Da série
Arquitetura das Escolas Municipais
22 Setembro 2014
0
0
0
s2sdefault
 

ANISIO-TEIXEIRA-COMGILBERTOFREIRE-JAMADO2Se fizermos uma pequena lista com os nomes dos educadores que mais impactaram o ensino público do Rio de Janeiro, durante o século XX, certamente Anísio Teixeira estará no topo. Durante sua gestão à frente da Diretoria de Instrução Pública do Distrito Federal (1931-1935), construiu 28 novas escolas, que transformaram a prática educacional implantada na República Velha e colocaram o sistema de ensino sob uma nova concepção pedagógica e de mundo.

O educador integrava o Movimento Escola Nova, que surgiu não só como um novo ideário criado no rastro da Semana de Arte Moderna de 1922, mas, sobretudo, como uma reflexão que buscava contemplar as demandas dos setores sociais emergentes que a República Velha não conseguia incorporar. Eram elas: a implantação do voto feminino, a construção de uma sociedade mais plural e menos coercitiva, a inclusão educacional de populações excluídas, o estímulo a uma postura de respeito à diversidade cultural etc.

O movimento de renovação escolar, do qual Anísio Teixeira era signatário, buscou se fundamentar nos progressos da psicologia infantil, que reivindicava mais liberdade para a criança e mais respeito às características individuais da personalidade. Outra importante fonte de inspiração foi o filósofo e educador norte-americano John Dewey, que defendia que o eixo principal da educação não poderia mais estar centrado nas imposições do professor, e sim na motivação e no talento dos alunos. Além disso, o movimento também foi influenciado pelo pensamento europeu surgido após a Primeira Guerra Mundial, que pregava a formação de um novo homem, capaz de conviver fraternalmente com as diferenças culturais e os diversos povos.

Salas-ambiente e sociabilidade

Quando Anísio Teixeira assumiu a Diretoria de Instrução Pública, em 1931, a construção de prédios escolares passou a ser uma prioridade eminentemente pedagógica. Agora, o arquiteto precisava entender muito mais da concepção educativa e das exigências psicológicas e biológicas das crianças do que das artes de embelezamento da edificação. Isso porque a organização escolar deveria oferecer oportunidades completas de vida ao aluno, possibilitando atividades de estudo, trabalho, vida social, recreação e jogos.

at2O monumentalismo que marcava as construções das Escolas do Imperador e da República Velha foi, definitivamente, abandonado para ceder espaço à simplicidade das formas geométricas básicas e a um tipo de educação que exigia não apenas salas de aula comuns, mas também de trabalho, de música, de ciências e de artes, além de outros ambientes que estimulassem a sociabilidade dos alunos. É que, na visão de Anísio, cada atividade e cada disciplina deveriam ser realizadas em um espaço específico e adequado.


Com esse ponto de vista, foram desenvolvidos, durante sua administração, três modelos básicos de prédios escolares: o do Tipo Mínimo, com duas salas de aula, um ateliê e uma oficina, a ser construído em áreas de população reduzida; o do Tipo Nuclear, com 12 salas de aulas e atividades sociais oferecidas em uma escola-parque complementar, em horário e prédio distintos; e o do Tipo Platoon (com 12, 16 ou 25 classes), que levou esse nome porque os alunos deveriam se deslocar em “pelotões” pelas diversas salas, específicas para cada disciplina e devidamente ambientadas para o melhor ensino da matéria.

Ao incorporar teatro, biblioteca, refeitório, jardins e áreas livres às escolas, Anísio Teixeira, na verdade, propiciou que as populações que haviam sido empurradas para as periferias e morros, em função das reformas urbanas, se reapropriassem dos espaços de sociabilidade que a República Velha lhes sonegava. Conforme explicou em um artigo para a Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, escrito em 1962, “a escola já não podia ser a escola dominante de instrução de antigamente, mas fazer as vezes da casa, da família, da classe social e, por fim, da escola propriamente dita, oferecendo à criança oportunidades completas de vida, compreendendo atividades de estudos, de trabalho, de vida social e de recreação e jogos”.

ANÍSIO-TEIXEIRA-emargentinaDas 28 escolas construídas em sua gestão à frente da Diretoria de Instrução Pública do Distrito Federal, quase todas receberam nomes de países ou estados brasileiros, indo ao encontro do conceito de convivência fraterna entre os povos, surgido após a Primeira Guerra Mundial. Nessa questão específica, ele deu continuidade à política dos gestores anteriores, Carneiro Leão e Fernando Azevedo, que também integravam o Movimento Escola Nova. Mas o programa de construções escolares ainda se alinhava à concepção de arquitetura eclética da República Velha, muito embora já tivesse abandonado a referência dos modelos europeus, que marcou as duas primeiras décadas do século XX, para abraçar características nacionalistas, baseadas nas tradições do passado luso-brasileiro.

Mídias Relacionadas
Arquitetura das Escolas Municipais
Mais da Série
Relacionados
Mais Recentes