30 Agosto 2017
0
0
0
s2sdefault
 

Foto: Arquivo pessoal da professora

Não é incomum ouvir reclamações sobre a falta de recursos em escolas públicas. Mas o que se pode fazer diante disso? Na E.M. Ruben Berta (8ª CRE), em Bangu, Regina Lúcia Ribeiro da Silva vem mostrando, há anos, que dedicação e persistência podem levar a práticas pedagógicas exitosas.

Disposta a levar atividades e modalidades esportivas diversas a seus alunos, a professora já participou de diferentes cursos e capacitações, contatou autoridades políticas, confederações esportivas e até o Comitê Olímpico Brasileiro para estabelecer parcerias e obter equipamentos e materiais para apresentar modalidades como o badminton, o rúgbi e o hóquei sobre grama a seus alunos.

Ela afirma que equipamentos e esportes “menos convencionais” despertam a curiosidade dos alunos e têm ótima aceitação, apesar de certa resistência inicial. “Primeiro, eles falam que não sabem. Depois, dizem que não conseguem. Mas, quando percebem que é algo diferente, querem aprender. Quando conseguem, a atividade torna-se mais legal ainda! Os equipamentos, como os de badminton, também despertam um interesse de imediato. Eles querem saber se é uma raquete de tênis, se é uma peteca, chama a atenção.”

Uma vez por mês, a professora deixa uma aula livre para que os alunos decidam a atividade que querem praticar. “A minha alegria é que eles não escolhem o futebol, optam pelo rúgbi, por exemplo. Estão buscando atividades diferentes, adaptam os esportes, vão dando a forma, criando, é muito legal”, conta, orgulhosa.

Em suas aulas, Regina Lúcia busca trabalhar habilidades psicomotoras, coordenação, lateralidade, velocidade, diferentes esportes e, principalmente, valores como o respeito, a amizade, a igualdade, a determinação, a excelência, a coragem, a inspiração e o jogo limpo, tudo de forma integrada.

“Tento sempre levar aos meus alunos o maior cardápio de habilidades motoras possível. Além dos esportes, trabalho com danças, folclore, brinquedos cantados, brincadeiras de rua e jogos cooperativos. Não costumo dar aulas teóricas no quadro porque eles já têm muita coisa para copiar no dia a dia. Apresento as atividades e os esportes na prática, na quadra, junto com eles. E não precisam aprender e aplicar todas as regras minuciosamente”, explica a professora, que também exibe filmes que destaquem alguns esportes.

O tema reciclagem faz parte das aulas da professora, o que, em um primeiro momento, poderia parecer impensável para uma aula de Educação Física. “Moldamos uma raquete de tênis de mesa usando papelão. Nisso, pude trabalhar também a coordenação e a atenção dos alunos. Eles decoraram o objeto, eu expus na quadra da escola e fizemos um concurso, em que eles votaram na mais bonita”, conta Regina Lúcia, que deu ao vencedor uma caixa de chocolates.

Busca por equipamentos e formação continuada

Em 2007, durante os Jogos Panamericanos, após ouvir o então prefeito do Rio, César Maia, dizer que iria popularizar o badminton, a professora não teve dúvidas: quis participar dessa empreitada.

“No mesmo dia, enviei um e-mail para o prefeito, descrevendo a Escola Ruben Berta e a comunidade da Vila Aliança, pedindo para participar desse projeto. Para minha surpresa, logo no dia seguinte, recebi uma resposta dizendo que a nossa escola seria a primeira do Projeto Badminton”, relembra Regina, que, com isso, pode fazer um curso de capacitação no Centro Desportivo Miécimo da Silva e ainda levar uma colega com quem trabalhava na Ruben Berta.

“Éramos as únicas professoras da SME lá! Quando acabou o curso, não tínhamos material para trabalhar. Então, pedi ao secretário municipal de Esportes e Lazer, que me enviou quatro raquetes e duas petecas. Mas, como trabalhar com 40 alunos com aquela quantidade de material?” 

Foto:Arquivo pessoal da professora

Foi então que, incansável, a professora buscou, com êxito, autoridades políticas e outros contatos que pudessem ajudá-la a prover os equipamentos necessários para trabalhar com as turmas. Depois de fazer um curso pela Confederação Brasileira de Badminton, Regina também ganhou equipamentos. 

Em 2014, quando a E.M. Ruben Berta foi convidada a fazer parte do Programa Transforma, da Rio 2016, a professora participou de diversas capacitações, como rúgbi, hóquei sobre grama, tiro com arco, atletismo, golfe, esgrima, futebol de cinco, goalball, bocha e tênis.

“Aprendi a fazer material alternativo, mas só isso não resolvia. Então, com muita insistência e com toda cara de pau do mundo, fui pedindo aqui, chorando dali. Consegui material de hóquei sobre grama e golfe emprestado pelas respectivas confederações; fui sorteada com 5 raquetes e 10 bolinhas de tênis em uma das capacitações que participei; comprei mais 30 bolinhas e 5 raquetes com a ajuda de amigos de clube e de faculdade; e, com material obtido junto ao Comitê Olímpico, realizamos dois eventos esportivos na escola: o Festival Olímpico Ruben Berta e o Experimentando as Diferenças.”

A fim de proporcionar uma experiência nova a seus alunos, arrecadou com os professores da escola o dinheiro para levar 40 estudantes aos Jogos Paralímpicos. “Depois de muito chorar, consegui 5 ônibus, lanches, camisas e 250 ingressos”, comenta.

Em 2017, Regina participou da implantação, na Ruben Berta, do projeto Try Rugby, desenvolvido pelo Conselho Britânico e que usa o esporte combinado com a educação, desenvolvendo atividades motivadas pelos valores básicos do rúgbi.

Educação Física, uma disciplina diferenciada

Quando criança, Regina Lúcia quis ser chacrete, bailarina clássica e ginasta. Até que, encantada com sua professora de Educação Física, Rachel Mesquita, decidiu, definitivamente, lecionar a disciplina. Formou-se em 1983, na Escola de Educação Física de Volta Redonda, e pós-graduou-se em Educação Física Escolar.

A paixão pelo esporte também veio da família. “Meu pai foi técnico de futebol de salão, juiz de futebol, de handebol, de basquete, de vôlei, e também jogava bocha. Desde cedo, fiz ginástica e natação, vi meus irmãos praticando judô e basquete. O esporte sempre esteve presente na minha casa”, relembra.

Regina Lúcia começou a trabalhar na rede municipal de ensino do Rio em 1986, passando pelas escolas Souza Carneiro, na Penha (4ª CRE); Marechal Alcides Etchegoyen, Café Filho, Pracinha João da Silva e Ciep Olof Palme, todas em Bangu (8ª CRE), assim como a Ruben Berta, onde teve uma passagem em 1991 e está desde 1996.

Ela acredita que a Educação Física deveria ocupar mais espaço na escola, mas também critica a atuação de alguns profissionais da área. “Muitos cursam a graduação porque são atletas, gostam de um esporte, querem ser técnicos, viver aquela vida. Mas não conseguem, vão para a escola e dão aulas técnicas ou só daquele desporto. Do outro lado, estão os que se encantam pela educação, pelo movimento em si. Esses, na escola, usam o esporte como instrumento. A Educação Física não é o esporte. Tem a dança, o jogo, a brincadeira, o folclore, usa-se tudo isso.”

A professora também ressalta que ainda há pessoas que veem essa disciplina como brincadeira. “Se você não sabe se mover, não aprende nada. Alguns professores falam, ironizando, que Educação Física, assim como Língua Inglesa e Artes, é submatéria. Eu digo que até pode ser, mas é a disciplina mais querida! Se o professor falta um dia, todos reclamam!”, retruca Regina.

A relação com os alunos já é, por si só, bem diferente da que é construída em outras disciplinas. “Há mais intimidade, podemos encostar no aluno, dar carinho. Se estamos na quadra jogando e eu erro um passe, o aluno percebe que o professor também pode errar e se vê em um patamar de igualdade.” 

Regina em meio aos alunos, que posam com equipamentos de diferentes modalidades esportivas (Foto: Arquivo pessoal da professora)

O maior desafio na escola, segundo Regina, é fazer com que os alunos do Projeto Aceleração envolvam-se e participem das aulas de Educação Física. “Pelo que converso com outros colegas, essa angústia não é só minha. Apesar de ter todo o apoio da direção, espaço e material, esses alunos são muito resistentes. Cheguei a criar o Clube Ruben Berta, para que eles escolhessem a bola ou o esporte que gostariam de praticar, mas não se mobilizam”, relata, um tanto frustrada, antes de fazer um contraponto.

“A felicidade no rosto dos meus alunos quando aprendem algo novo é enorme, linda de se ver. A minha maior alegria é ver que aprenderam; que quando estão nas horas de lazer, podem praticar uma atividade diferente; que conseguiram captar os valores que tento passar...É saber que eu fiz a diferença na vida deles.”

Mídias Relacionadas
Relacionados
Mais Recentes