23 Agosto 2016
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Cartaz do filme Alô, Amigos (Fonte: radioalo.com.br)

No livro Heróis e Heroínas da Cidade do Rio de Janeiro, lançado pela Prefeitura no aniversário de 450 anos de fundação do Rio, o povo carioca também é homenageado. As características que descrevem esse jeito de ser muito peculiar incluem a noção de malandragem, que vem fazendo parte do imaginário coletivo há muitas gerações, dando combustível para diferentes formas de expressão artística e, ao mesmo tempo, sendo também reforçada por elas.

O lento trabalho da crônica cotidiana

Ao fim do período monárquico brasileiro, o Rio de Janeiro permaneceu como centro político do país. O advento da República reivindicava a afirmação de uma nova identidade nacional. No Distrito Federal, a subjetividade local sofreu forte influência do trabalho de cronistas como Machado de Assis, Olavo Bilac, João do Rio e Lima Barreto, todos respeitados escritores que publicaram seu trabalho na Gazeta de Notícias entre 1890 e 1940. Durante essa fase da história, a cidade passou por importantes mutações: virou ponto de atração de antigos escravos libertos, especialmente aqueles vindos da Bahia, e sofreu uma completa reformulação urbana, principalmente no Centro, com o intuito de se modernizar e se consolidar como uma verdadeira metrópole. Nada mais natural, portanto, que a população também sofresse influência de um ambiente novo e efervescente.

O gênero da crônica ganhou os cariocas por diversas características: linguagem descontraída, leveza, intimismo e toques de humor ou ironia. Como os cronistas costumavam escolher seus temas dentre os acontecimentos políticos ou sociais do momento, indiretamente começaram a moldar a opinião pública. Ao discutir com frequência a noção de “permanência”, Machado de Assis foi um dos primeiros a lançar alguma luz sobre a ideia de patrimônios materiais e imateriais do Rio. Naquela época, o fundador da Academia Brasileira de Letras já fazia referência à descrença da população frente ao poder público e traçava paralelos entre o jeito das pessoas e a própria atmosfera – mais apropriado dizer ‘personalidade’? – da cidade.

Phrygia Arruda, pesquisadora e professora da UFRJ, resume, em um parágrafo, a essência dessas especulações. “Podemos afirmar que, para Machado de Assis, as características mais relevantes do jeito dos cariocas eram: ser comemorativo, descompromissado, politicamente apático e descrente. E as características mais relevantes da cidade – ser festeira, politicamente pouco calorosa, berço da intelectualidade e da preguiça – estavam em sintonia com sua população.” Olavo Bilac, que substituiu Machado na Gazeta de Notícias, também teve a atenção despertada para o jeito carioca, apontando seu caráter supersticioso e que, apesar de apolítico, conseguia acreditar no amanhã. Para o autor, a população do Rio via nos acontecimentos mera obra do acaso, em lugar da recompensa pelo trabalho empreendido, ainda que isso dissesse respeito a melhorias nas condições de vida na cidade.

Mas foi João do Rio o primeiro entre seus pares a lançar alguma luz sobre a malandragem carioca, muito fortemente expressa no linguajar – o escritor deu-se ao trabalho de inventariar expressões comuns nas ruas – e na maneira displicente de se relacionar com o outro. Lima Barreto também conseguiu enxergar além do modelo parisiense, que as autoridades buscavam reproduzir na feição das ruas cariocas, e se deteve sobre as características da sociedade, que descrevia, em suas crônicas, como sendo de um convívio solidário entre vizinhos, algo bem diferente do usual na sociedade capitalista moderna.

Uma possível forma de resistência

Paralelamente à expressão de intelectuais e artistas, e muito provavelmente também como resultado do intercâmbio entre a cultura e as estruturas sociais, foi por esta fase da história da cidade que, vencidas algumas barreiras de preconceito, a feição da vida carioca começou a se consolidar. A origem do malandro está, na realidade, ligada à abolição da escravatura. Alguns historiadores afirmam que a malandragem seria uma expressão de desobediência da população recém-liberta e seu desejo de não continuar submetendo a própria força de trabalho ao aviltamento. Outros despolitizam o fenômeno, garantindo que o contingente negro só conseguiu inserção como mão de obra flutuante especialmente porque havia uma opção do Estado pelo branqueamento, a ser alcançado por meio do incentivo à vinda de imigrantes para o país.

Malandragem como um estilo de vida

A década de 1920 foi decisiva para a mitificação do malandro. Samba e malandragem passaram a ser vistos como representantes típicos da alma carioca. Teatro de revista e música popular intercambiavam referências de modo muito intenso. O momento era bastante propício para a formação da cultura de massa no Rio de Janeiro. De acordo com o pesquisador Tiago de Melo Gomes, no artigo Gente do Samba, publicado na revista Topoi, diversas peças tendo a malandragem como tema central chegaram à Praça Tiradentes nos primeiros meses de 1928. Enquanto isso, jornais como A Noite ou A Crítica publicavam reportagens que desmistificavam a ideia dos morros cariocas como locais perigosos, embora com valores inteiramente diferentes da sociedade burguesa. Pela mesma época, a gravação fonográfica no país sofreu um impulso significativo e, com isso, houve a propagação do samba, que desde então passou a ser identificado como “a voz do morro”.  

Cena do filme Noites Cariocas (Fonte: cinemabrasileiro.net)

Tipos que marcaram os palcos musicados – malandros, caipiras, portugueses – ganhariam, mais tarde, espaço nas chanchadas, no humor radiofônico e no televisivo. Escrita por Freire Jr, a revista Seu Julinho Vem teve enorme sucesso em 1929. Nela, o protagonista Vagabundo é levado ao Centro dos Malandros e se surpreende ao perceber que a malandragem se faz representar em todas as classes sociais, principalmente nas mais altas. Duas canções da trilha teatral, chamadas Vadiagem e A Malandragem, se tornaram também sucessos do cantor Francisco Alves. Contemporâneo foi também o trabalho de Noel Rosa, com seu Malandro Medroso e seu mais famoso personagem, de Conversa de Botequim, em parceria com Vadico.

Referências à malandragem na literatura nacional estão presentes em inúmeros autores. Com destaque para Macunaíma, de Mário de Andrade, livro publicado em 1928, e Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, em 1936, em que sua noção de “homem cordial” demonstra a dificuldade em estabelecer fronteiras entre o público e o privado. Do mesmo ano é Noites Cariocas, filme dirigido pelo argentino Enrique Cadicamo, e que projetou Oscarito e Grande Otelo como os típicos malandros das chanchadas cariocas.

Definitivamente, os anos 1930 sopraram maior liberdade sobre o Rio de Janeiro. Reprimida pela polícia e incluída como crime no Código Penal de 1890, a capoeira finalmente foi oficializada como modalidade esportiva nacional em 1937. O samba saiu da marginalidade a partir do momento em que as escolas e os desfiles passaram a ser subvencionados pelo poder público, em 1935. Foi também nesse momento que se iniciou a carreira de Moreira da Silva, o Kid Morengueira. Ao longo de mais de 70 anos, o cantor que consagrou o estilo do samba de breque jamais se dissociou da imagem do malandro carioca.

Papagaio famoso

Já é relativamente conhecida a explicação para o nascimento do Zé Carioca, ou Joe Carioca para os norte-americanos. Ela começou em 1933, durante a Conferência Pan-Americana de Montevidéu. Naquela ocasião, o presidente Franklin Delano Roosevelt lançou as bases para uma aproximação cultural entre o seu país e os vizinhos da América Latina, que foi chamada de “política da boa vizinhança”, e que visava ao alinhamento político. No início dos anos 1940, quando já se desenrolava a Segunda Guerra Mundial, celebridades do mundo do cinema, inclusive o diretor Orson Welles, estiveram no Brasil como uma espécie de embaixadores da boa vontade. Entre os visitantes, estava Walt Disney, que durante várias semanas viajou por países latino-americanos. Duas temporadas na estrada levaram seus estúdios a criar personagens cinematográficos que ficaram internacionalmente famosos, como o argentino Gauchinho Voador, o galo mexicano Panchito e o papagaio Zé Carioca.  

Gimba inovou, com cerca de 50 personagens no palco, ficando meses em cartaz (Fonte: decadade50.blogspot.com)

As versões sobre a inspiração em torno do personagem brasileiro divergem. Uma delas conta que o cartunista J. Carlos, num encontro com Disney, teria desenhado um papagaio que abraçava o Pato Donald, e a ideia agradou. Outra, que o jeitinho malandro viria do violonista e cavaquinista José do Patrocínio Oliveira, integrante do Bando da Lua, que acompanhava Aurora e Carmen Miranda.  

É a versão mais provável, já que é dele a voz que dubla Zé Carioca no filme Alô, Amigos, de 1942, e de novo em Você Já Foi à Bahia?, de 1944. Quanto ao figurino – gravata borboleta, chapéu-palheta e guarda-chuva usado no lugar da bengala –, este teria sido copiado do Doutor Jacarandá, um conhecido boêmio das noites inebriantes no Rio de Janeiro.

Depois de aparecer nas revistas em quadrinhos do Pato Donald desde 1950, Zé Carioca ganhou sua própria HQ em 1961. Logo na primeira história, o craque garante a vitória do seu time, o Seresteiros da Tijuca, numa pelada de rua. Durante mais de uma década, as histórias vendidas no Brasil eram produzidas nos Estados Unidos. Só a partir de 1972 elas começaram a ser feitas por artistas brasileiros, que deram ao personagem uma fisionomia mais aproximada do malandro carioca. O papagaio já podia ser visto no cenário da Vila Xurupita, a favela onde vive, comendo feijoada, jabuticaba e jaca. E, também, sendo perseguido pela turma da Anacozeca – Associação Nacional de Cobradores do Zé Carioca, já que tem completa aversão ao trabalho formal e sobrevive de biscates. Com o tempo, uma leva de primos foi se tornando conhecida, quando surgiram os personagens Zé Paulista, o Zé Queijinho e o Zé Pampeiro nas historinhas originais, produzidas até o ano 2000. Coincidentemente, mesmo ano em que morreu o Kid Morengueira.

Críticas contundentes encenaram a mudança dos tempos

Ópera do Malandro, de Chico Buarque, em montagem de Luís Antônio Martinez Corrêa (Fonte: lyricalbrazil.com)

Gimba, Presidente dos Valentes (1959), de Gianfrancesco Guarnieri e Ópera do Malandro (1978), de Chico Buarque de Holanda, são importantes peças teatrais que atribuem sentido à figura do malandro e, por que não dizer?, ampliam e atualizam seu significado. Na primeira produção, o herói Gimba retorna de um período afastado do morro, onde tenta se esconder das autoridades. Oscilando entre a ordem e a desordem, manifesta o desejo de se regenerar e recomeçar a vida fora do Rio de Janeiro. Já a obra de Buarque, inspirada na Ópera dos Três Vinténs, escrita por Bertolt Brecht em 1928, sinaliza a passagem de uma era da malandragem ingênua no Brasil para sua versão moderna, da corrupção em larga escala, agora uma estratégia apropriada pela alta burguesia. Associada ao bairro boêmio da Lapa ainda na sua fase marginalizada, a letra de Homenagem ao Malandro resume bem a decadência da figura do malandro clássico, fadado a sobreviver apenas como folclore.

Fontes:

ARRUDA, Phrygia. O jeito carioca de ser, um patrimônio cultural intangível? Arqueologia dos sentidos de uma cidade. Textos escolhidos de cultura e arte populares. Rio de Janeiro, v.10, n. 2, p. 159-169, nov. 2013.

CABRAL, Nara. O malandro em cena: representações da malandragem e identidade nacional em peças de Gianfrancesco Guarnieri e Chico Buarque. São Paulo: Revista Anagrama, ano 5, edição 3, mar-maio 2012.

CAPPELLARI, Márcia Schmitt Veronezi. Zé Carioca, um brasileiro: reflexos da modernidade e da pós-modernidade na trajetória do personagem. V Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom.

CAVALCANTE, Rodrigo. A cara do brasileiro. Revista Superinteressante nr. 217 – set. 2005

GOMES, Tiago de Melo. Gente do samba: malandragem e identidade nacional no final da Primeira República. In: Topoi - Revista de História, UFRJ, n. 9, 2007.

LEITE, Sidney Ferreira. Um pouco de malandragem. História viva. UOL.

LIMA, Marcos. Malandros de antanho e malandros de gravata e capital. Londrina: Revista Boitatá - GT de Literatura Oral e Popular da ANPOLL, nr. 7 – jan-jun 2009.

MONTEIRO, Filipe e BENJAMIN, Mariana. Papagaio das antigas. Revista de História da Biblioteca Nacional, 2008.

SANTOS, Roberto Elíseo dos. Zé Carioca e a cultura brasileira. Intercom - XXV Congresso Anual em Ciência da Comunicação. Salvador, 1- 5 set.2002

SCHWARCZ, Lilia Katri Moritz. Complexo de Zé Carioca: notas sobre uma identidade mestiça e malandra. Encontro da Anpocs, 1994.

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