09 Outubro 2017
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Em 2016, a E.M. Orsina da Fonseca (2ª CRE), na Tijuca, recebeu a visita de atletas da equipe Rexona-Sesc, inclusive Roberta, que foi aluna do projeto Vôlei em Rede no Paraná (Foto: Adriana Lorete)

Depois de ter passado sete horas na escola, a única forma de fazer uma criança permanecer mais 50 minutos, duas vezes por semana, por livre e espontânea vontade, é tendo alguma proposta irrecusável. Mas não vá pensar, por causa do nome, que se trata apenas de esporte: o Vôlei em Rede enfatiza valores de uma maneira tão verdadeira que acaba pegando seus alunos pelo coração. 

Dois anos depois de ter sido fundado, em 2003, o Instituto Compartilhar criou esse projeto, em meio a uma série de outras iniciativas em benefício da educação e, de lá para cá, ele se espalhou por várias cidades brasileiras. No Rio de Janeiro, iniciou suas atividades em 2010, com cinco núcleos; dobrou o número no ano seguinte e, a partir de 2014, passou a atuar com 15 núcleos. O público-alvo tem sido alunos da Rede Pública Municipal de Ensino a partir de nove anos, que, no contraturno das aulas, têm contato com a Metodologia Compartilhar de Iniciação ao Voleibol.

Acima de tudo, uma grande oportunidade de contato humanizado

Quadra, rede, bola, regras e o número de participantes são adaptados para as diferentes faixas de idade, se sofisticando à medida que os aprendizes crescem. Até o momento, mais de cinco mil crianças e adolescentes já foram beneficiados pelo projeto Vôlei em Rede nos Núcleos Rio. “Os professores têm como meta realizar ao menos quatro eventos internos, que chamamos de festivais. Anualmente, promovemos um grande encontro, reunindo todos os núcleos, quando cada um pode selecionar, com base em critérios comportamentais e não técnicos, 40 alunos. Nesse grande festival, acontecem oficinas relacionadas aos valores trabalhados no projeto (cooperação, responsabilidade, respeito, autonomia, autoestima e superação) e jogos de minivôlei nas categorias mini 3x3, mini 4x4 e vôlei”, explica o analista de projetos do Instituto Compartilhar, da sede em Curitiba, Vinicius Petrunko. 

Vinicius com um grupo de crianças em Itu, SP (Foto: Instituto Compartilhar)

Muito embora o objetivo principal seja a educação fundamentada na valorização das pessoas, alguns participantes têm ido mais além. “Como o projeto Vôlei em Rede Núcleos Rio é um pouco mais recente, agora é que os alunos mais velhos estão chegando nas categorias de base de alguns clubes cariocas. No caso do Paraná, que é um projeto mais antigo, temos vários casos de alunos que seguiram a carreira profissional no voleibol, sendo que o de maior destaque é o da levantadora Roberta, da equipe do Rio de Janeiro, e, atualmente, também da seleção brasileira.” 

Encantamento é comum entre os professores

Com licenciatura plena em Educação Física, Tatiana de Abreu Costa, coincidentemente, entrou para a Rede Pública Municipal do Rio na mesma época em que surgia o Instituto Compartilhar, há 14 anos. Tatiana atua no Vôlei em Rede desde que ele começou na cidade, é uma das professoras mais experientes e, por ter sido atleta da modalidade, é muito admirada pelas suas três turmas.

Atualmente, o número total de alunos na E.M. Orsina da Fonseca chega a 57, já que o Núcleo Tijuca recebe também estudantes de mais duas escolas da redondeza – a E.M. General Euclydes de Figueiredo e a E.M. Francisco Cabrita. “Acho importante desconstruir a ideia de competição. Do que mais os garotos estão precisando são valores mesmo, que estão se invertendo. Estimulamos o respeito a tudo o que envolve a aula – material, colegas, professores, a escola – e eles acabam se identificando, se envolvendo e fazendo parte. Também recomendamos que repitam esses modelos na própria casa. Nossa preocupação é educar, e isso tem um papel até maior do que o esporte em si”, afirma Tatiana. 

Marcelo Augusto durante aula na E.M. Orsina da Fonseca (Foto: Alberto Jacob Filho, 2017, MultiRio)

Marcelo Augusto de Lima Pereira tem 15 anos e há três participa do projeto. “Aqui é minha segunda casa”, resume, abrindo um sorriso, abraçado a Caio George Guimarães, de 17, que há três meses aceitou o convite do amigo, se inscrevendo no curso. “Os mais velhos geralmente se encontram para jogar fora daqui. Crescem, vão saindo da escola, mas continuam a praticar”, explica Tatiana. A coordenadora técnica Mariana Almeida Cochrane conta que nos núcleos mais antigos, como Ilha do Governador, Inhaúma e Taquara, os ex-alunos continuam participando como monitores. “Fica o vínculo. Alguns chegam a dizer que querem estudar Educação Física para, futuramente, dar aula no projeto.” 

Gente que acredita no que faz

Mariana começou no Instituto Compartilhar em 2008,como estagiária de outro projeto, realizado no Forte do Leme, chamado Esporte em Ação. Foi professora do Vôlei em Rede entre 2010 e 2014, e há dois anos é a responsável por zelar pelo controle de qualidade da metodologia no Rio. “A gente vê como os professores estão sempre motivados e vão além, não só tecnicamente, mas no empenho pelo desenvolvimento humano através do esporte, que é nosso principal objetivo”, explica. “O trabalho vem evoluindo bastante. Quando eu entrei, não existia o caderno de exercícios que serve de referência para o professor. A gente acabava a aula, anotava tudo e depois mandava para Curitiba.” 

Para garantir a qualidade das aulas, cada turma tem, no máximo, 24 alunos e 1 bola por aluno (Foto: Alberto Jacob Filho, 2017, MultiRio)

“Não é fácil fidelizar o aluno, porque o leque de opções de atividades que existe hoje em dia é bem grande”, ressalta Renata Régis, que coordena a parte administrativa do projeto desde 2012. “Mas posso dizer que nenhum outro tem tanta infraestrutura. Oferecemos as redes, os postes, a pintura das quadras, todo o material para alunos e professores e uma bola para cada criança. A cada dois anos, os professores passam por uma capacitação em Curitiba. Além disso, é uma delícia chegar nas escolas, que visitamos, alternadamente, todos os dias, porque as crianças convidam a gente para jogar com elas. “Mariana e Renata têm um contato direto com Cristina Brum, coordenadora de projetos de Educação Física e Esportes da Secretaria Municipal de Educação, e ressaltam que existe uma lista de requisitos necessários para que uma unidade escolar se candidate à parceria, como dispor de quadra coberta com dimensões compatíveis. Em contrapartida a tudo que é oferecido, há exigências a serem cumpridas. 

Festival de Encerramento: só no Rio de Janeiro, 804 crianças e adolescentes participaram do Vôlei em Rede em 2016 (Foto: Adriana Lorete)

“A procura dos professores para entrar no projeto é grande. Por outro lado, é preciso lembrar que, todo mês, o professor participante precisa enviar um relatório detalhado, cumprir algumas metas e organizar eventos”, lembra Mariana. Renata completa: “Realizamos o Festival Interagindo, que acontece entre os núcleos, com a proposta de misturar todo mundo, e acontece isso mesmo, com os meninos trocando telefone e contato no Facebook. O ponto alto é o Festival de Encerramento, em que a gente monta mais de 20 quadras e passa uma manhã inteira jogando. Já aconteceu na Vila Olímpica do Caju e na Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Ilha do Fundão, mas, este ano, ainda não definimos o local. Por ora, sabemos que deve ser no fim de novembro ou no início de dezembro.” A julgar por 2016, vai ser novamente um megaevento. 

O precursor do Instituto Compartilhar foi o Centro Rexona de Excelência ao Voleibol, criado há 20 anos pelo mesmo ex-jogador, batizado como Bernardo Rocha de Rezende, mas conhecido como o técnico Bernardinho.

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