15 Agosto 2016
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Mario Sergio Cortella é filósofo e professor (Foto: Alberto Jacob Filho)

Ética é o conjunto de princípios e valores que usamos para decidir nossa conduta social. Se só existisse um ser humano no planeta, não existiria a questão ética, porque ela é a regulação da conduta, da vida coletiva. Esse ser único seria absolutamente soberano para fazer tudo sem se importar com nada. Como vivemos todos juntos, temos que ter princípios e valores de convivência, de maneira que tenhamos uma vida íntegra, do ponto de vista físico, material e espiritual.

A ética é o conjunto desses princípios de convivência. A moral é a prática. Não existe ética individual, existe ética de um grupo, de uma sociedade, de uma nação. Porém, existe moral individual, porque moral é a prática. Ainda não temos uma ética universal, isto é, que tenha validade para todos os seres humanos em qualquer tempo e em qualquer lugar. O que mais se aproximou disso foi a Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948.

As grandes questões éticas

As grandes questões universais são: O que é certo e o que é errado? O que é o bem e o que é o mal? Tenho um princípio pessoal para julgar o que é bom e o que é ruim.Tudo o que eu fizer que ajude a mim ou outro ser humano a ter mais vitalidade e não diminua sua dignidade e capacidade é bom. Tudo o que eu fizer que diminua sua dignidade, capacidade ou vitalidade não é bom.

As questões éticas podem mudar ao longo da história. O advento das plataformas digitais, por exemplo, trouxe novas questões éticas relacionadas à ideia de privacidade. A ética é relativa ao seu tempo. Ela só é compreendida quando se levam em consideração a sociedade em que surge, a época em que vem à tona e também a cultura em que se situa.

Só se pode dizer que uma pessoa não tem ética se ela for incapaz de decidir, julgar e avaliar. Por exemplo, uma criança pequena, um adulto que tenha mal de Alzheimer ou esclerose senil, uma pessoa com distúrbios mentais. Estes, sim, não são capazes de escolher, decidir e julgar.

Um bandido tem ética? Claro. Na verdade, ele tem princípios e valores para julgar, decidir e agir. Eu chamo a ética do bandido de antiética. O político que frauda o orçamento, o professor que se vale de sua posição para exercer autoritarismo, o pai ou a mãe que é leviano naquilo que faz, todos esses têm ética: eu chamo isso de antiética.

A antiética é o que colide com o que eu entendo como saudável. Nós somos capazes de escolher o que nos faz mal, mesmo sabendo das consequências. Por exemplo, comemos alimentos que nos fazem mal conscientemente. Essa capacidade de escolha e os princípios que a regulam é o que nós chamamos de ética.

Posso, quero e devo?

A ética é uma questão de autonomia (aquilo que vem de dentro). É a regra interna que tem de ser internalizada, e não apenas obedecida. Há coisas que quero, mas não posso. Há coisas que posso, mas não devo. E há coisas que devo, mas não quero. O equilíbrio na vida vem quando o que você quer é algo que você pode e algo que você deve.

Um grande pensador vindo do cristianismo, chamado Paulo, ou São Paulo, por alguns, tem uma frase clássica que é muito forte, em sua segunda carta aos coríntios: “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”. Posso fazer qualquer coisa porque sou livre, mas não devo fazer qualquer coisa. E o que não devo fazer? O que torna imunda a minha história, o que torna desonrosa a minha vitória, o que torna indecente o meu sucesso, o que torna nojento o meu patrimônio... Isto é, tudo aquilo que fraturar, apodrecer a minha integridade.

O ensino de ética na escola

É possível tratar a ética como tema. Ela não precisa ser uma disciplina no Ensino Fundamental, mas pode aparecer como um conteúdo no conjunto das disciplinas. No Ensino Médio, deve ser abordada, normalmente, dentro da Filosofia, porque é uma parte da Filosofia. Não é exclusividade, mas uma parte. E, no Ensino Superior, tem, sim, que aparecer como uma matéria, uma disciplina.

Mas não se ensina ética apenas falando ou pensando sobre ela. A ética é, acima de tudo, exemplar. Uma professora, por exemplo, precisa saber que na hora da entrada das crianças ou na volta do intervalo, ela não deve fazer uma fila e dizer assim: “Meninos de um lado e meninas do outro”, porque não se separa por gênero. A função de uma fila é organizar, e não separar por gênero. Qual é a finalidade disso? A vida não é assim. Você não vai a um supermercado e há caixa para homem, caixa para mulher; você não vai ao banco e há caixa para homem, caixa para mulher. Onde há essa separação? Em escola, penitenciária e hospício. Portanto, cautela!

Outro exemplo de natureza ética: é preciso respeitar o aluno. A primeira coisa que se tem de fazer ao começar a dar aula para uma turma é aprender o nome dos alunos, porque isso é um sinal de respeito, é a capacidade exemplar do trabalho pedagógico. E não adotar um material didático que seja antiético – por exemplo, que não seja pluriétnico.

Fui alfabetizado com livros em que, quando se falava de corpo humano, o desenho era de um sujeito alto, forte e loiro de olhos azuis, um sueco. A criança brasileira, de maneira geral, olhava para aquilo, olhava para ela, olhava em volta e não tinha identidade. Cautela para não falar em meia cor da pele, não falar em xampu para cabelos normais, nunca. Tudo isso tem a ver com o conteúdo da vida, da escola, da mídia.

Tudo é convivência

Até o século VI a.C., ethos (em grego arcaico) significava morada do humano, o lugar onde nós vivemos juntos. Depois, os gregos passaram a chamar de oikos, o que chamamos de ecologia. Se moramos juntos, temos que conviver bem. Os latinos traduziram isso por “moral” – morada, moradia – ou “hábito” – habitação. É onde vivemos juntos. Portanto, ética tem a ver com a nossa convivência. Não existe ser humano que tenha só vivência, tudo para nós é convivência. A educação também nos forma, eticamente, para a convivência.

Mario Sergio Cortella é filósofo e professor.

Artigo extraído do fascículo Conceito & Ação (parte I), da MultiRio, a partir de entrevista concedida à série de TV.

 

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