31 Julho 2017
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Saber sobre as histórias de vida das crianças e adolescentes acolhidos em abrigos é reconhecer que são todas muito tristes (Fonte: www.healthdirect.com)

“O grande desafio para a política de educação, hoje, é receber e atender o aluno em diferentes circunstâncias.” Ao fazer essa afirmação, a pedagoga e assistente de direção do Núcleo Interdisciplinar de Apoio às Unidades Escolares (Niap), da Secretaria Municipal de Educação (SME), Katia Rios, está se referindo principalmente àquela criança ou àquele adolescente que não vive numa família estruturada e, por isso, é mais vulnerável, o que se reflete na sua trajetória escolar. “A gente não tem o debate necessário sobre o assunto. O jovem que passa por uma instituição socioeducativa, por exemplo, tem uma história de vida e necessidades diferentes. Mas não se pode olhar para ele como se não merecesse estar na escola”, frisa. Atualmente, o Niap conta com uma equipe multidisciplinar que presta suporte sempre que surge a necessidade de acolhimento institucional, inclusive em abrigos. Por isso mesmo, o tema foi escolhido para o próximo Vamos Conversar Sobre... – material distribuído pelo Niap com o objetivo de provocar o diálogo com os professores, e que até agora já tratou de assuntos como bullying, protagonismo juvenil, convivência e conflito, entre outros. 

Inclusão colocada em prática

Quando algum tipo de impedimento faz com que o Conselho Tutelar encaminhe uma criança ou um adolescente para um abrigo, uma das primeiras providências é garantir a continuidade da vida escolar, por meio da matrícula em uma unidade que esteja localizada nas proximidades. A E.M. Domingos Bebianno (3ª CRE), em Inhaúma, conhece bem essa realidade, pois tanto teve alunos regulares que alternaram idas e vindas aos abrigos quanto já recebeu, pela primeira vez, este ano, uma menina que veio da Central de Triagem Taiguara. Não são poucos os casos conhecidos por Tula dos Santos Breves, diretora da unidade desde 2014, na qual começou como coordenadora dez anos antes. Sob sua responsabilidade existem, atualmente, 423 crianças, oriundas de comunidades do bairro de Inhaúma, como a Favela da Galinha, além da Fazendinha, Nova Brasília e Grota, situadas no Complexo do Alemão. No momento, a escola oferece uma turma de Educação Infantil, o primeiro segmento do Ensino Básico e o 6º ano experimental.

“Professores podem salvar vidas”, afirma a diretora

L. tem 11 anos. Depois que sua mãe morreu e seu pai não quis ficar com ela, a menina foi parar na casa de um tio, de onde fugia, e depois na Central de Triagem Taiguara, de onde também fugia. Ao ser recebida na escola, se sentiu acolhida, porque escutou da diretora: você deu a maior sorte de vir parar aqui! “Aquele deveria ser um abrigo de passagem, mas ela estava lá havia três meses”, conta Tula. “Só ficou agressiva e passou a bater nos colegas quando soube que tinha que mudar de abrigo e voltar para Bangu, que é seu bairro de origem. Toda vez que se comportava mal, se arrependia e vinha me abraçar, se desculpando. A escola foi o primeiro porto seguro depois de tudo o que aconteceu na vida dela.” Ana Cláudia Gouvêa, professora de L. por cerca de dois meses, diz que a menina não tinha nenhuma dificuldade de aprendizado, embora precisasse de acompanhamento psicológico. “Eu realmente não tenho do que reclamar. Nossa afinidade foi instantânea e ela ficou muito chegada a mim. No último dia de aula, escreveu um bilhete, dizendo ‘tia, eu te amo, me adota!’.”

Estudo de caso

Na época em que ainda dava aulas, a diretora Tula precisou tirar três meses de licença e, quando retornou, assumiu uma turma de difícil alfabetização, com um menino franzino de 8 anos que tinha histórico de agressão física a uma das professoras mais tranquilas da casa. “F. batia em todo mundo. Eu sabia que, se chegasse brigando com ele, não ia funcionar. Entrei na sala e vi que ele estava de pé, dando tapas na cabeça dos colegas. Cheguei dizendo que estávamos na melhor escola do Brasil, talvez do mundo, e que, naquela semana, ia acontecer uma coisa muito legal. Foi quando ele parou o que estava fazendo, olhou para mim pela primeira vez e gritou: um passeio? Juro que nem tinha pensado nisso, mas aproveitei a deixa e devolvi: quem te contou? Continuei, dizendo que só ia levar no passeio as crianças que ficassem sentadas, e ele prontamente se sentou. Em menos de um mês, F. já me dizia que queria aprender. Ele era totalmente fascinado pelas tirinhas de papel que usávamos com as palavras escritas.”

Um dia, a mãe não apareceu para pegar o menino na hora da saída. O Conselho Tutelar foi informado e o levou para um abrigo. Passados três dias, a mãe veio, visivelmente alcoolizada, dizendo que estava dando falta dele. “O mais surpreendente é que, ao chegar ao abrigo, ela descobriu que o filho mais novo também estava lá – eram tantos que ela ainda não tinha se dado conta do sumiço anterior...” O menino ficou meses num abrigo, aguardando uma decisão judicial, e acabou matriculado mais perto dali, na E.M. Ayrton Senna da Silva (8ª CRE), em Bangu. A mãe recebeu ajuda de assistentes sociais e recuperou a guarda não apenas de F., mas também de seus irmãos, que haviam sido encaminhados, provisoriamente, para a casa de parentes.

“Depois dessa fase, ficamos sabendo que a Fundação para a Infância e Adolescência (FIA) havia recolhido o garoto, à uma hora da manhã, em Copacabana, inalando solvente. Passado algum tempo, ele me procurou, dizendo que queria aprender as palavras novamente. A mãe compareceu, fizemos a matrícula, e aí aconteceu o pior: em uma crise de abstinência, ele foi trazido para a secretaria da escola e simplesmente quebrou tudo o que encontrou pela frente. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) demorou tanto que, quando chegou, o surto já tinha passado e F. não pôde ser removido. Hoje ele, provavelmente, está pela rua. A gente perdeu aquela criança. Cheguei a levar o caso para a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), onde fiz pós-graduação de administração e gestão escolar. Nessas horas, sinto falta do Estado, porque ainda não existe um acompanhamento efetivo depois que se faz o resgate”, lamenta Tula.

Famílias desestruturadas

P. sofreu abuso sexual do pai entre os 10 e os 12 anos. Até que, encorajada por uma vizinha, expôs seu drama em plena sala de aula. A diretora da escola denunciou o caso ao Conselho Tutelar e se surpreendeu ao ver que, passados 19 dias, nenhuma providência havia sido tomada. Diante da inoperância do órgão, Tula telefonou novamente, perguntando, então, como fazer para entrar com uma denúncia contra o Conselho. O recurso desesperado funcionou e a garota foi para um lugar seguro, na casa da família da mãe, em uma comunidade próxima, no Complexo do Alemão. “A letra da menina, as notas, tudo mudou para melhor. Ela passou a sorrir mais. Houve um grande esforço coletivo, inclusive dos parentes, para que ela continuasse aqui na escola. Todo mundo se emocionou na formatura dessa turma!”, lembra a diretora.

Tula Breves: diretora da E.M. Domingos Bebianno é obstinada em cuidar das suas crianças (Foto: Alberto Jacob Filho, 2017, MultiRio)

Quando P. saiu do alcance do agressor, que vivia bêbado, ele voltou sua atenção para uma das filhas menores, de quatro anos, se aproveitando da ausência da mãe, que passava a maior parte do tempo fora, fazendo faxinas para garantir o sustento dos nove filhos. Tentando evitar o pior, um dos irmãos mais velhos, então com 16 anos, correu para pedir ajuda aos bandidos da área. “Com a ausência do pai, a escassez de recursos financeiros, que já era bem grave, piorou. Um outro irmão de 13 anos, também nosso aluno, começou a faltar à escola para catar latinhas, até que abandonou os estudos. Hoje ele tem 18 anos e está preso, assim como outro dos irmãos. Nesses casos, a gente costuma pedir ajuda ao Projeto Aluno Presente da SME.”

Segundo Tula, é muito importante que haja um suporte capaz de atender todos os membros da família, para que ela se recupere em conjunto e consiga, assim, superar qualquer tipo de crise. “Até o ano passado, tínhamos um aluno que recomendava o abrigo aos colegas porque lá, pela primeira vez, ele foi à praia. Em nenhuma hipótese, a criança deve acreditar que o abrigo seja melhor do que a própria casa.”

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