08 de setembro de 2010
 

ExpoFaunaJBot_tucano2Em todo o mundo, cientistas concentram esforços para atenuar os efeitos da perda de biodiversidade no planeta. Uma das estratégias é realizar levantamentos minuciosos das espécies ameaçadas e das áreas críticas, os chamados hotspots, para agir com urgência e eficácia. Mas a ideia de conhecer para preservar não vale apenas nesses casos. Quanto mais completo for o conhecimento da fauna e da flora, mais eficientes serão as ações sobre a complexa teia da vida, já que a extinção de uma espécie potencializa o desaparecimento de muitas outras. O amplo extermínio de lagartos, que acaba de ser constatado pela ciência, exemplifica essa intrincada trama.  

Liolaemus_lutzae-2_Photo_By_Luis_Claudio_MarigoPesquisadores de 11 países verificaram que o aumento das temperaturas no globo está causando o desaparecimento de populações de lagartos no planeta. Se a tendência atual permanecer, nada menos que 20% das espécies de lagartos poderão ser extintas até 2080. Os estudiosos ressaltam as prováveis consequências dessa extinção: significativas repercussões na cadeia alimentar, pois os lagartos são presas vitais para muitos pássaros, serpentes e outros animais, e são importantes predadores de insetos. Segundo o estudo, liderado pelo pesquisador Barry Sinervo, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, é possível antever o colapso de algumas espécies no extremo superior da cadeia alimentar e uma liberação para as populações de insetos. 

O cientista Carlos Frederico Duarte da Rocha, do Instituto de Biologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), participou do trabalho e constatou o desaparecimento de algumas populações do lagartinho-branco-da-praia, espécie presente apenas em ambientes de restinga no estado do Rio de Janeiro. O pesquisador também fez estudos no Espírito Santo, em Santa Catarina, no Pará, na Bahia e no Rio Grande do Norte.

 – Essa pesquisa internacional é a primeira que comprova o desaparecimento de espécies em razão do aquecimento global. Já a recente extinção mundial de anfíbios está relacionada a diversos fatores, como a perda do hábitat, além do aumento das temperaturas – afirma Carlos Frederico. 

Mobilização da sociedade pode salvar outras espécies da extinção 

Dr_Carlos_Frederico_Rocha1O estudo avaliou as três últimas décadas e, surpreendentemente, a erradicação de lagartos  foi constatada  em ambientes como parques nacionais e outras áreas protegidas. A questão do hábitat, portanto, não contribuiu para o fenômeno. Mas de que forma se comprovou a associação entre aumento de temperatura e extinção?

Dispositivos que imitavam e registravam a temperatura corporal de um lagarto tomando sol foram instalados em locais estratégicos, como a Península de Yucatán, no México, onde havia uma significativa diminuição populacional de lagartos-azuis. Os resultados foram claros: o número de horas que eles aguentariam ficar fora de suas tocas, ao sol,  havia caído bruscamente. A partir da descoberta, o líder da pesquisa criou um modelo de risco de extinção baseado na temperatura fisiológica de cada espécie (fora dos abrigos), no tempo de restrição de atividades e na temperatura ambiente. Climatologistas contribuíram com o modelo, aplicado em todo o globo. 

– Diferentemente dos mamíferos e aves, que durante o metabolismo dos alimentos produzem o calor necessário para manter a temperatura estável, os lagartos precisam das fontes de calor no ambiente para essa finalidade. Com o aquecimento global, restam cada vez menos horas para eles obterem energia e realizarem suas atividades essenciais – explica o cientista brasileiro. 

O estudo foi publicado na revista Science e repercutiu na imprensa mundial, gerando mais um sinal de alerta para a comunidade internacional.

– Este é o momento de promovermos mudanças contundentes que realmente limitem a produção de CO2. Já passou da hora de toda a sociedade tomar atitudes para resolver o problema. Precisamos de um empenho global, mas alguns países ainda estão relutantes – lamenta Carlos Frederico.

Apesar da visão crítica, o pesquisador brasileiro não está pessimista. Ele cita como promissor um estudo recente que aponta a primeira diminuição nos índices de aquecimento global desde 1998,  com exceção da China. E incentiva os educadores a estimular as novas gerações.

– Não podemos camuflar o problema, mas convidar as crianças e os jovens à participação. É possível mostrar como reduzir as emissões por meio de ações cotidianas. Também vale reforçar que essa garotada tem poder de influenciar os familiares e a comunidade – afirma Carlos Frederico.

* Fotos: tucano (Exposição A Fauna no Jardim Botânico), lagarto e pesquisador Carlos Frederico Duarte da Rocha (Divulgação/Uerj).