02 Outubro 2019
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FilosofarA Filosofia, que já foi disciplina obrigatória no Ensino Médio, é uma área de conhecimento ainda abstrata para muitas pessoas, sobretudo quando pensada sob uma abordagem para o Ensino Fundamental ou até mesmo para a Educação Infantil. “A Filosofia é vista como um bicho de sete cabeças, algo complexo, erudito, misterioso. Mas, apesar de certo glamour aos olhos da sociedade, quando trabalhamos com crianças, não abordamos a História da Filosofia ou os conceitos dos filósofos, e sim o que significa a atividade de filosofar, o desenvolvimento do pensamento”, explica Liliane Barreira Sanchez, bacharel e licenciada em Filosofia, mestre e doutora em Educação e professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), onde leciona a disciplina Filosofia da Educação no curso de Pedagogia e a optativa Tópicos Especiais em Filosofia com Crianças, criada por ela e voltada a estudantes das licenciaturas em Pedagogia e Filosofia.

Segundo Liliane, é possível levar às crianças algumas ideias de filósofos, adaptadas. No entanto, o importante é que a Filosofia seja entendida como uma atividade de reflexão, uma crítica questionadora. “A Filosofia é aquela que vai produzir perguntas e não está muito preocupada com as respostas. As respostas se transformam. O importante é saber fazer as perguntas”, acrescenta.

O protagonismo, de acordo com a professora da UFRRJ, é muito importante para a construção do conhecimento e da própria identidade dos alunos, a fim de que se tornem sujeitos capazes de serem autônomos, reflexivos e deliberantes. “Ao mesmo tempo, também é trabalhada a autonomia do professor, para que ele se sinta construtor do processo de ensino e aprendizagem que desenvolve com seus estudantes. Para ser protagonista, ele precisa filosofar.”

Nesse sentido, a pesquisadora acredita que, ainda que um professor da Educação Básica não seja formado em Filosofia, ele pode se apropriar dessa área de conhecimento em sua prática pedagógica.

“O professor pode levar um pouco da proposta reflexiva para o cotidiano dele em sala de aula. Isso inclui perceber outra possibilidade de lidar com conteúdos curriculares. Por exemplo, em um trabalho sobre ecologia, aprofundar reflexões sobre o respeito aos seres vivos; ou, em uma aula sobre a Pré-história, contrapor o homem pré-histórico a um mundo tecnológico de robôs”, aponta Liliane, citando um exemplo desenvolvido no âmbito do projeto de extensão Os Filósofos-mirins, coordenado por ela na UFRRJ.

“Também é possível aproveitar algo que tenha acontecido de forma dinâmica na turma, durante a aula, para sentar e conversar com os alunos sobre o que eles perceberam ter acontecido e qual foi o sentido daquilo. Os temas filosóficos acabam surgindo”, completa.

Breve histórico da Filosofia para crianças

Na década de 1960, o educador e filósofo norte-americano Mathew Lipman sistematizou um programa de ensino de Filosofia para crianças (Filosofia para Crianças – Educação para o Pensar) no Institute for the Advancement of Philosophy for Children (IAPC), fundado e dirigido por ele em Nova Jersey, Estados Unidos.

Matthew Lipman
Matthew Lipman (Foto: Wikimedia Commons/ GrupIREF)

“Na concepção de Lipman, as pessoas não desenvolviam bem as ideias e não tinham controle de seus comportamentos. Precisavam se formar de maneira mais razoável na sociedade para se tornarem bons cidadãos”, explica a professora de Filosofia da Educação.

Nesse programa, o pesquisador elaborou materiais que chamou de novelas filosóficas: histórias infantis, compostas por personagens infantis, que trabalhavam temas considerados importantes por ele, reconhecidos como temas filosóficos. Considerando que o trabalho com crianças é feito por pedagogos, ele criou manuais específicos para cada novela, orientando o trabalho do professor a cada capítulo, explicando objetivos e finalidades e sugerindo roteiros de atividades.

Na perspectiva de Lipman, a sala de aula deve transformar-se em uma Comunidade de Investigação, com a participação ativa de crianças, em um diálogo coordenado pelo professor para instigar os alunos à investigação filosófica.

A proposta se espalhou pelo mundo na década de 1980, quando chegou, também, ao Brasil. O Programa Filosofia para Crianças foi trazido pela professora Catherine Young Silva, que fundou o Centro Brasileiro de Filosofia para Crianças (CBFC) em 1985, com sede na cidade de São Paulo, mas que, aos poucos, expandiu-se para outros estados brasileiros.

Mathew Lipman faleceu em dezembro de 2010, mas até hoje seu programa é comercializado e utilizado por professores em diferentes lugares do mundo.

Filosofia COM ou PARA crianças?

De acordo com Liliane Sanchez, a diferença diz respeito a quem segue fielmente o programa criado por Lipman ou quem trabalha de maneira mais alternativa.
“‘Filosofia para crianças’ é um termo cunhado por Lipman. É como se fosse patenteado por ele, uma franquia. Acontece que aspectos da metodologia de Lipman, como o fato de ficar preso a novelas e ao uso de manuais, foram e são criticados por algumas pessoas, que criaram seus próprios materiais, usando diferentes recursos, sem se prender a um texto ou obra específica. Essas pessoas trabalham a filosofia com crianças”, explica a docente.

“Se eu filosofar em torno disso, há um significado ainda mais complexo. Quando você diz que algo é ‘para’, é direcionado, feito para alguém. Já quando dizemos ‘com’, existe a dimensão do fazer junto, de não levar algo pronto a alguém, e sim construir a proposta no próprio fazer. Essa é a diferença conceitual de quem atua nesse campo”, acrescenta.

Filosofia no Ensino Fundamental

O projeto de extensão universitária “Os filósofos-mirins: oficinas de filosofia na educação fundamental” foi criado em 2015 e é coordenado por Liliane na UFRRJ. A proposta é desenvolvida com turmas de 3º e 4º ano de uma escola pública do município de Seropédica (dentro do campus da universidade), no Rio de Janeiro. As atividades, comandadas por licenciandos em Pedagogia e Filosofia, são desenvolvidas no contraturno, no formato de oficina, em encontros semanais de uma hora de duração.

Crítica a muitos aspectos do programa do Lipman, Liliane desenvolve um método alternativo para as oficinas, fundamentado em estudos, vivências e pesquisas que realizou. “Não podemos pretender que nenhum material seja universal. O mundo é plural, o tempo muda, os espaços mudam... Não estamos nas décadas de 1960 ou 1980, nem na realidade norte-americana. Tento adaptar nosso trabalho à realidade da escola”, esclarece.

Alunos do Ciep Rubens Gomes (6ª CRE), em Barros Filho, durante oficina de filosofia do projeto Pensadores Cariocas (Foto: Alberto Jacob Filho)

Durante dois anos seguidos, a equipe do projeto acompanhou duas turmas, do 3º ao 4º ano. “No início, sentamos com a coordenadora pedagógica e com as professoras, explicando a proposta e perguntando a demanda delas em relação ao projeto. Também pedimos que elas fizessem um diagnóstico da turma e, assim, mapeamos as temáticas que surgem no cotidiano escolar e podem se relacionar com abordagens filosóficas”, explica Liliane, que construiu materiais como o passaporte filosófico – que permite aos alunos viajar pelo mundo da Filosofia – e a carteirinha do “Clube da Filosofia”, para que eles se sentissem “sócios”, parte integrante.

O trabalho com os estudantes é feito por meio de teatro de fantoches, dinâmicas corporais, jogos e desafios que partem de situações-problema, utilizando a metodologia das Comunidades de Investigação – conceito de Lipman – , na qual as crianças e o professor trabalham, investigam e refletem juntos sobre os conceitos e ideias. Entre os temas abordados estão questões como regras, leis e respeito; direitos e deveres; identidade; reflexões sobre certo e errado, bom e mau, justo e injusto; e outras questões próprias de filosofia e que são demandas da escola por conta da indisciplina, agressões físicas e verbais, atitudes de bullying e preconceitos.

Liliane Sanchez conta que, certa vez, um aluno usou termos pejorativos e desrespeitosos para se referir a um dos oficineiros, que é homossexual. A partir disso, sem entrar em confronto direto, dar bronca ou encaminhar a criança para a coordenação – atitudes que fogem do objetivo da oficina –, o profissional agiu de forma a desconstruir a fala do aluno, para que o mesmo pensasse sobre o que estava dizendo.

“O oficineiro perguntou o que significava ser ‘mulherzinha’ – problematizando o uso da palavra no diminutivo; o que era ser mulher e o que era ser homem; se havia uma roupa certa ou não para  cada um usar e por quê... Na continuidade, o aluno disse que era errado ser mulherzinha porque o pai dele havia dito isso. Então, mais questões foram levantadas: tudo o que nos dizem é verdade? O que é verdade?”, relata a docente.

“Com questões do cotidiano, buscamos que as crianças entrem em um processo reflexivo, respeitando, claro, os limites da faixa etária, a linguagem e o entendimento de cada um. O trabalho da Filosofia é sem fim e é apaixonante. Nosso objetivo é tentar estimular, ao máximo possível, que eles desenvolvam um pensamento crítico, criativo e cuidadoso, que é a base do programa do Lipman.” 

Pensadores Cariocas: oficinas de Filosofia em escolas municipais do Rio

O projeto Pensadores Cariocas realiza oficinas criativas de Filosofia em escolas municipais do Rio de Janeiro, preferencialmente as localizadas em áreas de conflito. Debates, vídeos e dinâmicas de grupo são algumas das ferramentas usadas para abordar temas como o racismo, o machismo e a pobreza, com turmas do 9º ano, em geral.

Idealizado e comandado por Pedro Miranda, formado em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, o projeto visa estimular o pensamento crítico dos estudantes, a partir de questionamentos que possibilitem transformações no âmbito mental, educacional e social.

Pedro Miranda conduz dinâmica no Ciep Rubens Gomes (Foto: Alberto Jacob Filho)

“Nossa abordagem não é conteudista, apesar de também mencionarmos, eventualmente, conceitos de filósofos. A ideia é convocar os alunos a pensar, a fazer relações, a refletir olhando para questões da vida, do cotidiano deles”, explica Pedro, que realiza aproximadamente três encontros com cada grupo.

Em atividade realizada com uma turma do Projeto Acelera, no Ciep Rubens Gomes (6ª CRE), em Costa Barros, Pedro levou a questão “qual conhecimento a favela tem?”, que acabou suscitando muitos outros temas. Os alunos participaram ativamente das dinâmicas, questionando definições (“o que é periferia, tio?”), destacando o que haviam aprendido no local onde moravam (por exemplo, “guerrinha de saquinho de sacolé”) e até mesmo discutindo, de forma espontânea, a violência doméstica e a Lei Maria da Penha (“o que a gente faz para apanhar? A gente não pede para apanhar dos homens! Se meu marido me bater, Lei Maria da Penha!”, disse uma aluna).

O Pensadores Cariocas teve início no bairro da Pavuna, com o nome Pensadores da Pavuna. Hoje, atua em escolas localizadas na Zona Norte, na área de abrangência da 6ª Coordenadoria Regional de Educação, mas pretende atingir unidades de todo o município.  Para que a ação seja expandida, doações são recebidas por meio de uma plataforma de financiamento coletivo para custear as despesas com transporte, lanches, equipamentos, entre outros.

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