24 Julho 2015
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passagem inferior berlim graffiti 270594 1280Existe uma linha tênue que separa o grafite da pichação, e a pichação do vandalismo. Reconhecer a diferença entre essas formas de comunicação urbana – tão intimamente relacionadas ao longo da história – pode ser a chave que faltava para envolver os alunos em uma série de atividades relacionadas ao tema: oficinas, debates, excursões, testes de conhecimento.

A origem da pichação remonta ao final dos anos 1960, período da contracultura e das revoluções estudantis que tomaram de assalto a cidade de Paris, na França. A maneira encontrada pelos jovens de protestar contra o governo se deu por meio da escrita nos muros dos prédios públicos.

Nos anos 1970, a pichação chegou à cidade da Pensilvânia, a mais populosa do estado norte-americano da Filadélfia, sendo adotada por gangues de rua para demarcar território, reforçar filiações e intimidar as gangues rivais.

Passados mais de 40 anos desde as primeiras manifestações do gênero, hoje podemos compreender que a pichação é fruto da necessidade dos jovens de deixar sua marca na epiderme da cidade. Desde sempre, o desafio foi um só: alcançar projeção.

Na regra da pichação, vence aquele que conseguir inscrever a sua tag (assinatura), o maior número de vezes, onde todos possam vê-la. Quanto maior o número de assinaturas, e mais alto elas estiverem, maior é o prestígio de seu autor.

Pichadores se tornam vândalos quando inscrevem suas tags – geralmente sem autorização – em propriedades públicas, privadas e, em casos extremos, em prédios/espaços tombados pelo Patrimônio Histórico e Cultural.

Um detalhe que não podemos perder de vista nessa história: mesmo condenável, a ação dos pichadores merece ser discutida. Ela nos permite debater noções de identidade, pertencimento, protesto e transgressão, e nos ajuda a compreender o que pensam da sociedade em que vivem.

A essa altura você deve estar se perguntando: e o grafite, onde entra nessa história? O que difere o grafiteiro do pichador? Em linhas gerais, o grafiteiro é um ex-pichador que soube dar à tinta spray um propósito profissional.

Cientes de que a pichação não os levaria muito longe, outra turma resolveu deixar de lado a pichação, arregaçar as mangas e se lançar em um novo desafio: aprimorar o conhecimento. Aprender novas técnicas de escrita, desenho, pintura e estética com o objetivo de ampliar os horizontes profissionais.

galerio 04

Grafite: a linguagem dos jovens

Das aberturas de novela às propagandas de TV; dos videoclipes aos videogames; dos vagões de trem aos aviões comerciais. Olhe ao redor e comprove: o grafite está por toda parte. E quando o assunto diz respeito aos jovens, ele exerce um papel fundamental na comunicação com esse segmento.

As indústrias da moda e da decoração, por exemplo, descobriram esse filão não é de hoje. Empresários de grandes marcas contratam mão de obra de grafiteiros e artistas de rua para potencializar a imagem de seus produtos e serviços diante deles: os adolescentes.

São roupas, acessórios, objetos de decoração e utilitários os mais variados. O grafite colore não apenas muros, fachadas e viadutos, mas também cadernos, mochilas, bonés, camisetas, pôsteres e o que mais pudermos imaginar. O grafite reflete um estilo de vida descolado, urbano, cosmopolita, global. Pensando assim, que jovem não gostaria de ter um grafite na parede de seu quarto?

A internet teve, e ainda tem, um papel fundamental no processo de popularização do grafite e de reconhecimento de seus representantes. A rede mundial de computadores ajuda a romper fronteiras, aproximar culturas e propagar tudo aquilo que se refere à arte urbana: grafite, música, dança, letras de improviso, atitudes.

Meninos e meninas sonham em se tornar grafiteiros, mas nunca pegaram numa tinta spray. Nas mãos, carregam – por enquanto – tablets e smartphones.

Para o artista multimídia Bruno Bogossian, conhecido na cena carioca do grafite há 15 anos como BR, não restam dúvidas: “O grafite é a linguagem visual mais importante da primeira década do século XXI, e a que melhor se comunica com a juventude”.

Mas, afinal, o que o grafite tem de tão especial assim? No Rio de Janeiro, ele é quase um reflexo da cidade que o acolhe. “O Rio é uma cidade alegre, cheia de curvas, festiva. E isso se reflete no tipo de arte que a gente faz nas ruas: colorida, alegre e com formas orgânicas”, diz BR.

Para o artista, a diversidade do grafite carioca espelha a criatividade do nosso povo, reconhecido pelo “jeitinho brasileiro”. “A variedade de estilos, técnicas e temáticas é, sem dúvida, um reflexo dessa nossa cultura. O grafite foi chegando de mansinho até conquistar o seu lugar na paisagem da cidade.”

Olhe ao seu redor e você possivelmente vai encontrar uma intervenção de arte urbana colorindo muros, fachadas, viadutos, empenas de prédio, postes e até mesmo o mobiliário urbano. Aos poucos, festejam os entusiastas, a cidade vem se transformando em uma galeria de arte a céu aberto.

“O Rio é o paraíso mundial do grafite. Em que outra cidade no mundo é possível mandar uma arte e depois dar um mergulho no mar ou fazer uma trilha pela floresta?”, indagam os grafiteiros.

Projeto GaleRioTunel

Instituto EixoRio

A publicitária Cristine Levinspuhl, coordenadora executiva do Instituto EixoRio, criado pela Prefeitura do Rio para aproximar o poder público da arte urbana, concorda. “O Rio é verdadeiramente ímpar no quesito beleza natural, mas, como toda grande metrópole, acaba tendo áreas não favorecidas. Nesse ponto, os grafiteiros desempenham um papel fundamental no processo de revitalização adotado pela Prefeitura do Rio.”

O Instituto EixoRio foi criado justamente para orquestrar ações conjuntas dos artistas de rua e do poder público no sentido de reurbanização da cidade. Nesse contexto inserem-se não somente os grafiteiros, como também os representantes de outras expressões culturais: música, dança, poesia.

Por meio do projeto GaleRio, o instituto dirigido por Cristine vem estimulando os artistas de rua a olharem de outro modo para a própria comunidade, resgatando histórias e lugares interessantes, personagens famosos ou ilustres desconhecidos. Tudo isso, acredita, para aumentar a autoestima dos moradores da cidade.

“Muitos grafiteiros são provenientes de comunidades carentes e também querem ver seus ambientes melhorados. Hoje em dia, tomar parte no processo de revitalização das comunidades é algo quase natural para quem faz grafite”, diz Cristine.

Ela cita como exemplos as comunidades do Vidigal, em São Conrado, do Cantagalo, em Copacabana, e Dona Marta, em Botafogo, localidades em que o grafite já se faz presente. “O despertar para a criatividade, o trabalho em equipe e o espírito de voluntariado são transformadores”, afirma Cristine. “Esse é um modelo que deve ser aprimorado cada vez mais.”

De vilões a agentes transformadores

“Os grafiteiros ocupam, hoje, um papel de destaque no processo de revitalização da paisagem urbana carioca, mas não é só isso. Além de agregar valor à cidade, os grafiteiros têm se revelado parceiros estratégicos no diálogo com os indivíduos da sociedade”, reconhece Cristine Levinspuhl.

Ela toma como exemplo as ações sociais do projeto GaleRio, considerado o carro-chefe do instituto sob sua coordenação. As ações orquestradas pelo GaleRio aproximam os artistas de rua do poder público, em prol de melhorias na qualidade de vida dos cariocas. A cultura urbana – música, dança e grafite, principalmente – é o que dá liga a essa empreitada.

Um exemplo recente de parceria bem-sucedida se deu no primeiro semestre de 2015, quando os grafiteiros conseguiram recrutar cerca de 200 voluntários, entre artistas de rua e membros da comunidade, para um trabalho em equipe sem precedentes na história da cidade. Juntos, eles assinam um projeto de intervenção urbana que coloriu seis quilômetros da Linha 2 do metrô.

Outro caso de sucesso resultou na criação de uma arte com seis metros de altura e 250 metros de comprimento, realizada a partir de fotografias dos alunos de uma escola municipal também da Zona Norte. “Apesar de tombada pelo Patrimônio Histórico, aquela escola andava meio apagada, em um entorno praticamente cinza”, lembra Cristine.

O painel criado pelo coletivo de grafiteiros traz como pano de fundo detalhes da própria arquitetura da escola. Em destaque, surgem rostos de 27 alunos matriculados na escola. “As crianças sentem, hoje, um orgulho enorme de fazer parte daquela comunidade”, conta a coordenadora executiva do EixoRio.

O GaleRio esteve presente, ainda, na revitalização do Túnel Alaor Prata, que liga os bairros de Copacabana e Botafogo, na Zona Sul da cidade. O local já vinha passando por obras de reforma quando artistas ligados ao EixoRio tiveram uma ideia que mudou o curso das obras.

“Articulamos com o governo, por meio da Secretaria de Obras, uma maneira de utilizar um montante da verba alocada na revitalização daquele túnel para um projeto de pintura artística. A intenção original era aplicar no local uma tinta antipichação, mas conseguimos convencê-los de que o melhor antídoto para a pichação é a arte.”

Projeto P.A.Z. (Parede Art Zone)

Paredes Art ZoneIdealizado pela produtora cultural franco-brasileira Elodie Salmeron, diretora da Valeu Produções, o projeto P.A.Z. (Paredes Art Zone) é outro exemplo de ação social que nasce da parceria com o grafite.

A iniciativa, que tem patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, por meio do Programa de Fomento à Cultura Carioca, envolveu 80 alunos do 5º ao 9º ano da Rede Municipal de Ensino em oficinas de grafite coordenadas não por professores, mas por artistas de rua.

No primeiro semestre deste ano, o projeto contemplou meninos e meninas a partir dos 11 anos, das escolas municipais Benjamin Constant (Santo Cristo), José Pedro Varela (Pavuna), Francisco de Paula Brito (Rocinha) e Pedro Ernesto (Lagoa).

As oficinas, ministradas pelos grafiteiros Marcelo Jou, Toz, Wark e BR, sob curadoria de Tomaz Viana, o Toz, visavam não somente estimular o fazer artístico, como também propagar valores fundamentais à cultura do grafite.

“O P.A.Z se baseia nos principais pilares do grafite, que são a valorização da diversidade, do trabalho em equipe e do respeito ao próximo. A partir disso conseguimos elaborar um conjunto de ações que visam valorizar não somente o papel transformador do grafite na cidade e em seus indivíduos, como também os direitos da infância e o estímulo ao pensamento criativo”, diz Elodie Salmeron.

Lolô, como é carinhosamente chamada pelos meninos e meninas que participam das oficinas, conta que, desde a primeira edição, em 2012, os estudantes abraçam a causa com entusiasmo e espírito colaborativo. “Incentivar a criatividade dos estudantes no ambiente escolar por meio dessa arte tão presente nas ruas é o nosso desafio. Tem dado certo”, festeja.

Renovando as relações interpessoais

Professora da Rede Municipal de Ensino há 11 anos e atual diretora da Escola Municipal Pedro Ernesto, na Lagoa, Elisabeth Mendes Pereira comprova a eficiência do projeto P.A.Z. na melhoria escolar dos alunos. “É a segunda vez que nossa escola é contemplada pelo projeto, e a expectativa não poderia ter sido maior.”

“Em 2012, quando a Lolô nos trouxe a proposta pela primeira vez, não tínhamos ideia do que isso representaria. Em termos práticos, descobrimos que os alunos, e principalmente aqueles com problemas disciplinares e de concentração, se reconectaram com a escola, envolveram-se muito mais nas atividades propostas em sala de aula”, afirma a diretora.

Elisabeth Mendes Pereira destaca, ainda, os resultados obtidos com os alunos em processo de aceleração e realfabetização. “O reconhecimento de suas habilidades criativas, quer por parte dos grafiteiros, dos professores ou dos demais alunos da escola, deu a eles uma nova perspectiva.”

Segundo a diretora, permitir ao aluno se expressar – e valorizar esse esforço entre os colegas de classe – é algo surpreendente. “Os alunos passaram a abraçar a escola, a retribuir nosso abraço.”

A experiência é considerada positiva também entre os grafiteiros que assumiram o desafio de “domar as feras” nesse processo de aprendizado. Para Bruno Bogossian, participar de um projeto como o P.A.Z. “foi uma experiência muito bacana e também curiosa”.
Ele conta que, como grafiteiro, deve às ruas, e não à escola, aquilo que sabe sobre a arte do grafite e a cultura urbana. “É muito bom poder repassar esse conhecimento de modo tão natural, nesse ambiente que se dedica a ensinar às crianças o que há de mais importante nesse estágio de suas vidas. Um projeto como esse desperta nelas o interesse pela arte.”

em Oswaldo Cruz

Estratégias de envolvimento

Eduardo Denne é outro artista de rua que encara o grafite – e também o estêncil – como ferramenta de interação pessoal. Ele é autor do projeto CDR – Cultura de Rua, cuja missão é valorizar a cultura brasileira por meio da representação de artistas nem sempre conhecidos do grande público. “Retrato personalidades que considero relevantes para a formação da nossa cultura. Esse resgate é fundamental para o nosso entendimento como nação”, explica.

Eduardo Denne diz que o principal desafio desse trabalho, lançado quando ele ainda era aluno da Faculdade de Desenho Industrial, consiste em fazer com que a juventude aceite e valorize a produção cultural brasileira. “Para isso, precisei investir na geração de conteúdo. Suprir a demanda gerada pelas oficinas, cursos e palestras que passei a ministrar.” Eduardo Denne se transformou, por meio do grafite, num empreendedor.

O artista conta que o simples fato de estar na rua, cortando o molde do rosto de um artista – para muitos, um desconhecido – já despertava nas pessoas a curiosidade sobre tais personagens. “A vontade de aprender é latente e eu diria que, com essa proposta, eu posso estar contribuindo para tornar o aprendizado algo ainda mais lúdico. Acredito muito nesse modelo de educação que estimula o pensar, em vez de entregar um conteúdo pronto”, diz o artista.

A capacitação pelo aprendizado permite aos participantes adquirir noções básicas de cor e composição, conhecimento que lhes permitirá até mesmo investir em fontes alternativas de renda. “Por meio das oficinas, os jovens aprendem a produzir estampas, customizar camisetas, criar artes e ilustrações para impressos e letreiros, e até mesmo grafites sob encomenda. Uso a arte para resgatar história e indivíduos. Essa é a minha onda.”

Gilberto de Abreu, jornalista e especialista em artes visuais.

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