22 Dezembro 2017
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Dança, jogral e roda de samba, com direito a porta-bandeira mirim do Salgueiro e mestre-sala mirim da Mocidade Independente, fizeram parte da programação (Foto: Alberto Jacob Filho)

De tanto se deparar com o estranhamento das crianças sobre a origem de alimentos comuns, como o ovo e a galinha, uma professora da E.M. Minas Gerais (2ª CRE), na Urca, pensou que era hora de levar a sua turma para conhecer a vida no campo. A diretora da escola, nascida no pequeno município de Simão Pereira, próximo a Juiz de Fora, acionou seus contatos locais e, assim, começou em 1998 o projeto Minas Vai a Minas. Apesar de alguns períodos de interrupção, este ano ele foi retomado. Passava um pouco das 9h30 de 12 de dezembro quando os portões se abriram e os visitantes foram recebidos como celebridades em um pátio lotado, depois de vencidas mais de cinco horas na estrada e um congestionamento de praxe na Avenida Brasil. 

Só em 2017 foram seis os ônibus que levaram 250 alunos, saindo da Urca em direção ao sul do estado mineiro. Em contrapartida, para fechar o ano letivo em grande estilo, um grupo de 30 visitantes – metade deles alunos na faixa dos 14 e 15 anos de duas turmas do 9º ano – embarcou na E.M. Conceição Aparecido Rosso, única de Simão Pereira dedicada ao Ensino Fundamental, rumo à Cidade Maravilhosa. A discrepância do número de excursionistas tem uma explicação simples: enquanto a população estimada da capital carioca supera os 6,5 milhões de habitantes, Simão Pereira está mais para um paraíso idílico, contando apenas 2.500 moradores. Como lá não tem shopping, a garotada pediu para dar uma passadinha no horário da tarde, a tempo de pegar a estrada de volta para casa antes de anoitecer.

Inclusão no projeto político-pedagógico 

No projeto da Nasa, alunos fazem acompanhamento da temperatura máxima e mínima, da precipitação da chuva e da identificação de mosquitos coletados no entorno ou capturados em armadilhas colocadas na escola (Foto: Alberto Jacob Filho)

“Na época do surgimento do projeto, a merendeira e as serventes já vinham se queixando do desperdício de água e comida por parte dos alunos. Que, indiretamente, era também de energia e de tempo dedicado ao trabalho. Na campanha de saúde bucal daquele ano, pegaram o fio dental distribuído para fazer pipa. Entendemos, então, que era hora de darem valor ao que têm. Telefonei para o meu pai e ele se comunicou com o prefeito, que organizou a primeira visita. Quando nossos alunos chegaram àquela cidadezinha de Minas, ficaram perplexos com o que viram, e voltaram de lá com uma nova perspectiva. Depois que meu pai faleceu, as viagens escassearam, mas agora estamos retomando”, comemora a diretora Regina Sthela Pedroso Paschoa. E explica: “Professores de várias disciplinas se envolvem. Em História, falamos da Estrada Real; em Ciências, da Mata Atlântica. Também passamos pelo Museu Rodoviário de Paraibuna, no município de Comendador Levy Gasparian”, dando alguns exemplos de atividades relacionadas. 

“A gente tem professores, pais e alunos que compram a ideia”, explica Luiza Helena Bertrand, a professora que deu início às aulas-passeio. “A escola inteira quer ir”, completa Regina, para quem o ideal seria a criação de um modelo de escolas-irmãs. “Este tipo de projeto não tem despesa para a prefeitura porque é a própria comunidade escolar quem custeia o gasto com transporte e alimentação. Sou favorável à organização de uma rede dentro do estado do Rio de Janeiro, e mesmo a uma rede estruturada entre bairros com diferentes realidades. Aqui temos alunos que vêm de fora do município, como Nova Iguaçu, mas também de outros bairros, como Paquetá, inclusive irmãos de alunos do Instituto Benjamin Constant, que é nosso vizinho”, esclarece, fazendo referência a um dos mais tradicionais centros de ensino para deficientes visuais do país.

Trabalho de equipe 

Julia Klein Martins, de 14 anos, faz parte da Orquestra Sinfônica Juvenil Carioca e se apresentou com o violino elétrico que recebeu de presente de um patrocinador (Foto: Alberto Jacob Filho)

O professor de Geografia, Edno Pientznauer Junior, que além de dar aula é baterista, foi convidado pela escola para colaborar com a festa de recepção à comitiva vinda de Simão Pereira. “Não deu trabalho nenhum. Descobri que a escola está cheia de talentos musicais. Vou apenas acompanhar violinistas com meu pandeiro, num espetáculo bem diferente.” 

Quem também colocou a mão na massa com sua equipe de alunos do 7º ano foi a ex-aluna da escola e há 23 anos professora de Ciências Inês Mauad, montando uma mostra da participação da escola no projeto Globe da Nasa, que monitora o Aedes aegypti. Mais uma colaboradora entre tantos mestres, a professora de teatro Carmen Moreno exibiu o vídeo Atores Autores, produzido com turmas do segundo segmento, no qual os alunos criaram improvisações cênicas a partir da leitura de trechos de poemas e de textos de Filosofia.

Tanto esforço coletivo não poderia ter dado uma impressão melhor. Para o secretário municipal de educação de Simão Pereira, Sérgio Soares, o intercâmbio é uma oportunidade única para que as crianças conheçam uma realidade diferente da sua. Já a professora Nívea de Souza Vieira, diretora da E.M. Conceição Aparecido Rosso, que tem 360 alunos da creche ao 9º ano, compartilha a ideia de que o contato com uma informação cultural diferente enriquece muito o aprendizado dos alunos. “A visita gerou muita expectativa entre os meninos. Acredito até que seja a primeira viagem deles.”

Vídeo feito por Estefânia Freitas, mãe de aluno da E.M. Minas Gerais

Coincidências históricas

Em 1908, o bairro da Urca recebeu a Exposição Nacional, que celebrava o primeiro centenário da abertura dos portos às nações amigas, na qual pavilhões dedicados a estados da federação representavam a modernização do país, enquanto os pavilhões de outros países celebravam as boas relações internacionais. Apesar da maior parte destas construções ter sido demolida logo após o término do evento, em 1933 o pavilhão de Minas Gerais foi transformado em escola, como reivindicação local para a criação do bairro. Atualmente, a unidade atende 750 alunos, do 1º ao 9º ano, nos turnos da manhã e da tarde. Para completar a sintonia entre as duas localidades, Simão Pereira de Sá, que fundou o município mineiro que leva seu nome, era bisneto do fundador da cidade do Rio de Janeiro, Estácio de Sá.

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