Da série
Ruas do Rio
30 Novembro 2017
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O antigo Largo do Rocio, atual Praça Tiradentes, em 1817. Aquarela de Thomas Enders. Academia de Belas Artes de Viena, domínio público

Maior reduto da vida noturna do século XIX até as primeiras décadas do XX, a Praça Tiradentes é o mais antigo polo cultural do Rio de Janeiro. Seu DNA de lazer e entretenimento foi iniciado em 1813, com a inauguração do Real Theatro de São João (atual João Caetano), que agitou o cotidiano da cidade e transformou o então Largo do Rocio – como a praça era chamada na época – no centro nervoso da vida social carioca. A casa de espetáculos foi construída para atender a corte, pois o Ópera Nova, localizado no Largo do Paço (atual Praça Quinze), era modesto demais para acomodar a nobreza, além de não comportar as pretensões dos artistas vindos com a família real, que queriam encenar, na nova sede da monarquia portuguesa, os grandes musicais apresentados em Lisboa.

Antes da construção do teatro, o lugar tinha feições muito diferentes. Segundo relato do Padre Perereca em Memórias para servir à história do Reino do Brasil, quando a corte chegou ao Rio, o Largo do Rocio não passava de um grande descampado com muito capim e águas empoçadas, onde pastavam alguns bois e cavalos. As moradias eram pouquíssimas, modestas e malcuidadas. A melhor construção, erguida no fim do século XVIII, era a que hoje abriga o Centro de Referência do Artesanato Brasileiro (Crab) e que, com a chegada de D. João, foi adquirida e reformada pelo Visconde do Rio Seco para servir de sua residência.

Histórias e nomes

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Degredados de Portugal, os ciganos se instalaram na imediação da Tiradentes. Aguns enriqueceram traficando escravos. Interior da casa de um deles, em gravura de Jean-Baptiste Debret, 1820. Domínio público

Um século antes disso não havia sequer o Largo do Rocio. O descampado fazia parte do Campo de São Domingos, assim chamado porque negros devotos construíram (na confluência das atuais avenidas Passos e Presidente Vargas) uma igreja em louvor ao santo. A área ficava fora dos limites da cidade – a parte urbana ia até a Rua da Vala (atual Uruguaiana) – e só era frequentada pelas camadas mais baixas da população.

O Rocio só surgiu em 1721, quando foi desmembrado do Campo de São Domingos. Nessa época, vários ciganos degredados por D. João V, então rei de Portugal, já estavam instalados naquela área e, por isso, o lugar era popularmente chamado de Campo dos Ciganos. Depois que uma irmandade de negros oriundos da Ilha de Lampedusa, no Mar Mediterrâneo, iniciou nas redondezas, na década de 1740, a construção de um templo de devoção a uma imagem da Virgem Maria vinda de sua terra natal, a população também passou a se referir ao Rocio como Largo da Lampadosa.

Com a vinda da família real para o Rio de Janeiro, o Rocio ganhou mais um apelido: Terreiro da Polé. Isso porque o príncipe regente D. João mandou transferir (do Largo do Carmo para lá) o pelourinho – um poste de pedra encimado pelas armas reais, onde se fazia justiça em nome del Rey e que, por essa razão, além de lugar de castigos públicos, era local privilegiado de divulgação de editais, sentenças judiciais etc.

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O esvaziado evento de juramento de D. Pedro à constituição portuguesa. Em primeiro plano, o pelourinho. Gravura de Jean-Baptiste Debret, 1821. BN Digital, domínio público

Desde que a região do

Mangue (Mangal de São Diogo) foi aterrada e D. João ordenou que ali se fizesse um rocio pequeno (futura Praça Onze) para incentivar o povoamento da área, o Largo também passou a ser chamado de Rocio Grande, em contraposição ao outro que havia sido aberto na Cidade Nova.

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A execução de Tiradentes. Gravura da Revista Illustrada, por ocasião do centenário de sua morte. Edição de 29 de abril de 1892. Domínio público

Em 1821, um ano após a Revolução do Porto, D. João VI e o príncipe D. Pedro – pressionados por Lisboa, que exigia o imediato retorno da família real e medidas de recolonização do Brasil – juraram, a contragosto, a nova constituição portuguesa. O juramento foi feito na varanda principal do Real Theatro de São João, em um ato esvaziado, registrado pelo artista francês Jean-Baptiste Debret. Embora o evento tenha sido pró-forma, foi motivo para o Rocio ser oficialmente rebatizado de Praça da Constituição. A Rua dos Ciganos, entre o Largo e o Campo de Santana, também ganhou o mesmo nome (que permanece até hoje).

Por fim, em 1892, ano do centenário do enforcamento do alferes Joaquim José da Silva Xavier, o governo da jovem República – carente de símbolos que atraíssem a adesão popular ao regime e criassem uma consciência republicana – mudou o nome da Praça da Constituição para Tiradentes. Essa foi uma entre várias iniciativas tomadas para a construção do mito do “Mártir da Inconfidência”, o primeiro republicano morto e esquartejado pela monarquia portuguesa.

O antigo Largo do Rocio foi escolhido para homenagear o novo herói nacional porque ele teria sido enforcado naquelas imediações. Não há consenso sobre onde exatamente ficava a forca. Uns afirmam que era na atual Avenida Passos, na proximidade com a Presidente Vargas. Outros, entre a atual Praça Tiradentes e o Campo de Santana.

João Caetano e transporte público

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Durante o século XIX, até início do XX, os tílburis, usados como carros de aluguel, faziam ponto no Largo do Rocio. Gravura de H. Mutlow. BN digital, domínio público

Reduzido a meras paredes em razão de um incêndio ocorrido em março de 1824, o Real Theatro São João foi reerguido por Fernando José de Almeida, que havia sido o maior incentivador de sua construção junto ao príncipe regente D. João.

Reinaugurado em janeiro de 1826, com o nome de São Pedro de Alcântara, o teatro foi rebatizado de Constitucional Fluminense após a abdicação, em 1831, voltando a se chamar São Pedro de Alcântara a partir de 1838 – ano em que foi arrendado para o ator João Caetano, cabeça da companhia teatral brasileira mais célebre do século XIX.

Nessa época, a então Praça da Constituição já se tornara ponto de partida da primeira linha de ônibus de tração animal da cidade, com carros de dois andares puxados a quatro cavalos, que faziam, primeiramente, o trajeto entre o Rocio Grande e Botafogo e, depois, para outros bairros.

Em 1859, a praça transformou-se na estação central da primeira linha de bondes do Rio de Janeiro. A facilidade de deslocamento acabou estimulando, aos poucos, na praça e no seu entorno, a abertura de novos negócios de lazer, como casas de dança, salões, clubes e teatros.

Monumento e apogeu

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A estátua de D. Pedro I. Ao fundo, à direita, o arco feito para sua inauguração. Foto de Rafael Castro y Ordoñez, 1862. BN Digital, domínio público

O auge da Praça Tiradentes como polo de entretenimento ocorreu entre as décadas de 1870 e 1930, quando a Cinelândia lhe tomou o posto. Pouco antes do início do apogeu, em 30 de março de 1862, recebeu, com uma grande festa cívica, o primeiro monumento público do Brasil: uma estátua de bronze de D. Pedro I (hoje tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), esculpida pelo francês Louis Rochet, em que o imperador é retratado fardado sobre um cavalo, segurando as rédeas com a mão esquerda e exibindo a Constituição de 1824 com a direita. O monumento, glorificando o proclamador da Independência do Brasil, foi, aliás, mais um motivo para mudar o nome da praça, sobrepondo o herói republicano ao imperial.

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Foto Augusto Malta. Uso amparado pela lei 9610/98

Na década de 1860, havia se instalado, na Rua Uruguaiana, a casa de espetáculos Alcazar Lyrique, que trouxe para o Rio a novidade do teatro de vaudeville, que, com seus quadros musicais, apimentados e ligeiros, havia arrebatado o público parisiense, em especial o masculino, que se encantava com as atrizes que mostravam as pernas em cena. Surfando na onda do "café-cantante", como os cariocas da época passaram a se referir ao gênero, vários teatros foram abertos na Tiradentes e seu entorno.

Em 1872, na esquina da Rua Espírito Santo (atual Pedro I), foi inaugurado o Theatro Cassino Franco-Brésilien (atual Carlos Gomes), onde predominavam os espetáculos de café concerto. Em 1877, 1881 e 1882, o Variedades (futuro Recreio), Príncipe Imperial (Moulin Rouge e São José) e Novidades (Lucinda), respectivamente.

Várias outras casas de entretenimento, com ambientes mais informais e populares, foram abertas no entorno da Tiradentes nos tempos do Segundo Reinado e da República Velha, consolidando a praça como o grande centro da vida noturna da cidade e lugar das artes.

No livro O Rio de Janeiro do meu tempo, Luiz Edmundo descreve a noite da Tiradentes em 1901: 

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Personagens de Berliques e berloques, Theatro Recreio. Revista da semana, 12/5/1907. Domínio público

“Ao centro, o jardim (...) por onde passeiam, depois de oito horas da noite, moços de ares feminis (...) Das oito às oito e meia o Largo inteiro se agita. O povo começa a invadir os teatros. Na charutaria que está junto ao Moulin Rouge (...), as discussões sobre a veia cômica do Brandão, as tiradas melodramáticas do Dias Braga (...) Do outro lado, na esquina da Rua Sete, é que fica o charuteiro Madruga (...) Mais adiante, o restaurante Mangine, e, perto, (...), o Criterium, café então considerado o melhor do lugar, e a Maison Desiré (...) Tudo isso iluminado, sem contar as lojas que estão abertas, até às dez horas da noite, dá ao logradouro uma animação só comparável à das grandes cidades”.

Depois das 22h30, continua Luiz Edmundo, quando os espetáculos terminavam, a praça se enchia novamente de gente e de uma confusão de vozes, brados e cantorias. Era a hora em que os bares, cafés e restaurantes lotavam. Na Rua do Espírito Santo ficavam as “casas de comer de terceira ordem”, que espalhavam pelo ar o cheiro das iscas de fígado fritas em gordura de porco, vendidas “com elas ou sem elas” (as batatas).

Esvaziamento

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Teatro João Caetano, símbolo da Praça Tiradentes. Foto Gaban, Wikimedia Commons

Na década de 1940, a Tiradentes já havia perdido grande parte de seu público para a Cinelândia e a Zona Sul. Mas se transformou no grande reduto do teatro de revista da cidade, no lugar preferido das vedetes, bailarinos, atores, coreógrafos e todos os demais profissionais envolvidos com esse tipo de espetáculo. Nessa mesma época, a Gafieira Estudantina, recentemente fechada, também se instalou na praça, com seu estatuto pendurado nas paredes, proibindo, entre outras coisas, beijos longos, bermudas, shorts e camisas sem manga – normas que acabaram eternizadas por Billy Blanco, em sua música Estatuto da gafieira: “Moço / Olha o vexame / O ambiente exige respeito / Pelos estatutos / Da nossa gafieira / Dance a noite inteira / Mas dance direito”.

A vida cultural na Tiradentes talvez tenha sido a que mais se ressentiu da política, instaurada por Getúlio Vargas, de fechamento de casas noturnas na região central – o início do processo de transferência do polo de entretenimento para a Zona Sul.

Mas a praça resistiu e sua transformação, em 1984, em Zona Especial do Corredor Cultural, junto com a iniciativa de alguns pequenos empresários, tem buscado fazer jus à sua importância histórica para a cidade do Rio de Janeiro.

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