05 Abril 2017
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Fachada Roberto Coelho 2
Foto Alberto Jacob Filho, 2017, MultiRio

A apenas alguns quarteirões da cidade de Itaguaí, no Conjunto Reta do Rio Grande, em Santa Cruz, localiza-se a E.M. Roberto Coelho (10ª CRE), com 322 alunos do 1º ao 5º ano. Não se trata de qualquer escola, mas da que conquistou a maior média (8,2) nas últimas provas do IdeRio (8,1) e do Ideb (8,3), que avaliaram o desempenho dos alunos do primeiro segmento do Ensino Fundamental. “Nem sempre essa foi a nossa realidade”, avisa logo a diretora Ana Cristina dos Santos Greco. Na primeira avaliação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), em 2007, a nota foi 3,1.

Pode parecer estranho a alguns, mas essa baixa performance marcou o pontapé inicial da virada administrativo-pedagógica da Roberto Coelho, até então uma instituição de ensino desacreditada, onde sobravam vagas e os pais relutavam em colocar os filhos para estudar. Por causa disso, a diretora foi convidada a participar do Plano de Desenvolvimento da Escola (PDE), um programa do governo federal monitorado pela então Secretaria Municipal de Educação. “Essa oportunidade favoreceu muito o direcionamento do meu olhar para dentro da escola. Aprendi a montar quadros de desempenho, a trabalhar com números e a fazer levantamento de dados, tanto dos nossos pontos fortes como das nossas precariedades”, contou Ana Cristina.

Colocando em prática o que aprendeu, passou a monitorar as faltas, a diagnosticar precocemente as dificuldades dos alunos (um a um, inclusive daqueles que precisavam de acompanhamento clínico), a fazer reuniões periódicas com os responsáveis, a estimular a participação de toda a comunidade escolar e a buscar o compromisso de todos com a imagem da Roberto Coelho. A transparência e a construção da confiança mútua entre a escola e as famílias dos alunos, segundo a diretora, foi uma das chaves para a conquista de uma identidade positiva da instituição. Nesse sentido, realizou esforços para fortalecer o Conselho Escola-Comunidade. Nas reuniões mensais, as alegrias e as dificuldades são compartilhadas com os pais e responsáveis, inclusive o alto ou o baixo desempenho das crianças.

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Ana Cristina, a diretora da E.M. Roberto Coelho, e Ana Carolina, a diretora adjunta. Foto Alberto Jacob Filho, 2017, MultiRio

A nova forma de gerir deu resultados. Em 2009, a nota na prova Brasil saltou para 5,4; em 2011, para 5,8; em 2013, para 7,3; e em 2015, para 8,3. “Esse desempenho é fruto de um processo árduo de priorização da gestão e do acompanhamento pedagógico de forma sistemática. Fazemos um grande esforço para não termos nenhuma criança a menos”, afirmou, sem esconder o orgulho com o resultado da labuta.

O fazer pedagógico

A cada triênio, a direção da E. M. Roberto Coelho constrói um projeto político-pedagógico (o atual é Aqui, acreditamos e fazemos acontecer juntos), que anualmente recebe um enfoque diferente. O tema de 2017 é Tempo de aprender com amor, com base na estratégia de fortalecer os vínculos entre os interessados no processo de desenvolvimento do aluno: a escola e a família.

Para que as crianças tenham bom desempenho, a unidade escolar também tem outras cartas na manga. “Além da grande preocupação com o conteúdo curricular, no decorrer dos anos fui percebendo que a atitude é algo muito importante. A aprendizagem não depende só do que o professor ensina em sala de aula, mas também do desenvolvimento de várias habilidades dos alunos, como a atenção, a memória, o equilíbrio...”, explicou a diretora.

Maria Luiza 2
Turma do 3º ano e a professora Maria Luíza. Foto Alberto Jacob Filho, 2017, MultiRio

Em sala de aula, os professores aplicam os cadernos pedagógicos desenvolvidos e distribuídos pela SMEEL, pois a escola entende que a Secretaria tem uma diretriz curricular que deve ser cumprida. “Ele pode ter críticas aos cadernos, usar outros meios e fontes, mas o conteúdo tem que ser dado e, normalmente, estamos além dele”, ponderou Ana Cristina.

Os professores também não têm que utilizar uma metodologia de ensino específica, mas precisam fazer com que os conteúdos sejam atravessados por um tema que muda anualmente (dengue e demais doenças transmitidas pelo Aedes aegypt, em 2017). A alfabetização, por exemplo, está sendo feita a partir desse assunto e, segundo a diretora, na Roberto Coelho o processo é sempre assim – do texto para a palavra –, e está bastante consolidado, pois as professoras do 1º ano são as mesmas há meia década. Identificaram-se com o ensino das primeiras letras e pediram para continuar a fazer o trabalho.

Nas demais séries, os professores nem sempre são os mesmos. Como a escola é localizada em um bairro distante, alguns preferem se transferir para outra mais próxima de casa e o remanejo tem que ser feito. A maioria dos professores também teme dar aula para o 3º e para o 5º ano, porque são as turmas avaliadas pelo IdeRio e pelo Ideb. Mas Ana Cristina sempre tenta desconstruir esse pensamento: “É claro que, se uma turma de 3º ano vai mal, as coisas também não devem estar correndo bem no 1º e no 2º. Todos os professores, de todos os anos, têm responsabilidade em relação ao desempenho dos alunos nas provas Rio e Brasil”.

Habilidades e atitudes

Com a percepção de que a aprendizagem não envolvia apenas o trabalho do professor e o conteúdo dado em sala de aula - dependia também das habilidades dos alunos -, a direção da unidade escolar passou a pesquisar de que maneira poderia desenvolvê-las entre as crianças. O caminho encontrado foi o da ressignificação do trabalho do agente educador (uma espécie de inspetor), treinando-o para aplicar atividades voltadas para o desenvolvimento do foco, da atenção, do equilíbrio, da memória e de outras habilidades necessárias a um aprendizado mais pleno. “A aprendizagem e o bom desempenho também dependem da atitude”, defende Ana Cristina.

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Alunos do 5º ano em aula de reforço com a professora Danielle Viana, enquanto os demais fazem atividades de desenvolvimento de habilidades no pátio da escola. Foto Alberto Jacob Filho, 2017, MultiRio

O trabalho de desenvolvimento das habilidades é feito por meio de brincadeiras e de jogos específicos, e integra a grade escolar. Semanalmente, cada turma participa das atividades aplicadas pelo agente educador, exceto os alunos que precisam de reforço. Estes ficam em sala de aula para tirar as dúvidas com o professor.

Como a insegurança, o nervosismo, a ansiedade e o desconhecido não são aliados da boa performance, a Roberto Coelho, por meio de simulados, ensina os alunos a fazerem as provas Rio e Brasil. E para ajudar ainda mais a lidarem com as situações de pressão, como a da prova, a escola distribui frasquinhos de placebos coloridos, que vêm acompanhados de uma “bula”. Cada cor de pastilha é “indicada” para uma situação: a vermelha para melhorar a confiança; a roxa para ter calma e paciência; a verde para ter esperança; a laranja para aumentar a coragem; e a azul para não perder a determinação. Segundo a diretora, os “remédios” dão certo, porque depois da prova, alguns correm para lhe dizer: “Tia, eu estava muito nervoso. Tomei a pílula roxa e me acalmei”. “Tia, tomei a pílula vermelha e fiquei confiante”...

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