveram aulas de percussão em lata com Gabriel Lopes Neto, do bloco afro Agbara Dudu, de Madureira. As crianças participaram, inclusive, da confecção dos instrumentos. 

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Foto: Alberto Jacob Filho

— Dança afrorreligiosa

Em 2016, depois de debates sobre religiões, história e mitologia, os alunos apresentaram uma dança em homenagem a Oxum na festa de final de ano da escola. “Se falamos de deuses gregos, por que não falar dos africanos? Precisamos nos encorajar. Os alunos se apaixonaram pela história de Oxum e quiseram dançar. O problema está no adulto e não na criança”, aponta Gustavo Pinto.

— Mural fixo na escola
O Neab possui um mural na escola, onde são destacados dados, reportagens e textos pesquisados e/ou desenvolvidos pelo grupo.

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Foto: Alberto Jaco Filho

— Representatividade na Sala de Leitura 

Foto: Alberto Jacob Filho

Duas estantes da Sala de Leitura são destinadas a livros voltados às culturas afro e indígena. “Há uma procura grande! As crianças desejam ler esses livros, que são riquíssimos!”, reforça o professor, citando obras como Erê, da empresa Era Uma Vez o Mundo; Obax, de André Neves; e O mundo no black power de Tayó, de Kiusam de Oliveira.

Além disso, na porta da sala foi colocada a figura de uma menina negra e, nas paredes, há imagens de representantes de todas as raças. “É preciso ter atenção aos murais e cartazes expostos na escola. Se uma aluna vê apenas a Cinderela, como ela se reconhece em seu processo de identidade enquanto afro? Nossa escola é preta! Não faz sentido ter uma princesa branca na porta”, diz o professor.

O Neab e relação com as famílias dos alunos

A professora Monique de Almeida dos Santos comenta que, nos casos em que algum responsável vai à escola questionar atividades desenvolvidas pelo Núcleo – por falta de informação ou dificuldade em lidar com o preconceito –, a estratégia adotada é a de sensibilização, além da apresentação das leis que fundamentam as ações propostas.

“Levamos uma reflexão a essas famílias e apostamos na sensibilização. Apresentamos as leis que nos amparam, e não partimos para o enfrentamento. Ainda assim, há pais que não permitem que seus filhos participem de determinadas atividades”, conta a professora.

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