13 Setembro 2017
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Tropicália foi o nome dado por Hélio Oiticica para a instalação da foto acima

Quando falamos sobre o tropicalismo, referências que vêm à memória são roupas coloridas e um jeito de falar que parece mais complicar que explicar, mas a importância do movimento tem status de revolução na cultura brasileira.

O antropólogo Hermano Vianna recorreu ao depoimento de Caetano Veloso, um dos seus expoentes, para defini-lo: “A palavra-chave para se entender o tropicalismo é sincretismo. Não há quem não saiba que esta é uma palavra perigosa. E, na verdade, os remanescentes da Tropicália nos orgulhamos de ter instaurado um olhar, um ponto de vista do qual se pode incentivar o desenvolvimento de talentos tão antagônicos quanto os de Rita Lee e de Zeca Pagodinho, o de Arnaldo Antunes e o de João Bosco, do que nos orgulharíamos se tivéssemos inventado uma fusão homogênea e medianamente aceitável”. Vianna usou as palavras de Caetano no catálogo da exposição Tropicália – Uma Revolução na Cultura Brasileira, que ocorreu durante a comemoração dos 40 anos do movimento, passando por Estados Unidos, Londres, Berlim e Rio de Janeiro.

Tropicália foi o nome com que o artista Hélio Oiticica batizou uma instalação no MAM-RJ em 1967: uma espécie de labirinto que fazia alusão às favelas e aos trópicos, contendo elementos como araras, parangolés e aparelho de televisão. Nesse mesmo ano, Caetano Veloso e Gilberto Gil se apresentaram no festival da canção da TV Record, defendendo, respectivamente, Alegria, Alegria e Domingo no Parque. A novidade era que, em vez de usar apenas instrumentos acústicos, como em geral acontecia, eles foram acompanhados por bandas de rock and roll – no caso de Caetano, pelo grupo argentino Beat Boys, e Gil por Os Mutantes. Em 1968, Caetano e Gil, juntamente com Gal Costa, Os Mutantes, Tom Zé e os poetas Capinan e Torquato Neto, lançaram o disco Tropicália ou Panis et Circensis.

O final da década de 1960 foi caracterizado pela intensa criatividade e também por muita repressão. Em 1967, Glauber Rocha lançou o filme Terra em Transe; José Celso Martinez Corrêa dirigiu a peça teatral O Rei da Vela, escrita por Oswald de Andrade; e José Agrippino de Paula lançou o romance PanAmérica. Em dezembro de 1968, a assinatura do Ato Institucional nº 5, AI-5, inaugurou o período mais duro da ditadura brasileira, dando poder de exceção aos governantes para punir arbitrariamente os que fossem inimigos do regime ou assim considerados (vigorou até dezembro de 1978).

Marcos Bonissom, mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela UFF, diz que “o caldeirão da cultura estava em ebulição. No Brasil, especificamente, surgiram diversas manifestações artísticas que tinham pontos de confluência, mas também de divergência. Não podemos colocar todos no mesmo balaio”, adverte ele. “Glauber, por exemplo, não gostaria de ver Terra em Transe classificado como tropicalista.”

Segundo Bonisson, professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, a hibridização – a mistura que junta samba, rock e baião em uma mesma música, por exemplo – é a influência mais notável do tropicalismo na cultura brasileira atualmente. “Somos um país mestiço, racista e classista, onde quem pode exerce os seus pequenos podres poderes contra o cidadão. Para mim, as palavras de Hélio Oiticica permanecem: ‘A pureza é um mito’. Somos mais quando somos síntese.”

Santuza Neves e Frederico Coelho, respectivamente do Departamento de Sociologia e Política e do Departamento de Letras da PUC-Rio, explicaram, também no catálogo da exposição Tropicália – Uma Revolução na Cultura Brasileira, que o tropicalismo trouxe renovações estéticas que estavam em curso no país durante o século XX: o espírito crítico em relação à cultura brasileira, no sentido de pensá-la em sua singularidade, sem abdicar de uma perspectiva universal. Hermano Vianna, nessa mesma publicação, acrescentou que o tropicalismo fez uma “bricolagem de ideias do modernismo brasileiro e internacional na frente das câmeras de televisão, como novos ídolos de massa”. E que eles estavam interessados em “bagunçar as certezas”.

Robert Pritzker, diretor do Museu de Arte Contemporânea de Chicago, e Holly Block, diretora-executiva do Museu do Bronx, em Nova York, por ocasião da exposição Tropicália – Uma Revolução na Cultura Brasileira, escreveram que o tropicalismo (1967-72) é considerado “uma verdadeira força na cultura popular e uma fonte contínua de inspiração para diversas gerações de artistas, escritores e músicos”.

Quem quiser vivenciar essa força, hoje, pode aproveitar a exposição dedicada ao tema que acontece até 18 de setembro no Centro Cultural Banco do Brasil, no Centro. O espectador terá contato com som, imagens e objetos relacionados ao LP Tropicália ou Panis et Circensis. A entrada é gratuita.

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