17 Maio 2016
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Sonia Eva Tucherman, médica e psicanalista (Foto: Alberto Jacob Filho)

O humor é um estado de espírito, muitas vezes utilizado a favor da vida e das relações. O humor funciona também para expressar aquilo que não conseguiria ser dito de outra forma. Pode aparecer em uma crítica mais delicada ou no modo de apontar um erro em alguém.

Freud, o pai da psicanálise, define o humor como “o mais elevado grau de sofisticação do ser humano, a manifestação mais sofisticada do espírito humano”. Ele foi autor de dois grandes trabalhos sobre senso de humor, característica que atribuía a si mesmo. Nos trabalhos, falou sobre piadas, trocadilhos, sobre o cômico.

Escreveu que existe uma instância dentro de cada pessoa, chamada de superego, que é como uma voz que volta e meia dá conselhos, muitas vezes de forma rígida. É semelhante a um juiz implacável que diz: “Você está fazendo besteira!”. Ou a um pai amoroso, que fala: “Veja só como o mundo é! Ele não merece que se faça mais nada além de uma piada sobre ele”. É o superego nos tratando como crianças, nos acolhendo e nos colocando no colo. É isso que é o humor.

O humor torna qualquer comentário mais leve. Rir de si mesmo é uma das qualidades mais raras, mas fundamental e que torna a vida mais passível de ser vivida dentro de todas as dificuldades que ocorrem todo o tempo. Quem consegue rir de si está se tratando com mais tolerância e paciência.

Alguns psicanalistas avaliam que, quando um paciente consegue rir dele mesmo, é porque alcançou a capacidade de ser bem-humorado diante das suas questões e dificuldades e está em condições de terminar a análise. É um passo tão importante que representa um sinal considerado como “alta analítica”.

Riso e relacionamentos

Na Inglaterra vitoriana, em meados do século XIX, as mulheres não riam. Elas escondiam a boca com o leque. A moça que ria em público era malfalada. Hoje, o sorriso feminino é usado como um instrumento de sedução.

O riso é altamente sedutor. Muitas pessoas se ligam a outras porque essa outra conseguiu lhe provocar o riso. O raciocínio lógico ocorre da seguinte forma: quem ri das minhas piadas me acolhe; portanto, me valoriza e gosta de mim. Rir comigo é diferente de rir de mim. Rir comigo é acompanhar um momento agradável de satisfação e de grande prazer, que é essa possibilidade de rir junto. O riso é um elemento de união entre pessoas.

Mau humor

Mas, se o bom humor une, o mau humor pode desunir. Como sabemos, é difícil conviver com alguém mal-humorado. Antigamente, se dizia até que o mal-humorado tinha problemas de fígado. A palavra humor significa “secreção” e remete aos “humores do corpo”. O mal-humorado é o que tem o espírito bilioso, que tem a bílis, que é amargo.

Quando alguém fica doente, por exemplo, mergulha em um clima de depressão e envolve os familiares nesse clima, mesmo que a doença não seja extremamente grave. Pode ser uma gripe, um resfriado ou até mesmo a perda de um dente. Qualquer alteração no corpo é sentida como uma perda, e a perda é a linha limítrofe com a morte. É um pedacinho da gente que está morrendo. Para quem está hospitalizado, essa linha fica ainda mais tênue. Durante a doença, surgem vários sentimentos destrutivos: o medo, a tristeza, a depressão, a angústia, o ressentimento e a raiva.

Já o riso é construtivo e aparece com o instinto de vida. Os sentimentos negativos puxam para baixo; o riso puxa para cima, eleva o espírito, que, assim, ajuda o corpo a subir junto. Nós somos uma pessoa inteira, não existe corpo e mente. É como café com leite: é corpo e mente, é uma coisa só. Se você mexe em um elemento, você está mexendo no todo.

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O sarcasmo

O humor está sempre vinculado a algum aspecto inconsciente de quem o produz. Quando usado agressivamente, é chamado de sarcasmo. A ironia é mais sutil, tem duas faces: pode ser agradável, estar no terreno do humor, ou pode também ser agressiva. Já o sarcasmo é sempre agressivo, destrutivo, é o deboche. Carrega um tom agressivo, e quem é atingido por ele sente que não foi uma brincadeira agradável, saudável e criativa, mas sim um ataque.

O inconsciente transgressor

O humor é criativo e transgressor; ele quebra normas e, em geral, é movido pelo inconsciente. Freud começou a estudá-lo a partir das cartas que escrevia para o amigo Wilhelm Fliess, ao reparar nos relatos que faziam sobre os sonhos. Como já havia pensado que os sonhos tinham elementos inconscientes, resolveu estudar as piadas e, fazendo uma relação entre sonhos e piadas, percebeu que ambos surgiam do inconsciente. E mais: que tinham um significado além daquele que aparecia no texto, além do imediato.

Então, passou a observar os atos falhos, esses pequenos erros que cometemos inconscientemente também. Por exemplo, a pessoa vai ao enterro de um desafeto, está na fila para abraçar a viúva e, em vez de falar “meus pêsames”, fala “meus parabéns!”. Isso é um ato falho, que vem do inconsciente, e não é à toa que acontece. Tem um tom transgressor, porque a pessoa está expondo algo que não era para ser exposto, que era para ficar escondido. O humor tem esse tom.

Infância e humor

Aos 5 anos, grande parte das crianças já entende o que é ironia, principalmente se existe intimidade entre ela e o adulto que está sendo irônico. É uma característica interessante, porque são os códigos que vão se formando entre as pessoas e que fazem com que elas percebam o que é ironia, o que é brincadeira, o que é deboche. Mas se a ironia parte de um estranho, a criança já não distingue o que é brincadeira ou não, e, portanto, o cuidado em relação o que se fala com ela deve ser maior.

Bullying

Uma pessoa humorada, que brinca com todos os colegas, é uma pessoa divertida e, em geral, se destaca no grupo pelo bom humor. Mas, quanto àquela que escolhe alguém do grupo para fazer de sua vítima e começa o ataque com palavras ou atos que, na verdade, não têm graça, a abordagem deixa de ser brincadeira para ser bullying.

Crítica social

Nem todo mundo traz consigo o que se chama de senso de humor, e esse é um dado importante para quem produz humor. Certos pontos são muito delicados de serem tocados, e, mesmo que a intenção de quem está fazendo humor seja benéfica, do outro lado não chega dessa maneira.

O que para alguns é apenas denúncia, crítica construtiva, para outros mexe com preconceitos que são difíceis de serem vencidos. Então, o humor é um terreno nem sempre muito seguro. Aliás, como em toda transgressão, não há garantia nenhuma de bons resultados.

Libertador e prazeroso

O humor tanto pode ser uma arma quanto um instrumento, e nem sempre se pode usá-lo sem pesar. Tem que parar e se perguntar: estou utilizando como arma ou como instrumento? E, no momento em que você para pensar, já é uma censura – não de fora, mas de dentro. Existem temas tabus, como as diferenças raciais, as questões religiosas, as que se relacionam a deficiências físicas e mentais e muitos outros. A política, por exemplo, é um terreno mais livre.

Então, o humor é libertador: no momento em que sai na piada, na comédia, sai sem aquela barreira de censura entre o inconsciente e o consciente. Quando se transpõe essa barreira, o prazer é muito grande: liberta da amarra, liberta da repressão.


Sonia Eva Tucherman, médica e psicanalista.

Artigo extraído do livro Conceito & Ação (Parte 2) a partir de entrevista concedida à série de TV.

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