13 Abril 2018
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Vontade absurda de deslizar suavemente, substituindo as ondas debaixo dos pés pelo asfalto. Essa é uma das explicações para o surgimento do skate, então chamado de sidewalk surfing, ou surfe de calçada, que associa o uso da pequena prancha com rodas a surfistas californianos em dias de mar calmo, nos idos dos anos 1950. Para chegar a esporte olímpico, ao lado dos também novatos de Tóquio em 2020 – o irmão mais velho surfe, escalada, caratê e beisebol – foram necessárias infinitas remadas e incontáveis voltas ao mundo, até conquistar espaço em revistas segmentadas, competições milionárias e transmissões ao vivo pela televisão e internet.

Esporte espetáculo marca cultura da modernidade 

Sempre existem aqueles que optam por um suave passeio pelo parque da vizinhança, enquanto outros preferem descer uma ladeira a mais de 100 km por hora, na modalidade downhill. (Fonte: blogkanui.com.br)

O primeiro modelo de skate comercializado nos Estados Unidos, a partir de 1959, se chamava Roller Derby. Como tinha rodas de ferro e causava muitos acidentes, fez com que o hobby fosse considerado perigoso. Com isso, a prática do skate passou por períodos cíclicos de ascensão e queda, em termos de clandestinidade, até que a invenção da roda de poliuretano garantiu a segurança que faltava para a popularização do esporte.

A partir dos anos 1980, corrimãos, paredes e escadas foram sendo naturalmente incorporados aos circuitos de skatistas urbanos. Paralelamente, não apenas começaram a surgir locais específicos para praticar, como também os tipos de manobras acabaram gerando modalidades distintas: freestyle, downhill, bowl, mega rampa, vertical, street e park, entre outras. Por enquanto, apenas as duas últimas serão disputadas em Tóquio.

A essa altura, o skate já fazia parte tanto de cenários da contracultura, como a New Wave, o Hip Hop e o Punk, como também do establishment, sendo incorporado à caracterização de personagens de Hollywood e também de videogames. O golpe final contra a resistência, no entanto, aconteceu quando, em 1995, a emissora ESPN criou os X-Games, uma espécie de olimpíada de esportes radicais, dando impulso à profissionalização do skate por meio da cobertura dos circuitos mundiais, com farta circulação de verba publicitária. Além disso, o público finalmente se dava conta do prazer de assistir aos movimentos corporais de verdadeiros voos sobre rodas, que em primeiro lugar fascinam os próprios skatistas.

Em 2004, durante um campeonato realizado na Alemanha, foi fundada a International Skateboarding Federation (ISF), da qual a Confederação Brasileira de Skate (CBSk), então com cinco anos de existência, foi co-fundadora. Desde aquele ano, 21 de junho tem sido a data especial para comemorar o Dia Mundial do Skate.

Skate nacional em rota ascendente

As primeiras referências do esporte no Brasil citam a prática do chamado surfinho nas ladeiras do bairro carioca da Gávea, como a Rua do Cedro, ainda na década de 1960. Mas coube ao município vizinho de Nova Iguaçu a honra de construir, em 1976, a primeira pista de skate do Brasil e da América Latina. Enquanto isso, o Parque Ibirapuera se tornava o reduto dos praticantes paulistanos. Até que, em 1988, o prefeito Jânio Quadros proibiu que se andasse de skate na área. Diante de uma passeata organizada pelos praticantes, a proibição se estendeu para todo o perímetro urbano da capital. Mais de 20 anos depois, em diversas ocasiões, a CBSk precisou interferir para impedir que o skate fosse proibido em regiões concorridas, no entorno do Museu do Ipiranga, na Avenida Paulista e na Praça Roosevelt. 

Nos anos 1980, as pistas ganharam rampas verticais, com o formato de half-pipe (meio tubo, ou letra U), banks (semelhante a um feijão) ou bowl (como uma bacia). Aqui, uma megarrampa no Sambódromo do Rio (Fonte: qixmissy.com.br)

Apesar da repressão, o skate nacional começava a dar sinais de sua vocação vitoriosa. Em 1986, a delegação brasileira ficou em quinto lugar por equipes no Campeonato Mundial do Canadá. Três anos depois, Lincoln Ueda conseguiu a quarta colocação na categoria profissional do mesmo torneio, realizado na Alemanha. Mas o nome mais conhecido é o de Bob Burnquist.

Nascido no Rio de Janeiro, filho de mãe brasileira e pai norte-americano, ele começou a andar de skate aos 11 anos e, aos 14, quando ainda morava no Brasil, se tornou profissional. Primeiro brasileiro a levar um título mundial, em 1995, repetiu o feito outras nove vezes e é o maior medalhista dos X-Games de todos os tempos, com 30 medalhas, sendo a metade de ouro. Continua, ainda, como único skatista do mundo a completar dois giros e meio na manobra conhecida como 900o numa mega rampa. No quintal de sua casa, na Califórnia, o atleta mandou construir o maior complexo de rampas do mundo, que batizou de Dreamland (Terra dos Sonhos).

Eleito por aclamação presidente da CBSk em setembro de 2017, Burnquist representa o país nas reuniões da World Skating, que ainda define as diretrizes das competições nos Jogos Olímpicos de Tóquio em 2020. Ao lado dele, como diretor de esportes, está Sandro Dias, o Mineirinho, que entre outros feitos já ganhou sete medalhas nos X-Games.

Cultura skatista no Rio de Janeiro 

Regular foot é quem anda com o pé esquerdo na parte da frente do skate, enquanto quem usa o pé direito é chamado de goofy foot (pé pateta) (Foto: Alessandro Fidalgo/zupi.com.br)

Mais de 30 pistas estão espalhadas em diversos bairros da cidade – na Praça do Ó, na Barra da Tijuca; na Lagoa; no Maracanã; no Engenho de Dentro, junto ao Engenhão; na Vila da Penha; e no Parque do Flamengo. Entre elas, se destaca a Tatu Skate Park, localizada no Parque de Madureira. Inaugurada em 2012, tem 3.850 m2. É a segunda em extensão, já foi eleita a melhor pista pública do país pelo ranking da CBSk e recebe, inclusive, campeonatos mundiais. Seu nome é uma homenagem ao skatista Jorge Luiz de Souza, o Tatu.

Outro point importante para os aficionados é a Praça Quinze, onde o Coletivo XV promove anualmente o evento I Love XV, que reúne cultura e ativismo, com muita música, exibição de filmes e competições. Depois que a prática foi proibida em locais públicos pela prefeitura carioca em 1999, o grupo decidiu organizar protestos pacíficos, sempre no Dia do Skate. Até que, finalmente, em 2011, a lei foi revogada, devolvendo o local histórico à comunidade dos skatistas.

Proteção para todos 

O sitcom mais famoso de todos os tempos, exibido pelo canal norte-americano Fox desde 1989, abre seus episódios com um rolê do enfant terrible Bart Simpson, atravessando de skate a cidade de Springfield na volta da escola (Fonte: routledtextbooks.com)

Andar de skate não precisa ser sinônimo de exposição ao risco. O uso do equipamento de segurança, que inclui capacete, joelheiras, cotoveleiras e luvas, pode prevenir ferimentos causados por acidentes. Mas pode ser que ele não seja acessível para todo mundo. De acordo com o estudo mais recente do Instituto Datafolha, realizado em 2015, a pedido da CBSk, 48% dos adeptos do skate no Brasil pertencem à classe C. O resultado da pesquisa, realizada em 146 municípios, apontou que 11% dos domicílios brasileiros possuem pelo menos um morador que pratica ou anda de skate – algo em torno de 8,5 milhões de pessoas. Os dados também indicam um crescimento do número de praticantes entre o público feminino, que já são 20% do total de skatistas. 

Apontado como o sétimo esporte na preferência nacional, o skate brasileiro continua em ótima fase, com nomes como Luan Oliveira, Kelvin Hoefler, Pedro Barros, Felipe Caltabiano (Foguinho), Rony Gomes, Douglas Silva (Dalua), Sergio Yuppie, Letícia Bufoni e Pâmela Rosa. Resta saber se, entre eles, se oculta algum futuro medalhista olímpico.


Fontes:

BRANDÃO, Leonardo. A década de 1980 e o desenvolvimento do skate vertical. In: Recorde. Rio de Janeiro: v. 10, n.2, p. 1-28, jul/dez 2017.
Site do Comitê Olímpico Brasileiro
Site de Bob Burnquist
Site da Confederação Brasileira de Skate
Site Tribo Skate Ativo
Site Globo Esporte

 
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