31 Outubro 2019
0
0
0
s2sdefault
 
Cristiane Suzart Cop Guimarães atua na Sala de Leitura da Escola de Educação Infantil da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que, neste ano, foi integrada ao Colégio de Aplicação - CAp (Foto: Arquivo pessoal de Cristiane)

Qual é o lugar reservado à poesia na Educação Infantil? Para Cristiane Suzart Cop Guimarães, graduada e mestre em Letras, que atua na Sala de Leitura da Escola de Educação Infantil da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a criança já está imersa no universo poético por meio de cantigas de ninar, cantigas de roda e de parlendas. No entanto, quando os pequenos chegam à Educação Infantil, a poesia é deixada um pouco de lado.

“Eu percebi que os professores das turmas pouco usavam livros desse gênero em sala de aula e, quando o faziam, era para atividades específicas, e não pelo texto poético em si. A estante de livros de poesia da escola ficava, de certa forma, esquecida. Eu costumava ler algumas para as crianças, via que gostavam, mas ainda não tinha desenvolvido um projeto”, explica Cristiane, que até o início de 2019 participava do Laboratório de Estudos de Linguagem, Leitura, Escrita e Educação (Leduc), do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRJ, coordenado por Patrícia Corsino.

Então, Cristiane desenvolveu o projeto (Re)Descobrindo a Poesia com Bebês, cujo objetivo foi ampliar a relação de crianças pequenas – de 4 meses a 5 anos de idade – com o texto poético, a partir da leitura de poemas e de atividades lúdicas e estéticas. O trabalho virou tema de um artigo elaborado por ela e por Fernanda de Araújo Frambach, apresentado no II Congresso Estudos da Infância, realizado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), em setembro deste ano.

“Consideramos ser vital propiciar experiências de leitura em que a poesia ocupe um lugar central, tendo em vista que brincar com as palavras, com a repetição dos sons, com a rima, com a métrica, com a transposição, a memória e o prazer sonoro possibilita à criança poder entrar na língua sem esforço, uma vez que o ato poético é a coisa mais lúdica da linguagem”, defendem as autoras no artigo.

Como trabalhar poesias com bebês

As atividades do projeto foram desenvolvidas durante um trimestre nos encontros na Sala de Leitura, que aconteciam duas vezes por semana com cada grupo de crianças. Um texto poético era trabalhado a cada encontro. “As poesias não eram usadas como epígrafe, como entrada para um texto narrativo, e sim recitadas e ressignificadas por meio de atividades pós-textuais. O fato de o texto ser curto faz com que haja tempo para as crianças realizarem a proposta”, ressalta Cristiane.

Três referências bibliográficas foram usadas no projeto: box O Tesouro das Cantigas para Crianças, organizado por Ana Maria Machado e ilustrado por Cláudio Martins; A Arca de Noé, de Vinicius de Moraes; e Ou Isto ou Aquilo, de Cecília Meireles.

“A gente pode até propor uma roda para a leitura, mas, no final, uns bebês estão engatinhando, outros estão com um brinquedo... De toda forma, isso não inviabiliza o trabalho. Faço a leitura e eles podem se distrair em uma parte, se concentrar em outra. Mesmo estando com um brinquedo, eles ouvem. Às vezes, nós os subestimamos, mas, assim como os adultos, eles podem fazer duas coisas ao mesmo tempo”, diz Cristiane, que deixa os pequenos à vontade para rolar ou engatinhar durante as leituras.

As mesmas poesias e atividades pós-textuais foram realizadas com diferentes turmas, desde bebês com seis meses até crianças com cinco anos de idade. Confira alguns exemplos de obras trabalhadas durante o projeto – cuja proposta acabou sendo incorporada à prática de Cristiane.

Crianças puderam manipular diferentes materiais levados por Cristiane para ressignificar o sentido do texto, como uma boneca e um porta joias musical (Foto: Arquivo pessoal de Cristiane)

A Bailarina, de Cecília Meireles

Um porta joias musical com uma bailarina foi a atração do encontro, principalmente porque muitos nunca tinham visto um objeto como aquele. Cristiane também levou uma boneca que, ao dar corda, mexia a cabeça ao som de uma música. “Levei elementos que tinham a ver com o texto. Um dos grupos ficou enlouquecido quando viu a caixinha! Tive que organizar uma fila para eles pegarem, mexerem... Em um grupo de crianças de quatro anos, as meninas queriam prioridade por serem meninas, por conta da temática. E um menino disse ‘meninos também fazem balé, sabia?’. E todos concordaram entre si e não houve diferenciação. Muitas vezes surgem questões de onde nem esperamos.”

Colar de Carolina, de Cecília Meireles

Cristiane reuniu diferentes colares em um pequeno baú, para transmitir a ideia de “baú de tesouro” e deixou os bebês manusearem livremente. “Li a poesia e disse que havia um tesouro. Quando eles viram, pegaram os colares, trocavam entre si, colocavam vários no pescoço. E não importa se eram meninos ou meninas, não havia nenhuma questão de gênero. O colar já não era mais apenas de Carolina, mas do Benício, da Maria, do João...”, conta.

O Relógio, de Vinicius de Moraes

Relógios de diferentes tipos – de pulso, de parede etc. – foram levados para a Sala de Leitura, inclusive modelos antigos. A proposta era pedir silêncio para que as crianças ouvissem o “tic tac”. “Achei que eles não fossem ficar quietos, mas eles ficaram. Se alguém fizesse barulho, outro pedia silêncio”, comenta Cristiane. Após recitar o poema, ela colocou a música para tocar. “Enquanto a música tocava, eu propus uma encenação. Já que ela começa com o som de um despertador, pedi que eles agissem como se estivessem acordando e se arrumando para sair, pegando a mamadeira, a mochila, encenando esses momentos. Eles adoraram e, no encontro seguinte, me entregaram o livro, querendo repetir aquela sequência didática.”

O Pato, de Vinicius de Moraes

Cristiane imprimiu máscaras e pediu para os pequenos pintarem, deixando-os à vontade para usá-las depois. “Planejei fazer só isso, mas quando coloquei a música, depois de recitar a poesia, eles começaram a fazer um teatro do pato atrapalhado, uma proposta espontânea, vinda deles. O professor deve ter um olhar sensível. Nem sempre vai ser como ele faria. Às vezes, uma criança reage de uma maneira, outras começam a imitar e, quando se percebe, aquilo virou uma proposta.”

Ilustração do sapo chama a atenção dos bebês (Foto: Arquivo pessoal de Cristiane)

Sapo Cururu, do livro de Ana Maria Machado

Carinhas de sapo feitas com EVA e forradas com plástico autoadesivo foram levadas ao encontro por Cristiane, para que os pequenos explorassem o “bocão” do animal. “Planejei, mas eles ditam como será a experiência estética. A ilustração do Cláudio Martins chamou muito a atenção deles. É um sapo gigante, ilustrado nas duas páginas – e o livro já é grande. Os bebês de aproximadamente seis meses ficavam batendo no livro e, quando eu fechava, ficavam nervosos procurando a ilustração, tentavam falar ‘sapo’.”

Dedo mindinho, do livro de Ana Maria Machado

Sem deixar de lado jogos simbólicos, Cristiane explorou o texto que, segundo ela, muitas vezes é menosprezado por ser considerado doméstico. “Esses jogos são cultura e poesia. Os bebês amaram! Conforme eu lia, eles estendiam as mãos, em uma brincadeira que, possivelmente, já faziam em casa. É curioso que, meses depois dessa atividade, alguns pequenos, quando me viram, estenderam as mãozinhas em minha direção, mexendo os dedinhos. Eles recordaram!”

A poesia também fez sucesso entre as crianças na faixa de dois anos.“Um menino estava passando pelo período de inserção, que vinha sendo difícil, ele chorava muito. Mas nesses momentos de jogos e parlendas, ele ficava feliz, porque sentia o aconchego da família. Ou seja, a Literatura foi, também, um canal de inserção, ajudou nesse processo.

A leitura em cada fase da vida da criança

De 0 a 5 meses

Os bebês começam a prestar atenção nos gestos e a imitar os sons. Aos quatro meses, já podem olhar as imagens de um livro, como a pessoa que lê para ele. Afinal, a palavra “cavalo” não dá a forma do cavalo. Então é necessário mostrar-lhe a imagem do cavalo para que ele possa interiorizá-la. Então, é possível:
• Apontar as figuras que estão no livro e dizer em voz alta o nome daquilo para o qual o bebê estiver olhando;
• Virar as páginas de acordo com o interesse do bebê;
• Representar com gestos ou com a voz a figura que estiver mostrando para o bebê;
• Imitar os sons que o bebê faz e observar sua reação.
De 6 meses a 1 ano
Nessa fase, a leitura já é bem interativa e deve-se conversar com a criança sobre as figuras, as formas, as palavras e os sentimentos, relacionando-os com a vida cotidiana. Os bebês, quando conseguem se sentar, já conseguem segurar os livros e também colocá-los na boca. É possível:
• Nomear as figuras que o bebê aponta no livro ou aquelas em que ele fica interessado;
• Ajudar o bebê a virar as páginas do livro;
• Transmitir o clima da história por meio da entonação da voz, de gestos e de expressões faciais;
• Conversar com o bebê e fazer perguntas sobre as coisas que ele está ouvindo ou fazendo. Por exemplo: “Olha o cachorrinho. O cachorrinho faz au-au”;
• Seguir as indicações do bebê para ler mais, repetir ou parar.

De 1 ano a 2 anos

Nessa fase, a criança consegue escolher um livro e entregá-lo para alguém ler. Também aponta as figuras e copia as expressões e os gestos do adulto que está lendo para ela. Assim, é possível:
• Usar diferentes vozes para representar os diversos personagens das histórias;
• Fazer perguntas para que a criança responda apontando. Por exemplo: “Onde está o gato?”, “Quem faz miau? ”;
• Incentivar que ela faça o som de determinado animal. Por exemplo: “Como a vaca faz? Mu!”;
• Sorrir e responder quando a criança falar ou apontar;
• Deixar a criança virar as páginas do livro;
• Ler a mesma história várias vezes, se a criança quiser;
• Acrescentar mais palavras quando a criança apontar uma imagem. Por exemplo: “Menina. Essa menina é bonita”;
• Fazer outras perguntas sobre as figuras que ela apontar. Por exemplo: “Cadê o cabelo da menina?”, “E o seu cabelo?”;
• Nomear e demonstrar ações e emoções nas histórias. Por exemplo: “A menina está rindo”. E, então, rir para o bebê.

De 2 a 4 anos

Essa é a fase em que as crianças mais gostam de exercer a previsibilidade e, por isso, gostam que sejam lidas as mesmas histórias várias vezes. Também repetem palavras e frases e participam mais da leitura. É possível:
• Fazer perguntas sobre as imagens do livro para que a criança responda. Por exemplo: “O que é isto?”;
• Ler livros que apresentem ações que as crianças já entendem como inusitadas. Por exemplo, “Os três lobinhos e o porco mau” ou “O cachorro que faz miau”;
• Valorizar todas as perguntas e comentários que a criança faz, pois são boas oportunidades para começar uma conversa;
• Dar espaço para que a criança faça comentários sobre alguma figura ou palavra;
• Incentivar a criança a contar sua história favorita, de sua própria maneira;
• Levar a criança a bibliotecas ou livrarias para escolher livros ou ouvir histórias;
• Mostrar para a criança como as coisas que acontecem com os personagens são parecidas com algo que ela mesma já fez ou viu;
• Falar sobre os sentimentos dos personagens e perguntar se ela já sentiu a mesma coisa;
• Deixar que a criança conte o que acontece em seguida ao ler histórias já conhecidas.

De 4 a 6 anos

Nessa fase, as crianças escolhem os livros que querem que sejam lidos e fazem perguntas sobre as coisas que acontecem neles. Também corrigem os leitores quando eles pulam uma parte de um livro já familiar e conseguem contar uma história conhecida com as próprias palavras. É possível:
• Conversar de forma espontânea sobre os assuntos do livro;
• Responder com interesse às perguntas e aos comentários da criança;
• Mostrar para a criança que você está lendo as palavras do livro;
• Ler a história do jeito que o autor escreveu, sem alterar as palavras estranhas e diferentes que ampliam o vocabulário da criança.

 

Fonte: Adaptado da publicação Receite um livro: fortalecendo o desenvolvimento e o vínculo: a importância de recomendar a leitura para crianças de 0 a 6 anos. São Paulo: Sociedade Brasileira de Pediatria, 2015. 

Mídias Relacionadas
Relacionados
Mais Recentes