04 Agosto 2017
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Os alunos Gabriela Rosa Borrigueiro, Suzane Gomes, Ana Julia Bittencourt Brito e Arthur Marinho dos Santos com o professor Lucio Panza (Foto: Alberto Jacob Filho)

Qual a semelhança entre uma mitocôndria e uma usina hidrelétrica? A comparação pode parecer inusitada em um primeiro momento, mas tem ajudado os alunos do professor Lucio Roberto Panza da Silva, da E.M. Comenius (8ª CRE), em Bangu, a estudar conceitos de biologia celular. E essa é apenas uma das analogias propostas pelo jogo de tabuleiro Cidade-Célula, criado pelo docente para reforçar conceitos estudados em sala de aula de forma prática e divertida. 

Com o conteúdo voltado para alunos do 8º ano, o jogo aborda as relações de complementaridade funcional de organelas da célula animal, como mitocôndria, lisossomo e núcleo, por meio do uso de representações de construções de uma cidade, entre elas uma usina hidrelétrica, um restaurante e uma biblioteca.

A ideia surgiu durante um curso de aperfeiçoamento em Biociências e Saúde, realizado pelo professor na Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz, em 2010, mas só começou a ser colocada em prática quatro anos depois, durante a pós-graduação em Ensino de Ciências e Biologia, concluída na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

“Busquei um assunto em que os alunos pudessem fazer associações, links que transformassem o conteúdo em algo prático”, explica Lucio.

A concepção do jogo

Cidade-Célula foi elaborado a partir de adaptações do modelo TWA (Teaching With Analogie), proposto por Glynn em 1991, seguindo alguns passos para a estruturação do jogo, esquematizados, a seguir, pelo professor.

1º Passo – Introdução do conceito formal a ser ensinado: as funções das organelas da célula animal.

2º Passo – Introdução do “correspondente análogo”: apresentam-se as funções sociais das construções prediais.

3 º Passo – Identificação das características relevantes do “análogo” utilizado: inicia-se debate sobre as funções diárias que ocorrem no interior das unidades prediais.

4 º Passo – Estabelecimento das similaridades entre o “análogo” e o “alvo”: a célula é mostrada como uma “grande cidade”, onde as construções representam suas organelas e fazem referência ou indicam suas funções, conforme a tabela a seguir:

Tabela Jogo

5 º Passo: Determinar regras, iniciar o jogo e analisar a percepção dos estudantes durante as partidas: aplicação de um questionário semiestruturado, com perguntas abertas e fechadas, para coletar dados sobre o manuseio do jogo pelos alunos.

 

A dinâmica do jogo

Antes de apresentar o Cidade-Célula, Lucio Panza deu as aulas teóricas referentes ao conteúdo proposto pelo jogo. Só então levou a atividade aos alunos, que foram se revezando, em várias partidas. 

O tabuleiro do jogo, confeccionado em EVA (Foto: Alberto Jacob Filho)

O jogo é composto por: 

- Um tabuleiro com 35 casas (“trilhos” da cidade) e seis prédios – usina hidrelétrica, biblioteca, rodoviária, farmácia, alfândega e restaurante –, feitos em EVA;

- seis pequenos tabuleiros individuais para cada jogador, no formato de uma célula, também confeccionados em EVA;

- setenta cartas com perguntas relacionadas ao conteúdo de Biologia proposto;

- quarenta e oito peças representando organelas celulares, sendo seis unidades de cada (lisossomo, ribossomo, retículo endoplasmático rugoso, retículo endoplasmático liso, complexo de Golgi, centríolo, mitocôndria e núcleo);

- um dado e seis peões.

Todo jogador inicia a partida na fronteira da cidade (membrana celular). Depois de lançar o dado, percorre o número respectivo de casas, representadas pelos trilhos dos microtúbulos. 

A "célula" individual de cada jogador (Foto: Alberto Jacob Filho)

Em seguida, responde à pergunta que consta em uma das cartas, lida por outro integrante. Se acertar, conquista uma organela para montar sua “célula” individual. Se a resposta não tiver adequada, o jogador devolve uma organela – caso possua –, e permanece na mesma casa.

Durante o percurso, sempre que o peão parar em um dos “prédios da cidade” ou nos trilhos que possuem imagens de centríolos ou ribossomos, o jogador ganha uma organela.

No trajeto, também há perigos e armadilhas, como “assalto” (em que se perde todas as organelas já conquistadas) ou a casa “volte ao início”.

Vence o participante que completar a célula “seu tabuleiro individual” primeiro.

Durante o jogo, o professor assume a função de mediador do grupo de alunos, esclarecendo possíveis dúvidas e incentivando os adolescentes.

Os resultados e as impressões dos alunos

Para o professor, além de motivar a participação dos estudantes na construção do próprio conhecimento, a atividade favorece a socialização e resgata uma forma de brincar não muito familiar aos adolescentes.

“A geração deles é a dos games no celular ou no computador, mas este jogo não tem nada de digital. Então, acabou sendo uma forma de ‘resgatar’ os jogos de tabuleiro”. 

As cartas do jogo trazem questões que, segundo o professor, poderiam estar em uma prova (Foto: Alberto Jacob Filho)

A avaliação e as impressões dos estudantes sobre o Cidade-Célula foram obtidas por meio de um questionário distribuído a uma turma de 8º ano, ainda em 2015, quando o professor lançou o desafio. 

Todos os estudantes aprovaram a atividade, por ser “uma forma de aprender a matéria brincando”. Em geral, mostraram-se surpresos e intrigados com a proposta de comparar uma célula com uma cidade, e disseram terem sido desafiados, sobretudo, com algumas “pegadinhas” presentes nas perguntas.

Houve também quem minimizasse uma eventual complexidade, mas reconhecesse a necessidade de estudar. “Não me senti com dificuldades, apenas tinha coisas que eu não sabia responder. Mas é só estudar”, escreveu um dos alunos.

Confira, no vídeo abaixo, o depoimento das alunas Gabriela Rosa Borrigueiro e Ana Julia Bittencourt Brito, do 9º ano da E.M. Comenius, que têm jogado o Cidade-célula para revisar conteúdos. 

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